Artigo: Pior que o ‘quinto dos infernos’

Brasil Colônia. Foto: Reprodução

Por Raimundo Feitosa*

Os caminhoneiros puxaram o freio de mão e alguém pisou no acelerador da inflação, e conseguiu uma desculpa das boas. A culpa é deles! Em matéria exibida no G1 Rio na semana passada, a estarrecedora constatação: Uma acelerada na inflação como nunca visto antes nos últimos 23 anos, justificada com a seguinte chamada de capa: “Greve dos caminhoneiros acelera a inflação em junho”.  Uma semana depois, é o PIB que diminui e advinha de quem é a culpa? Deles! Por aqui a coisa é bem parecida. Em Brasília a CEB e o GDF aceleraram mais do que a inflação e também acharam um culpado. A crise hídrica!

 A explicação é perfeita

Os caminhoneiros pararam, o produto encareceu e o prejuízo foi repassado. A Companhia Energética de Brasília (CEB) que é só uma atravessadora do sistema elétrico em sociedade com o Governo do Distrito Federal, tá comprando energia mais cara. Por isso, saímos do lago (hidrelétrica) e caímos na caldeira (termelétrica) a vamos para o rombo de 400 milhões no cofre da sócia majoritária do GDF.

A solução é prática e a equação patética

Se a culpa não é deles, a conta também não. A culpa é de quem não mandou a chuva (Deus), mas ele não pode ser responsabilizado pelos 400mi. A saída foi arranjar um “pato”.  Aí vem a equação. Os especialistas se reúnem e decidem um aumento de 8,78% para a população e 8,88% para a indústria. Num rasgo de otimismo, eu imagino que alguém ponderou na reunião que a inflação ficou em menos de 3% e que, portanto, o reajuste de quase 9% não seria muito justo, mas alguém respondeu (maldade minha) que isso não importa, porque a justificativa é boa.

Maaaas…,

Como desgraça pouca é bobagem, o “pacote” veio completo, com racionamento de água, economia de energia, aumento da conta no relógio, aumento da conta no mercado (os 8,88% serão repassados) e mais a iluminação pública que é precária, para dizer o mínimo, na maioria das cidades do DF.

É sempre assim. Quem deve não paga e quem paga, paga duas vezes. Na crise de combustíveis pagamos na bomba e na gôndola. Na crise hídrica pagamos no relógio e na gôndola, mas é na crise política que pagamos a conta mais cara (perto do resto, o rombo da CEB é fichinha). A verdade é que o círculo vicioso, pleito após pleito, entrega o queijo para os “ratos” do poder que se revezam, ou, quando muito, mudam a cara sem mudar a sigla, o sobrenome e os velhos hábitos.

Isso tá pior que o “quinto dos infernos” do século XVIII, quando Portugal cobrava do Brasil colônia um quinto do ouro produzido aqui. Essa conta injusta e opressora vai continuar sendo paga e, a menos que eu esteja muuuuito enganado, sem reclamações.

Mas devo dizer que eu acredito no Brasil. Acredito que a seleção pode trazer a taça do hexa e acredito que o Brasil pode entrar em um círculo virtuoso, no qual o povo seja protagonista das mudanças que o País precisa. Se a seleção quer realmente trazer a taça, e se o povo quer realmente mudanças, o tempo dirá.

*Raimundo Feitosa – Jornalista, escritor, teólogo e colunista do Agenda Capital

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here