
O Brasil sofre com falta de gestores, modernização da administração pública e abundância de indicados
Por Delmo Menezes*
A falta de gestores técnicos em cargos estratégicos continua sendo um dos principais entraves para o bom funcionamento do Estado brasileiro. Apesar de a administração pública contar com milhares de profissionais capacitados, postos de comando são frequentemente entregues a indicados políticos, muitas vezes sem experiência na área e movidos por interesses partidários.
Segundo especialistas em gestão pública, o Brasil vive um paradoxo: há abundância de políticos disputando espaços dentro da estrutura estatal, enquanto faltam gestores qualificados para conduzir setores que exigem conhecimento técnico, planejamento e visão estratégica.
Cargos estratégicos usados como moeda de troca
A prática do loteamento político — a distribuição de posições de liderança entre partidos aliados — segue firme em todas as esferas de governo. Secretarias, autarquias, empresas públicas, hospitais, diretorias e superintendências tornam-se peças de barganha para garantir apoio no Legislativo ou acomodar interesses internos de coalizões.
Na avaliação de analistas, esse modelo enfraquece a governança e produz uma gestão fragmentada, com órgãos comandados por grupos diferentes e prioridades muitas vezes conflitantes.
“Quando a política ocupa espaço que deveria ser técnico, perdemos eficiência e comprometemos a entrega de serviços essenciais. Indicação política não é necessariamente ruim, mas quando se sobrepõe ao currículo, a sociedade paga o preço”, afirma um especialista ouvido pela reportagem.
Impacto direto no serviço público
Na prática, o loteamento afeta desde a continuidade de programas até a qualidade de decisões que envolvem bilhões de reais em recursos públicos. Cada troca de comando costuma provocar paralisação de projetos, troca de equipes e mudanças bruscas de prioridades.
Servidores de carreira relatam que muitas vezes ficam de lado, apesar de possuírem conhecimento acumulado e experiência prática, enquanto gestores sem preparo assumem funções de alta complexidade.
Essa rotatividade, segundo estudiosos, prejudica especialmente áreas como saúde, educação, segurança pública e infraestrutura — setores que demandam planejamento de longo prazo e gestão profissional.
Falta de critérios técnicos
Embora órgãos de controle defendam maior profissionalização da máquina estatal, ainda não há legislação que obrigue a comprovação de requisitos mínimos para ocupação da maioria dos cargos de chefia. Em muitos casos, basta a assinatura do governante e o aval de aliados para que o nome seja confirmado.
A ausência de critérios claros abre espaço para indicações baseadas mais em relações pessoais do que em capacidade de entrega. Para especialistas, isso afasta bons profissionais, compromete resultados e afeta diretamente a percepção de qualidade do serviço público.
Demanda crescente por profissionalização
Nos últimos anos, entidades da sociedade civil, gestores públicos e organizações do terceiro setor têm defendido a adoção de processos mais transparentes e meritocráticos para nomeações estratégicas, especialmente em áreas técnicas e de grande impacto social.
A adoção de processos seletivos internos, entrevistas estruturadas, avaliação de currículo e comprovação de experiência são apontadas como caminhos para reduzir o improviso e fortalecer a governança.
A prática do loteamento político não é característica de um grupo ou governo específico; é um problema estrutural que atravessa administrações de diferentes partidos e ideologias. Melhorar a qualidade da gestão pública, segundo especialistas, depende de um pacto institucional que coloque a técnica acima da política em áreas essenciais.
Até que isso aconteça, o país seguirá convivendo com improviso, baixa eficiência e políticas públicas vulneráveis às mudanças de comando — uma conta que recai sobre a população.
*Delmo Menezes – Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais com experiência em diversos órgãos da administração direta e indireta. Analista político e observador atento da política local e nacional. Editor-Chefe do portal de notícias Agenda Capital.






