OPINIÃO: Cidadãos frágeis, presas fáceis

Crise? Outra? Maior? Em que setor? Quantas vezes ouvimos perguntas como essas?

Por Luiz Affonso Romano

As crises eclodem mundialmente e o nosso país não pode passar incólume por elas. Mas há crises e crises. As nossas crises, as crises em nosso país podem ser geradas por fatores econômicos externos, como a quebra das bolsas, crise na Ásia etc., mas elas têm uma fisionomia própria, gerada por fatores característicos e particulares de nossa realidade.

A solução para elas, ou pelo menos para uma boa parte das nossas crises, pode ser resumida por uma única palavra: educação.

A palavra educação tem vários significados reconhecidos e devidamente enumerados no “Aurélio”, mas apenas uma das acepções se enquadra naquilo que achamos primordial para uma mudança em nossa sociedade. Temos tido uma relação simplista com a educação, muitos a ela se referem como se pudéssemos restringi-la à escolaridade, à mera frequência a uma determinada escola e como se dela precisassem apenas as crianças. O dicionário nos diz que “educação é um processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral do ser humano, visando sua melhor integração individual e social”.

Um país que desperdiça, que mata no trânsito, que não observa a Ética, que não respeita as leis que seu próprio povo estabeleceu, que deixa velhos e crianças ao abandono é um país mal-educado. Não é mal-educado apenas porque seu povo não freqüentou uma boa escola: é mal-educado porque quer soluções que venham de fora, que não pensa como povo, que não se reconhece como povo, que não conhece seus direitos nem seus deveres.

Enfim, um país mal-educado é um país sem cidadania. Um país onde o lugar mais atraente é o aeroporto, certamente está sofrendo uma crise de identidade muito profunda.

Como podemos reclamar com nossos governantes a falta de policiamento, o trânsito caótico, a cidade suja, se avançamos os sinais, se estacionamos em lugares proibidos, se fazemos fila tripla na porta das escolas de nossos filhos, se atiramos papeis pela janela do carro? Se não casam suas filhas no civil para poderem, ludibriando, perpetuarem pensões? Será que estamos fazendo a nossa parte, será que estamos cumprindo o nosso papel de cidadãos? Ou será que estamos esperando que alguém o faça por nós? Quem irá, enfim, nos educar?

Temos excelentes profissionais, em diversos níveis de escolaridade, de técnicos de nível médio a PHDs, espalhados por este nosso planeta, mas somos, também infelizmente, reconhecidos mundialmente como um povo que não sabe se comportar. Quem não se lembra das recomendações das agências de turismo aos brasileiros que viajam para a Disneylândia?

A escola tem sido depositária de toda uma expectativa, a de que ela resolva todos esses nossos problemas. A escola é formadora, tem uma finalidade primordial, de valor inesgotável, mas sozinha ela pouco pode fazer. Vamos encontrar, provavelmente, adolescentes capazes de efetuar equações mirabolantes, mas que não conhecem fatos mais antigos ou até atuais de nossa História. Como podem amar e respeitar algo que não conhecem? Como será que esses adolescentes pensam o seu país? Que tipo de profissionais serão?

Parece-me impossível que alguém possa ser um bom profissional se do bojo de sua formação não fizeram parte o respeito ao próximo, à ética, à solidariedade e ao patriotismo. Será por causa dessa distorção que vemos, cada vez mais, pessoas bem informadas, competentes até, cometerem verdadeiros crimes contra os seus concidadãos? Essas pessoas foram certamente bem formadas à luz das ciências, mas não o foram através da ética e da razão do bem comum.

A escola tem como finalidade primeira formar bons cidadãos. Se tivermos bons cidadãos teremos bons garis, bons motoristas, bons executivos, bons médicos, bons advogados, bons cientistas e, certamente, bons governadores e bons presidentes. A qualidade de vida no Brasil é ruim acima de tudo e, principalmente, porque estão sendo formados cidadãos de má qualidade.

Não poderemos competir com profissionais de outros países, se não possuímos aquele sentimento que os impele a competir, a buscar melhor qualidade de trabalho e de vida e não o sucesso fácil e rápido. O que os leva a competir e buscar a superação de seus próprios limites é um profundo sentimento de nacionalidade. Como exemplo podemos citar a Inglaterra, a Alemanha, o Japão e os Estados Unidos como países que superaram os momentos mais difíceis com uma enorme demonstração de união e patriotismo, com o amplo conhecimento de seus direitos e de seus deveres; com o conhecimento e o reconhecimento de suas cidadanias.

É na mais tenra idade, na primeira infância no lar e na primeira escola, que se aprende, ou, pelo menos, se aprendia as primeiras regras, como aquela que diz que não se joga papel no chão. E hoje nos deparamos com copos, papeis, cigarros e outros objetos atirados das janelas dos carros de todos os tipos, nacionalidades e preços, sem que isso cause espanto ou constrangimento a seus ocupantes ou vizinhos de via pública.

As pessoas que clamam por melhores condições de vida nas cidades são as mesmas que sujam as ruas, avançam sinais, furam filas, poluem praias e lagoas, danificam o bem público, desperdiçam recursos naturais e alimentos, são os cidadãos bem informados, que tiveram acesso a bons colégios, ótimas universidades, que admiram a civilidade de outros povos, que afirmam querer o mesmo grau de civilidade em nosso país, mas sempre jogam a responsabilidade para isso sobre o governo, ou sobre alguém, isentando-se de seus compromissos com a sociedade, como cidadãos. Percebemos nitidamente que a formação dessas pessoas foi frágil.

Vemos, constantemente, indivíduos competentes enredados em subornos, jogos de vaidade, sucumbindo às ofertas de cargos e propinas. Podem ser bons profissionais, mas a fragilidade da educação tornou-os cidadãos frágeis e presas fáceis no jogo da ganância – presas que se justificam com a “lei de Gerson”. Esses dados contribuem para que o povo esqueça as reais possibilidades de nosso país, e que se acomode nesse descaminho de miséria e de violência.

Temos que recuperar a nossa capacidade de indignação. Clamar por uma sociedade mais digna, cobrar responsabilidades, mas sem nos furtarmos das nossas próprias responsabilidades. Investir maciçamente na educação e na ética, cortar o supérfluo, conscientizar a sociedade para a luta contra o desperdício de alimentos e de recursos naturais, lutando pelo bem comum, pelo bem-estar de nosso país e de nosso povo. Essa é a saída.

Da Redação com informações do Portal Administrador

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