Pesquisador diz que, considerando os protocolos, dificilmente a vacina estará disponível em um ano, um ano e meio. Foto: Reprodução

“É importante ressaltar que todos cenários que fazemos são projeções, são exercícios especulativos. É necessário frisar que não há certeza em projeções”, afirma o virologista Flávio Guimarães da Fonseca, pesquisador do Centro de Tecnologia de Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Edison Veiga / Colaboração para o UOL, de Bled (Eslovênia)

Foram tantos filmes e séries de futuro distópico que, ao que parece, esse cenário chegou ao mundo real. Com a pandemia do novo coronavírus, o planeta vive um contexto semiapocalíptico. Em alguns países mais, em outros menos, as escolas estão sem aulas, os estabelecimentos comerciais foram fechados, o trabalho virou home office, as ruas estão vazias… Tempos estranhos de isolamento e quarentena, medo e pânico.

Se não houvesse limitação nenhuma (nem financeira, nem tecnológica) para uma solução realmente global, seria possível derrotar o vírus?

Com a ajuda de pesquisadores, a reportagem do UOL levantou seis cenários utópicos para deter o vírus Sars-Cov-2. Mesmo que eles sejam aqui levados ao extremo — e, portanto, realisticamente inviáveis, já que sempre contemplam um contexto em que toda a população mundial seria afetada — os especialistas lembram que, para chegar próximo dos bons resultados, é preciso priorizar a ciência.

“Todos os cenários propostos mostram que é imprescindível o investimento econômico e de pessoal especializado em ciência e tecnologia”, ressalta a bioquímica Graciele Almeida de Oliveira, que foi pesquisadora voluntária no National Institute of Health, nos Estados Unidos.

“É importante ressaltar que todos cenários que fazemos são projeções, são exercícios especulativos. É necessário frisar que não há certeza em projeções”, afirma o virologista Flávio Guimarães da Fonseca, pesquisador do Centro de Tecnologia de Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Cenário 1: Isolar 100% das pessoas em suas casas

OK. Há uma impossibilidade lógica nessa ideia: se todos estiverem isolados, como seriam supridos por serviços essenciais? Então vamos considerar que os casos de saída da quarentena seriam resolvidos com trajes especiais e detecção antes e depois do contato com o meio externo.

As maiores dificuldades seriam de ordem logística, garantindo o funcionamento mínimo da sociedade de forma remota, e o convencimento da população.

“Acho muito difícil convencer o brasileiro a ficar em casa. Precisa ter exército na rua, muita informação. E mesmo assim acredito que no máximo 50% ou 60% da população obedeceria”, diz o pesquisador Vasco Ariston de Carvalho Azevedo, professor da UFMG — atualmente na busca por testes diagnósticos para o novo coronavírus.

No caso da França, por exemplo, o governo instituiu multa para quem sair de casa sem motivo, durante o período de isolamento.

“Na realidade brasileira isso se torna ainda mais difícil diante do aumento do número de pessoas em situação de rua. Os dados do IPEA [Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada] de 2015 já apontavam cerca de 100 mil pessoas em situação de rua. Em São Paulo, houve um aumento de 60% de pessoas em situação de rua entre 2015 e 2019”, lembra a bioquímica Oliveira.

E quanto tempo seria necessário para os resultados? “A vantagem seria retardar a contaminação, com isso o sistema de saúde poderia ter leitos suficientes e salvar mais vidas. Mas acho que é quase impossível”, diz Azevedo. “A normalidade seria de três a cinco meses. É o que está sendo esperado. Mas a vida normal vai voltar muito difícil.”

“Teremos um novo normal”, acredita Oliveira. “Vamos ter de guardar fôlego para estabilizar os problemas sociais e econômicos que podem surgir em decorrência da pandemia. Mas, pensando na circulação de pessoas, Wuhan [na China, cidade onde os primeiros casos surgiram] colocou a cidade inteira, com 50 milhões de habitantes, em quarentena em 23 de janeiro. Hoje [na quarta-feira, quando a entrevista foi concedida ao UOL] é o segundo dia consecutivo em que foi registrado apenas um caso por dia. Quase dois meses depois. Temos que aprender com o que os outros países estão fazendo no combate ao vírus”, completa ela.

“Na ausência de vacina e de fármacos, isolar a população é a situação ideal”, aponta o virologista Fonseca. “Se conseguíssemos manter 100% das pessoas isoladas, quebraríamos a cadeia de transmissão. Se isso fosse possível, a epidemia seria contida em cerca de quatro meses.”

