OPINIÃO: O que o fogo não queimou no Largo do Paissandu

Prédio desaba após incêndio na madrugada desta terça-feira (1), no Largo do Paissandu, próximo à Avenida Rio Branco, na República, no Centro de São Paulo (SP). FOTO: FELIPE RAU/ESTADÃO

Por Raimundo Feitosa*

Um prédio em chamas na madrugada paulista traz à tona um problema social de proporções gigantescas. Qualquer observador me corrigiria agora, afinal não se trata de um, mas de vários problemas sociais envolvidos na tragédia do Largo do Paissandu, no centro antigo de São Paulo.

Os sem teto ocupavam um prédio público abandonado e, segundo relatos, todos pagavam aluguel a algum atravessador e dividiam os “apartamentos” com madeira. Um prédio de 24 andares sem elevador, com gambiarras elétricas, escadas sem corrimão, sem hidrante e sem extintores. Por alguma razão o fogo começou no quinto andar e, segundo especialistas, se propagou rapidamente, empurrado pela corrente de ar no fosso vazio dos elevadores, e alimentado pelo grande número de materiais inflamáveis no prédio.

Por que aquelas pessoas estavam lá? Se a ocupação era irregular porque pagar aluguel? E, pior ainda, para quem pagavam aluguel? Alguém colocou aquela gente lá e cobrou por isso.

Agora que a casa caiu (desculpe o trocadilho) alguém tem que pagar essa conta. O prefeito empurra para a União, o presidente da República (a maior autoridade do País) foi pessoalmente prestar solidariedade às vítimas, mas foi expulso pelas vítimas.

Desculpem-me, mas a minha ignorância me obriga a fazer alguns questionamentos.

Como 146 famílias vão parar dentro de um prédio público abandonado no coração da maior metrópole do País criando uma tragédia anunciada e ninguém faz nada para impedir isso?

Se a Secretaria Municipal de Licenciamento de São Paulo emitiu um relatório, há mais de um ano, apontando o risco de incêndio do prédio, porque ninguém fez nada a respeito?

Por que tamanha hostilidade ao presidente da República se ele seria, pelo menos teoricamente, a pessoa indicada para atender às reivindicações?

Se o prédio do Largo do Paissandu não é o único imóvel público abandonado ocupado por sem tetos em SP, estamos diante de um “sistema” de ocupação irregular. O que será feito agora em relação ao assunto?

Enquanto não tenho respostas para calar minha voz ignorante, a minha cabeça pensante monta um cenário. Vejo um movimento político que ocupa irregularmente, cobra aluguel irregularmente, se ausenta covardemente e joga a culpa no governo (não que o governo não tenha culpa).

O fogo queimou um prédio inteiro e, junto com ele, parte da história de muita gente, mas não queimou a mazela social que emerge dos escombros e insiste em mostrar sua cara rude e impiedosa na fumaça do Paissandu.

Tomara que a minha visão esteja totalmente equivocada, e, tomara mesmo, que o incêndio não seja criminoso. O mais trágico em tudo isso são as famílias inteiras, seja no Largo do Paissandu ou em qualquer outro canto desse país, esfaceladas não só por essa tragédia, mas de forma endêmica e duradoura, por um sistema que como um câncer social fere mortalmente nossa nação.

*Raimundo Feitosa – Jornalista, Teólogo e Escritor. Colunista do Agenda Capital

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