Por Delmo Menezes*
A pergunta, embora provocativa, é cada vez mais pertinente: ainda existem bons gestores nos órgãos públicos? A realidade observada em grande parte da administração pública brasileira sugere que, no lugar do espaço técnico e eficiente que deveria existir, impera um território político loteado. Muitos cargos de direção são preenchidos por indicações sem critério, entregues a pessoas que não compreendem a missão institucional do órgão que passam a comandar. O resultado é a paralisia administrativa e o sofrimento da população.
A situação ganha contornos de absurdo quando confrontamos a prática no setor público com a lógica do setor privado. Se o presidente de uma montadora fosse flagrado dirigindo o carro da concorrência, a desconfiança seria imediata. No entanto, no setor público, o que acontece é o inverso: é rara, para não dizer inexistente, a figura do gestor público — seja prefeito, governador, presidente ou dirigentes de órgãos públicos — que utiliza os próprios serviços que oferece à população, seja colocando os filhos em escolas públicas ou buscando atendimento no SUS. Esse abismo entre o discurso e a prática evidencia a falta de compromisso e a ausência de gestores realmente qualificados.
Em vez de profissionais técnicos, com experiência e visão de gestão, muitos órgãos são entregues a apadrinhados políticos, cuja principal credencial é a lealdade eleitoral. São os “imexíveis”, protegidos de figuras influentes, que permanecem nos cargos independentemente de seu desempenho. Essa lógica perversa é resumida na frase de um parlamentar: “Prefiro mil vezes indicar uma pessoa que me dê 300 votos do que um profissional preparado que possa fazer uma boa gestão“. É triste ouvir isso, porém é uma realidade.
Essa mentalidade resume o que ainda impera no sistema político-administrativo brasileiro. A busca não é por eficiência, qualidade ou resultados, mas sim pelo retorno político-eleitoral. O problema é estrutural: o loteamento de cargos e funções transforma secretarias, autarquias e estatais em feudos políticos, divididos entre partidos e grupos de interesse como “prêmios de campanha”. O mérito e a competência são substituídos pelo favoritismo e pelo compadrio. A má gestão, portanto, não decorre apenas da falta de recursos, mas sobretudo da carência de gestores competentes, comprometidos e éticos.
Gestão pública não se faz com decretos ou slogans, mas com exemplo. Um bom gestor é aquele que usa, fiscaliza e aprimora os serviços sob sua responsabilidade. É aquele que se coloca no lugar do cidadão — o verdadeiro “cliente” do Estado — e busca soluções práticas e humanizadas. Tratar o cidadão como cliente significa reconhecer que o usuário é o centro de toda a ação governamental. O sucesso da gestão deve ser medido pelo impacto positivo gerado na vida das pessoas, e não pelo número de cargos distribuídos ou alianças políticas formadas.
O Brasil precisa percorrer um longo caminho para romper com essa cultura de apadrinhamento e partidarização da máquina pública. É urgente a necessidade de uma nova geração de gestores que encare o serviço público com o mesmo zelo, compromisso e profissionalismo que um empresário tem pela sua empresa. Afinal, não há política pública eficaz sem gestão eficiente, e não há gestão eficiente com dirigentes escolhidos por conveniência política em vez de competência técnica.
A pergunta que fica é: será que é tão difícil agir assim? Ou será que a lógica do poder continuará prevalecendo sobre a lógica do serviço ao cidadão?
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*Delmo Menezes – Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais com experiência em diversos órgãos da administração direta e indireta. Analista político e observador atento da política local e nacional. Editor-Chefe do portal de notícias Agenda Capital.





