Veja a estratégia sinistra dos cigarros eletrônicos

Cigarro eletrônico. Foto: Reprodução

Sem controle, os aparelhos tornarão as crianças dependentes de nicotina

Por Dráuzio Varella

Eles foram lançados com o pretexto de ajudar fumantes a se livrarem da dependência de nicotina. Por alegarem não conter as substâncias cancerígenas e a fuligem resultantes da combustão do fumo evitariam riscos de câncer, doenças cardiovasculares e pulmonares obstrutivo-crônicas.

Numa demonstração inequívoca das intenções da indústria mais criminosa da história do capitalismo ocidental, a Altria —a maior fabricante de cigarros nos Estados Unidos, detentora das marcas Marlboro e Parliament, entre outras— acaba de investir US$ 12,8 bilhões na compra de 35% da Juul Labs, empresa que domina um terço do florescente mercado de cigarros eletrônicos do país.

Perspicaz leitor, não lhe soa estranho uma multinacional aplicar tal soma no fabricante de um produto destinado a combater aquele que ela mesmo comercializa?

Veja o que está por trás desse negócio.

1) A Juul manterá a independência, mas poderá usar a “infraestrutura e serviços”, pontos de venda e marketing direto aos consumidores de cigarros combustíveis por meio de propagandas inseridas nos maços, além de ganhar acesso ao mailing e à rede de vendas da Altria e de sua subsidiária, a Philip Morris.

2) Da mesma forma que os cigarros comuns, os eletrônicos são preparados para atrair crianças e adolescentes. Não é por acaso que muitos têm o formato de pen drives que podem receber carga em USB de computadores e contém aditivos químicos com gosto de chocolate, morango, crème brûlée e outros sabores agradáveis ao paladar infantojuvenil.

3) Graças a essas artimanhas, eles se tornaram sucesso de vendas entre adolescentes americanos. Inquérito conduzido em 2017 pelo National Institute on Drug Abuse entre 45 mil alunos do curso equivalente ao nosso ensino médio mostrou que 28% haviam fumado cigarros eletrônicos no ano anterior. Em 2018, esse número aumentou para 37%.

4) O mesmo inquérito revelou que em 2018 o número de alunos fumantes de cigarros comuns foi de 3,6%, queda expressiva em relação aos 22% de 20 anos atrás.

Como vários estudos demonstraram que, comparados aos não usuários de eletrônicos, os que fazem uso deles se tornam fumantes convencionais com maior frequência, não é necessário pós-graduação em Harvard para entender a estratégia sinistra: a indústria que vende nicotina empacotada em dispositivos para queimar tabaco sente que os lucros caem nos países de renda per capita mais alta e decide investir numa forma mais palatável de administrá-la às crianças, que seja considerada inofensiva pela sociedade.

A manobra nada mais é do que um golpe inescrupuloso para recapturar um mercado de dependentes de nicotina, ameaçado pelas campanhas educativas e as estatísticas que identificam o cigarro como fonte inesgotável de sofrimento e principal causa de morte evitável.

A eficácia da indicação dos cigarros eletrônicos no tratamento da dependência de nicotina é altamente questionável. Um estudo retrospectivo, publicado em 2017 no British Medical Journal, mostrou que eles elevaram a taxa de sucesso de 4,8% para 8,2%.

No entanto, em junho de 2018, foi publicado no The New England Journal of Medicine um estudo prospectivo conduzido com metodologia bem mais rígida, no qual apenas 1% dos fumantes de eletrônicos permaneciam livres do cigarro comum depois de seis meses de acompanhamento.

Em maio de 2018, um estudo publicado na Annals of Internal Medicine revelou que, seis meses depois de receber alta hospitalar, 10,1% dos que fumaram eletrônicos conseguiram parar de fumar, contra 26,6% dos que o fizeram sem usá-los.

Mesmo a pretensa justificativa de que eles evitariam os males do cigarro comum tem sido questionada. Evidências preliminares sugerem que também estejam associados ao risco de infarto do miocárdio, de enfisema e outras doenças pulmonares.

O Brasil tem feito muito esforço para reduzir o número de fumantes: proibição do fumo em ambientes fechados, aumento de impostos, advertências nos maços, restrições à propaganda, matérias educativas nas escolas e nos meios de comunicação de massa.

Os resultados não são desprezíveis. Segundo o Vigitel, em 2017, a prevalência do fumo entre nós era de 10,7%. Hoje, fumamos menos do que nos Estados Unidos e nos países europeus.

Se não adotarmos medidas preventivas enérgicas, andaremos para trás. Sem controle, os cigarros eletrônicos tornarão dependentes de nicotina milhões de crianças brasileiras.

Da Redação com informações da Folha

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