Hospital São Vicente de Paula celebra acolhimento de pessoas com transtornos mentais

Hospital São Vicente de Paula em Taguatinga-DF. Foto: Reprodução

Motivados pela semana da luta antimanicomial, pacientes e funcionários do Hospital São Vicente celebram a diversidade e o acolhimento de pessoas diagnosticadas com transtornos mentais

Por Marcelo Abreu – CB

Na oficina de culinária, de uniforme branco e touca no cabelo, um rapaz muito jovem, ainda na casa dos 30 anos, ajuda a preparar uma pizza. Sai de lá com um pedaço enorme, cheio de queijo, muito queijo, que derrete por entre os seus dedos. Oferece um pedaço ao repórter. Come com prazer. E, de repente, como se a pizza apetitosa perdesse todo o sentido, ele pergunta: “Você pode escrever uma carta pra mim”. Carta? Claro. Pra quem? Sobre o quê? Ele explica: “É uma carta de amor, pra Nivana”. Quem é Nivana? “É um amor que inventei”. Papel e caneta na mão, o mesmo que anota a sua história cheia de hiatos e escuridão, ele dita: “Nivana, tô longe de você, mas um dia a gente vai se encontrar. Eu acredito”. E diz, para que não seja esquecido no fim da carta: “Com amor, Maxuel”. Seu nome é Maxuel? “Não, meu nome é Maurício.”

Maurício é o nome do rapaz apaixonado por um amor inventado. Nivana existe apenas nos seus pensamentos. Mas, para ele, ela é tão real, que merece até uma carta de amor escrita por um desconhecido que acabou de lhe dar um abraço.

São 10h45. Estamos no centro de Taguatinga, cidade distante 20km de Brasília, uma das maiores do DF, com mais de 220 mil habitantes. É ali, no Hospital São Vicente de Paulo (HSVP) — que ficou para sempre conhecido como Hpap (Hospital de Pronto Atendimento Psiquiátrico, desde 1976),  a maior referência no DF para as dores da alma — de onde contaremos essas histórias de dor e descaminhos que nenhum remédio é capaz de amenizar. Talvez só uma carta de amor, para alguém que não existe e que nunca seja enviada.

O bombeiro militar reformado João Filho se apresentou durante a comemoração no hospital onde já foi atendido: “Um psiquiatra me incentivou a tocar. Comprei um sax e nunca mais parei” (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press )

Quarta-feira. Terceiro dia em que se celebra a Semana de Luta Antimanicomial, com encerramento amanhã, o Dia D. Instituído há 30 anos, o Dia Nacional da Luta Antimanicomial representa um marco no combate ao estigma e à exclusão de pessoas em sofrimento psíquico grave.

A proposta de dedicar um dia para lembrar a luta contra o aprisionamento de pessoas diagnosticadas com transtornos mentais surgiu em 1987, durante o 2º Congresso de Trabalhadores da Saúde Mental, em Bauru (SP). E, ontem, no Diário Oficial do DF, foi publicada a portaria 447, da Secretaria de Saúde do DF, que institui o Selo de Responsabilidade Social Mola (Movimento em Prol da Liberdade e Autonomia) desses pacientes, com a participação cada vez maior da comunidade e de entidades para a revitalização da instituição.

Menos internações

Traduzindo: quanto menos internações e drogas (exceto em casos muito graves, quando o paciente põe em risco a própria vida e a dos outros), melhores são as chances de uma vida menos aprisionada. Os psiquiatras, sempre cautelosos, evitam a palavra cura. É uma linha muito tênue entre a sanidade e a perda dela. Todo dia a luta é para não romper essa linha.

Durante toda a manhã de ontem, a equipe do Correio esteve no HSVP. Chegou em plena festa. Havia música, pizza, plantação e colheita na horta comunitária, pintura nas paredes do complexo, gente se exercitando nos aparelhos de ginástica do pátio, gente apenas observando. Gente falante. Gente calada. Um monte de gente. Quarenta e dois pacientes internados recentemente, divididos em 84 leitos, à espera de laudos e de um diagnóstico mais conclusivo, e mais 30 que vão e voltam, em sistema ambulatorial. Um público na faixa dos 18 aos 45 anos. Em média, por mês, são atendidos ali cerca de 8 mil pacientes.

São dores de todas as formas. E elas, quando não sangram fora do corpo, sangram internamente. “Em abril deste ano, tivemos 32 notificações de tentativa de suicídios, a maioria de jovens, pelos motivos mais diversos. Isso é uma questão urgente de saúde pública”, diz a vice-diretora do Hospital, psiquiatra Vanessa Luiz Gonçalves Silva, 43 anos, que conhece aquela realidade desde a residência. Tentativas que não ocorreram ali dentro. Mas fora. E a família, depois que eles foram atendidos em hospitais da rede, levou-os pra lá, para o tratamento e acompanhamento adequado.

A arte nas paredes faz parte do tratamento; durante a festa, os próprios pacientes produziram as pizzas para alimentar todos os convidados; Vanessa Silva, vice-diretora, e Leonardo Moreira, diretor da unidade
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press )

O diretor-geral do HSVP, psiquiatra Leonardo Moreira, 38 anos, queria fazer faculdade de filosofia. Desistiu. Depois, quis ser padre. Também desistiu. Fez medicina, casou-se, tem três filhos e, desde fevereiro deste ano, dedica-se à promoção do Selo de Responsabilidade Social. “Aqui, como psiquiatra, eu posso servir melhor.”