Cenário 2: Criar uma eficiente vacina, disponível para 100% da população

É o Santo Graal de pesquisadores em todo o mundo. Mas aqui há alguns problemas. O primeiro é que não se cria uma vacina da noite para o dia. Há vários protocolos que precisam ser respeitados. São três fases de testes, tanto em animais como em humanos. É preciso checar se a vacina não faria nenhum mal a quem a recebesse, se seria realmente eficaz e quais seriam os efeitos colaterais.

Também há a barreira econômica. Quem bancaria essa vacinação? Os países teriam como adquirir a vacina e colocar no calendário gratuito de vacinação?

“Seria o melhor cenário o desenvolvimento de uma vacina a que todo mundo tivesse acesso, e que as pessoas não tivessem de pagar por ela”, diz o virologista Jônatas Santos Abrahão, pesquisador da UFMG. “E que fosse de fácil transporte e todos os países aceitassem que as pessoas fossem vacinadas.”

Segundo o pesquisador, nesse contexto, “em três meses a gente poderia segurar a pandemia. É um cenário bem positivo, contando o tempo de vacinação e os cerca de 15 dias para que a pessoa soroconverta [desenvolva os anticorpos]”, explica.

O grande problema é que essa vacina ainda não existe. “E realisticamente, considerando os protocolos, dificilmente estará disponível em um ano, um ano e meio”, aponta Fonseca.

Normalmente, desenvolver uma nova vacina leva cerca de 10 anos — com toda a urgência, esse prazo pode se reduzir para meados de 2021.

Mas aí haverá outras barreiras. “Quem vai produzir? Uma companhia farmacêutica internacional? Não seriam todos os países que conseguiriam comprar os direitos e colocar no calendário de vacinação”, comenta Fonseca. “Se o vírus se tornar sazonal, poderíamos controlá-lo assim, como fazemos com a gripe hoje. Quanto maior a cobertura vacinal, menor a chance de o vírus circular. A vacina é a melhor estratégia do ponto de vista do custo-benefício, porque é muito mais barato vacinar do que tratar.”

Cenário 3: Desenvolver um remédio eficiente

Tratar os doentes não resolve a questão de forma coletiva — ou seja, interrompendo as transmissões. Claro que desenvolver o remédio é importante, mas apenas no nível individual, ou seja, para quem está infectado.

“Até agora, existem muitos fármacos sendo testados, mas nenhum se mostrou minimamente eficiente. Existem antivirais para outras doenças, mas ainda não se chegou a um para esta. Pode ser que algum laboratório tenha alguma coisa sendo trabalhada, mas nada foi publicado ainda”, comenta Fonseca.

Para desenvolver um novo medicamente, os protocolos costumam ser mais simples do que no caso das vacinas. Isso significa, conforme conta o pesquisador da UFMG, que, “se alguém descobre um fármaco hoje, é possível que em seis meses ele esteja no mercado”.

“Ainda assim”, prossegue ele, “o tratamento é menos eficiente que a vacina. E mais caro, já que o uso do medicamento não elimina a circulação do vírus, só trata a pessoa infectada e ela continua transmitindo enquanto ainda tem o vírus. A eficiência é limitada.”

O professor Azevedo lembra que “muitas transmissões ocorrem a partir de quem não desenvolve sintomas. O medicamento, portanto, só resolveria para salvar os casos graves. E as pessoas continuariam transmitindo a doença”.

Cenário 4: Criar testes baratos e universais

“A ideia de testar 100% da população foi aplicada em uma pequena cidade da Itália. E o sucesso foi absoluto”, diz o físico Silvio Ferreira, que estuda, na Universidade Federal de Viçosa (UFV), a propagação de epidemias. Ele se refere ao que ocorreu na pequena Vo Euganeo, onde todos os cerca de 3,3 mil habitantes foram testados, os contaminados isolados e, em poucas semanas, o novo coronavírus deixou de circular.

Se existisse um kit para que as próprias pessoas conseguissem testar se estão ou não contaminadas — e esse teste fosse fornecido em todo o planeta —, evitando assim que portadores do novo coronavírus tenham contato com os demais durante o período de incubação e desenvolvimento da doença, isso poderia frear as transmissões.

Seria uma versão mais eficiente daquilo que foi utilizado em espaços públicos na China — medidores de temperatura detectando se as pessoas estavam com febre, um dos sintomas possíveis para a doença.

