Com medo de retaliações e sem clareza de projetos, lideranças preferem adiar decisões e vivem no “modo espera” às vésperas de 2026.
Por Delmo Menezes *
Faltando menos de um ano para as eleições de 2026, o Brasil vive um cenário político de incertezas e contradições. Nunca se viu uma crise de identidade tão evidente entre os políticos quanto agora. Lideranças que, em outros tempos, demonstravam clareza de propósito e firmeza de projetos, hoje se encontram no chamado “modo espera”. A frase mais ouvida nas rodas de conversa políticas é: “Vamos aguardar mais um pouco para ver como as coisas vão andar antes de decidirmos”.
Esse comportamento revela o tamanho da insegurança que domina o ambiente político. De um lado, há o medo de retaliações — seja do Judiciário, seja das próprias forças políticas. De outro, a dúvida entre arriscar voos mais altos ou permanecer na zona de conforto de uma eleição praticamente garantida.
A crise de identidade passa justamente por esse dilema: ousar em projetos maiores, correndo riscos, ou se contentar com cargos de menor alcance, mas de vitória mais previsível. É a política de cálculos frios, onde a prudência beira a estagnação e a ambição, muitas vezes, conduz a derrotas irreparáveis.
Alianças frágeis e acordos improváveis
Nesse cenário de indefinições, surgem alianças frágeis, muitas vezes firmadas mais pela conveniência do que por projetos consistentes. São acordos que, desde o nascimento, carregam o DNA da ruptura. Quem acompanha a política sabe: dificilmente passa um dia sem que a imprensa registre a criação ou a dissolução de blocos, partidos e alianças.
Esses movimentos, porém, têm um custo alto. A cada ruptura, cresce a descrença do eleitor e se desgasta a credibilidade das lideranças. Afinal, como confiar em políticos que mudam de lado ao sabor do vento?
Entre Deus e o diabo
A metáfora bíblica ajuda a explicar a incoerência atual. Está escrito em Mateus 6:24: “Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro”. No campo político, tentar agradar a todos é o mesmo que servir a dois senhores.
Alguns líderes, na ânsia de garantir apoio, firmam pactos simultaneamente com forças antagônicas. Isso nunca deu certo. No curto prazo, pode render manchetes positivas. No longo prazo, gera descrédito, traição e rejeição.
A lealdade como pilar
Toda aliança duradoura precisa ter como fundamento a lealdade. Sem ela, qualquer acordo se torna apenas uma formalidade, pronta para ser desfeita à primeira divergência. A política brasileira, infelizmente, ainda carece desse valor. Muitos rompem compromissos de acordo com a conveniência do momento e, mais cedo ou mais tarde, acabam pagando caro.
O Brasil atravessa um momento de transição em que alianças frágeis e identidades políticas diluídas se sobrepõem ao debate de ideias. Um dos maiores entraves atuais é a radicalização dos extremos ideológicos, que fragmenta o diálogo e enfraquece a construção de consensos. O desafio que se impõe vai muito além das eleições de 2026: é urgente reconstruir a confiança na política. Esse processo só será possível com projetos consistentes, alianças pautadas pela coerência e, sobretudo, pela lealdade.
Enquanto isso não acontece, seguiremos assistindo a um espetáculo de pactos inconsistentes — acordos que começam e terminam na mesma velocidade com que são anunciados.
*Delmo Menezes – Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais com experiência em diversos órgãos da administração direta e indireta. Analista político e observador atento da política local e nacional. Editor-Chefe do portal de notícias Agenda Capital.