Para isso, o diretor conta com uma equipe multidisciplinar, composta por 24 psiquiatras, um clínico geral, um médico do trabalho, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, assistentes sociais, farmacêuticos, psicólogo, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional e nutricionista. São mais de 300 funcionários. Muita gente lutando por um tanto de gente que, de alguma forma, ultrapassou a linha do que se chama sanidade. “Ouvir é terapêutico”, diagnostica Leonardo, que tem feito do ouvido dele e da sua equipe o melhor dos remédios. “Ouvir e acolher são tão importantes quanto os remédios”, insiste.

Humanização

Passa das 10h. O pátio está lotado. Cada um inventando ou reinventando o seu próprio mundo. Leda, uma mulher de 42 anos, de Samambaia e com quadro de depressão grave, pede ansiosamente por um cigarro. O fumo ali é proibido porque pode interferir em algumas medicações e, de acordo com o quadro do paciente, representar risco para ele mesmo e para os outros. Todos os fumantes usam adesivos para inibir o vício.

Ismael, um rapaz de apenas 18 anos, do Recanto das Emas, balança as pernas num aparelho de ginástica. Chegou ali há menos de uma semana. Criou um mundo onde só ele entra e sai. Fala pouco, perde-se no olhar. O laudo da sua patologia ainda não está fechado. O pedreiro Antônio, 32, do Gama, dois filhos, separou-se da mulher. Mergulhou numa depressão e num abismo sem fim. No HSVP, ele tenta seguir a vida interrompida de uma hora para outra. E diz, com olhar bem longe dali: “Viver, às vezes, dói muito”. Darci Rodrigues, 43, enfermeira-chefe do Pronto Socorro Dia, está atenta: “Se não houver humanização, pouco se avança no tratamento”.

Num dos muros do pátio, um paciente, com ajuda de um artista plástico voluntário, escreveu: “E por não conseguir conviver com a liberdade, o ser humano inventou as grades”.

No som instalado no pátio, dando uma de DJ, Laércio, um paciente, com quadro grave de bipolaridade, comanda o ritmo funk. “Quero ficar bom, sair daqui e ajudar a minha mãe”, diz o rapaz de 26 anos, lutador de artes marciais.

No meio disso tudo, chegou um homem de 48 anos, bombeiro militar reformado, morador da Asa Sul, trazendo o inseparável sax. João Filho, casado, uma filha, treinado para salvar vidas, um dia rompeu a fina linha que separa e rotula as pessoas. “Tive pânico e uma depressão muito forte”, conta. Numa das crises, em 2006, parou no HSVP, ali onde ele hoje toca o seu sax e dá alguma esperança para quem sofreu como ele.

João fez o tratamento num centro do Corpo de Bombeiros. “Um psiquiatra me incentivou a tocar. Comprei um sax e nunca mais parei. A música me salvou”, diz. Há alguns anos livre dos remédios, João ficou famoso e conhecido no país inteiro ao cantar Garota de Ipanema, ao lado de Stevie Wonder, aqui em Brasília, em dezembro de 2013, quando o astro americano esteve em turnê pelo Brasil.

João estava no mesmo restaurante que o astro. Terminou de almoçar e esperou que ele saísse, do lado de fora, com o seu sax salvador na mão. Stevie ouviu a música que saía daquele instrumento. João se aproximou. Os seguranças tentaram barrá-lo. Stevie pediu que o deixasse vir. E ali mesmo, na porta daquela confeitaria na 205 Sul, a cena inusitada. João com o sax. Stevie e a sua gaita. Presentearam todos com a canção de Vinicius de Moraes e Tom Jobim. Foi um show.

Na manhã de ontem, ele foi, mais uma vez, retribuir tudo que viveu ali. Pacientes, médicos e enfermeiros dançaram.

Um dia por vez

O diretor administrativo da instituição, Victor Ibanez, um rapaz de 28 anos, de bermuda e camiseta, desenhava, com ajuda de grafiteiros da cidade, coisas nas paredes. “Um dos eixos da socialização é esse conjunto: arte, pintura e música. Isso diminui a necessidade de medicação e internação”,  explica ele. Nise da Silveira, uma psiquiatra alagoana que revolucionou o tratamento de quem padecia com transtornos mentais no país, lá nos anos 1940, pregava a mesma a coisa em instituições no Rio de Janeiro. E dizia, sempre: “Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura”.

Amanhã, no encerramento da Semana de Luta Antimanicomial e das comemorações do aniversário da instituição, haverá um grande desfile de moda. Estilistas famosos da cidade estarão lá, com os pacientes, dizendo que é possível. Victor pintava mais uma parede do pátio quando perguntado se as atividades se encerram nesta sexta. Ele parou de pintar e, emocionado, encarou o repórter: “Tem que ser um estado permanente. Essas pessoas não existem só nesta semana. Elas existem todos os dias”.

Por existirem todos os dias, Maurício, o rapaz do início desta reportagem, quer enviar uma carta de amor para sua amada inventada. Laércio que voltar a ser DJ e lutar a sua arte marcial. Antônio quer que a vida doa menos e sua família de volta.

Cada um com a sua dor. Em comum, eles têm apenas uma certeza: nos seus próprios labirintos, no meio da escuridão, quando tudo se apaga, todo mundo precisa sempre de todo mundo. Mesmo que, por alguns momentos, isso pareça tão confuso, nublado e desconexo. Talvez só assim possa doer menos.

Ouvir é terapêutico. Ouvir e acolher são tão importantes quanto os remédios”, diz Leonardo Moreira, diretor-geral do HSVP.

Tem que ser um estado permanente. Essas pessoas não existem só nesta semana. Elas existem todos os dias” afirma Victor Ibanez, diretor administrativo

Serviço

O Hospital São Vicente de Paulo está aberto à visitação e toda ajuda e parceria da comunidade é bem-vinda.  / Contatos: 3563-6111 | 3451 9722 | 3451 9700

Da Redação com informações do Correio

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