A falta de capacitação continuada, o excesso de burocracia e a carência de investimentos em infraestrutura e formação docente compõem um quadro desanimador

Por Delmo Menezes

“Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais”. A frase do educador Rubem Alves traduz com perfeição a essência de ser professor — alguém que planta conhecimento e humanidade nas mentes e corações das pessoas, deixando marcas que o tempo não apaga.

Neste 15 de outubro, o Brasil celebra o Dia do Professor, data instituída oficialmente pelo Decreto Federal nº 52.692, de 1963, assinado pelo então presidente João Goulart. A escolha não foi por acaso: em 1827, o imperador Dom Pedro I sancionou a lei que criou o ensino elementar no país, marco histórico que, mais de um século depois, inspirou o educador Salomão Becker a transformar o dia em um momento de reflexão e confraternização entre os docentes.

Mais de 190 anos se passaram desde aquele decreto imperial, e 62 anos desde que a data foi oficializada. No entanto, a pergunta que ecoa neste 15 de outubro de 2025 é inevitável: o que realmente temos a comemorar?

Professores desvalorizados e mal remunerados

A realidade é dura. Em qualquer roda de conversa, dificilmente se ouvirá alguém afirmar que o professor é bem pago, respeitado ou valorizado. A profissão, que deveria ser motivo de prestígio, é muitas vezes sinônimo de luta, cansaço e frustração.

Ano após ano, governo após governo, a história se repete: baixos salários, condições precárias de trabalho, falta de estrutura e políticas públicas inconsistentes. Não é por acaso que o número de jovens interessados em seguir carreira docente despenca.

Pesquisas mostram dados alarmantes. Segundo o educador Mário Ghio Júnior, 70% das crianças do ensino fundamental I dizem sonhar em ser professores. No fundamental II, o número cai para 20%. E, no ensino médio, apenas 2% mantêm o desejo. Os próprios professores, muitas vezes desmotivados, desaconselham seus alunos a seguirem o mesmo caminho.

O drama das escolas e o analfabetismo funcional

As consequências desse cenário são devastadoras. O Brasil forma milhões de estudantes, mas muitos saem da escola sem compreender o que leem, sem escrever com clareza, sem raciocinar logicamente. O país convive com um dos maiores índices de analfabetismo funcional do mundo — uma ferida aberta na educação brasileira.

A falta de capacitação continuada, o excesso de burocracia e a carência de investimentos em infraestrutura e formação docente compõem um quadro desanimador. Enquanto isso, os professores enfrentam salas superlotadas, violência escolar e desrespeito — tanto dos alunos quanto de parte da sociedade que esquece que todas as outras profissões nascem das mãos de um professor.

O passado de respeito e o presente de desafios

Houve um tempo em que o professor ocupava lugar de destaque nas comunidades. Em cerimônias oficiais, sua presença era honrosa, dividindo espaço com juízes, prefeitos, promotores e outras autoridades. Ser professor era sinônimo de status e reconhecimento.

Hoje, a situação é outra. O país tem mais de 214 milhões de habitantes e uma infinidade de instituições de ensino superior, mas a qualidade do aprendizado e a valorização da docência não acompanharam esse crescimento. O Brasil ainda figura entre os últimos colocados nos rankings internacionais de educação, e isso deveria nos envergonhar como nação.

Educação como política de Estado

Melhorar a educação e valorizar o professor não pode ser apenas promessa de campanha ou plano de governo — precisa ser plano de Estado, compromisso permanente. Isso significa investir em formação, remuneração, infraestrutura e inovação pedagógica, com metas claras e continuidade entre gestões.

Precisamos romper o ciclo de improvisos e remendos. O futuro de uma nação depende da qualidade da sua educação, e essa qualidade depende da valorização de quem ensina. Sem professores motivados e respeitados, não há país que avance.

O professor: o mais importante entre todos

Como disse Immanuel Kant, “o ser humano é aquilo que a educação faz dele”. Essa verdade universal deve ecoar em cada sala de aula, em cada política pública, em cada gesto de gratidão.

Ser professor é mais do que uma profissão — é um ato de fé na humanidade, um compromisso com o futuro. Mesmo diante das dificuldades, há sempre aqueles que persistem, que acreditam no poder transformador do conhecimento e seguem inspirando gerações.

Neste Dia do Professor, mais do que flores ou homenagens, o que se espera é respeito, reconhecimento e ação. Que o Brasil, um dia, possa comemorar de verdade — com orgulho e gratidão — a existência desses profissionais que, nas palavras de Rubem Alves, “jamais morrem”, porque continuam vivos em cada aluno que ensinaram a pensar, a sonhar e a transformar o mundo.

Siga o Agenda Capital no Instagram>https://www.instagram.com/agendacapitaloficial

Da Redação do Agenda Capital (texto adaptado Reinaldo Polito)

Delmo Menezes
Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais com experiência em diversos órgãos da administração direta e indireta. Analista político e observador atento da política local e nacional. Editor-Chefe do portal de notícias Agenda Capital.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here