“Isso seria perfeito, né? A pessoa sairia de casa sabendo seu diagnóstico e a avaliação nos locais de internação de tratamento”, diz Fonseca.

Ao que parece, os esforços científicos não caminham para esse sentido, pela dificuldade de simplificar o método de detecção e pelos custos envolvidos em uma distribuição maciça de tais kits. “É uma ideia virtualmente impossível”, completa o virologista. “As técnicas de diagnóstico para esse vírus ainda são complexas, não são daqueles que podem ser feitos pela própria pessoa.”

“A detecção do coronavírus em pessoas funciona com a coleta de secreção do paciente e, por meio dele, conseguimos identificar se há ou não material genético do vírus. Se houver, ele dá positivo. O método funciona, mas infelizmente a quantidade de testes realizados no Brasil ainda é baixa. Saber quem está contaminado é essencial no processo de conter a doença. Assim, conseguiríamos isolar o paciente e evitar que ele transmitisse a outra pessoa, quebrando o ciclo de transmissão”, acrescenta Oliveira.

Cenário 5. Desenvolver um produto para erradicar instantaneamente o vírus das superfícies de contato

“Este método já existe: o vírus é suscetível a água e sabão, detergente, éteres e álcool a pelo menos 70%”, lembra Fonseca. OK, não é nenhum raio destruidor de vírus, mas vale lembrar que é preciso caprichar nas lavadas de mão, nestes tempos de pandemia.

“Mas obviamente que isso tem eficiência limitada, porque a principal fonte de transmissão somos nós, e não a superfície. Alguém que espirra e joga esse vírus no ar. E esse tipo de abordagem não consegue evitar a transmissão aérea, que é a mais importante: 90% das transmissões acontecem assim, de forma que limpantes de superfície não têm eficácia tão intensa”, pontua o virologista da UFMG.

A bioquímica Oliveira explica que os vírus têm uma capa de proteção chamada de capsídeo. “É uma capa composta basicamente de lipídio e proteína. Destruir a interação entre os componentes que fazem parte do capsídeo destrói o vírus. O sabão, esse que a gente tem em casa, faz isso”, comenta ela. “Por isso a recomendação: lave as mão adequadamente com água e sabão. Está em casa? Lave as mãos com água e sabão. Não precisa do álcool gel. Guarde o álcool gel para quando precisar sair na rua.”

Um local perfeitamente desinfetado, por alguém adequadamente trajado, estaria Ok? “Esse ambiente ainda receberia pessoas possivelmente infectadas. Dessa forma, mais do que criar novos produtos, é se policiar e criar uma rotina de bons hábitos de higiene e limpeza de ambiente, tanto os nossos em casa quanto em ambientes públicos”, completa Oliveira.

“Em São Paulo, por exemplo, nem todos os vagões de trem e metrô ou os ônibus estão passando por um processo de desinfecção regular diante da pandemia. Há a necessidade de se criar uma rotina e, quiçá, uma cultura de oferecimento de melhores condições de transporte público. O entrave agora é incorporar essa prática na rotina, além, é claro, do custo envolvido no processo”, finaliza.

Cenário 6: Criar um detector high tech para identificar o vírus em pessoas ou superfícies

Digamos que tivéssemos um ‘detector high tech’ portátil, pelo qual, a partir de uma amostra de uma superfície, surgisse a resposta “contaminado”.

“Isso seria interessante, mas deveríamos ter, por exemplo, uma proteína do capsídeo que fosse única do novo coronavírus, e o vírus deveria estar em grande quantidade. Com a maior quantidade de proteína, o método analítico funciona com menores taxas de erro”, comenta Oliveira.

“Para menores quantidades de vírus, ou menor carga viral, a identificação ficaria por meio de uma coleta de amostra para teste. Até a resposta chegar, é melhor higienizar. Ainda é melhor manter a higienização do ambiente. Isso funciona contra o novo coronavírus e mesmo contra outros vírus”, finaliza a bioquímica.

O virologista Fonseca acredita que essa solução poderia ser interessante, mas realmente não existe nada parecido. “Seria tipo um scanning das pessoas. Na China, houve uma coisa próxima que era o medidor de febre, um aparelhinho utilizado nas saídas de metrô. Mas a febre é um indicador de infecção, que poder ser qualquer infecção. Existem limitações para desenvolver um detector mais eficiente, nesse sentido.”

Fonte: UOL

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