Impulsionadas pela IA, campanhas de desinformação borraram a linha entre realidade e ficção em uma escala sem precedentes
Por Redação
De coelhinhos pulando em um pula-pula até teorias que tentavam classificar Adolf Hitler como comunista, passando pela falsa taxação do Pix no Brasil, 2025 entrou para a história como um dos anos mais intensos da desinformação global. Impulsionadas pelo avanço acelerado da inteligência artificial (IA), as fake news ganharam escala, sofisticação e impacto social sem precedentes.
Vídeos curtos, imagens geradas por IA, deepfakes e estratégias de segmentação nas redes sociais ampliaram o alcance de conteúdos falsos, borrando ainda mais a linha entre realidade e ficção. Enquanto algumas narrativas tinham caráter meramente sensacionalista ou de entretenimento, outras foram claramente criadas para manipular opiniões, interferir em eleições e alimentar tensões geopolíticas.
Ao longo do ano, a equipe de checagem de fatos da Deutsche Welle (DW) desmentiu dezenas de histórias falsas que influenciaram debates sobre política, saúde, clima, tecnologia, esportes e história.

Política: desinformação como arma eleitoral
As eleições foram um dos principais alvos das campanhas de desinformação em 2025, especialmente em países como Brasil, Moldávia, Estados Unidos e nações diretamente envolvidas em conflitos internacionais.
O presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, esteve no centro de diversas narrativas falsas. Circularam alegações de que ele teria perdido apoio popular e de que sua visita à Casa Branca teria sido marcada por rejeição — versões desmentidas por verificações independentes.
Nos Estados Unidos, o recém-eleito prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, tornou-se alvo de vídeos enganosos que mostravam bandeiras americanas sendo substituídas por palestinas e multidões muçulmanas na Times Square. As imagens, no entanto, eram antigas e não tinham qualquer relação com o político ou com o período eleitoral.

Saúde e clima: mentiras perigosas
A desinformação sobre saúde seguiu um padrão preocupante em 2025. Circularam desde afirmações bizarras — como a ideia de que protetor solar causaria câncer de pele — até conteúdos perigosos, como a falsa promessa de que uma alimentação saudável seria capaz de curar o câncer de mama.
No Paquistão, boatos durante a campanha de vacinação contra o HPV afirmavam que os imunizantes causavam infertilidade, o que gerou hesitação vacinal e até ameaças a profissionais de saúde.
No debate climático, imagens de satélite mostrando um crescimento pontual das geleiras na Antártida foram usadas para sustentar a falsa narrativa de que o aquecimento global teria acabado. Especialistas explicaram que se tratava de flutuações naturais e que o recorte temporal era insuficiente para indicar uma reversão das mudanças climáticas.
Tecnologia, esportes e história também viraram alvo
Com o uso de sistemas de IA generativa praticamente dobrando em 2025, segundo relatório do Instituto Reuters, também cresceu a confiança excessiva nessas ferramentas para checagem de informações — mesmo com erros frequentes.
Temas sensíveis, como o debate sobre mulheres trans no esporte, tornaram-se terreno fértil para narrativas falsas, intensificadas após decisões políticas nos Estados Unidos. A boxeadora argelina Imane Khelif, mulher cisgênero, foi alvo de boatos infundados que questionavam sua identidade de gênero.
Na história, números falsos sobre os bombardeios de Dresden, na Segunda Guerra Mundial, circularam amplamente. Enquanto estudos apontam cerca de 25 mil mortos, versões sem base histórica chegaram a inflar esse número em até dez vezes.
Outro caso emblemático foi a falsa afirmação de que Hitler seria comunista, feita por Alice Weidel, então candidata da ultradireita alemã, durante uma conversa com Elon Musk — tese rechaçada por historiadores.
Vídeos falsos que dominaram as redes
2025 também foi marcado por uma avalanche de vídeos virais falsos ou manipulados. Entre eles, um telão em show do Coldplay que reacendeu a teoria de que Os Simpsons “preveem” eventos globais — o que não passa de mito.
Imagens manipuladas por IA do jovem sírio Muhammad al-Muhammad, que ajudou a impedir um ataque em Hamburgo, colocaram sua participação em dúvida injustamente. Já um vídeo histórico de Jerusalém, de 1897, viralizou por estar colorizado — sendo real, mas com cores adicionadas artificialmente.
Também foram desmentidas histórias sobre o suposto cancelamento de mercados de Natal na Alemanha e falsas alegações de que teriam sido “invadidos” por muçulmanos.

Brasil: fake news com impacto real
No Brasil, uma das fake news mais impactantes de 2025 envolveu o Pix. Uma portaria do governo previa maior monitoramento de transações acima de R$ 5 mil, mas uma onda de desinformação — incluindo um vídeo falso com imagem e voz do ministro Fernando Haddad gerados por IA — espalhou o boato de que o Pix seria taxado.
O efeito foi imediato: comerciantes passaram a recusar pagamentos digitais, e o volume de transferências caiu 15,3% nas primeiras semanas de janeiro. Diante do caos, o governo acabou revogando a medida.
Outra mentira importada dos EUA ganhou força no país: a falsa relação entre paracetamol e autismo, rebatida por especialistas por falta de evidências científicas.
Também viralizou um vídeo de um menino rezando em um elevador, posteriormente revelado como encenação. Já às vésperas da COP30, Trump afirmou que a Floresta Amazônica teria sido desmatada para a construção de uma rodovia ligada ao evento — alegação considerada enganosa após checagem da DW.
O desafio dos deepfakes e o papel da checagem humana
Com a explosão dos deepfakes, identificar o que é real tornou-se mais difícil do que nunca. De conteúdos inofensivos, como coelhos pulando em vídeos gerados por IA, até noticiários falsos altamente convincentes, a tecnologia mudou o jogo da desinformação.
Apesar do uso crescente de ferramentas automatizadas e de notas comunitárias em redes sociais, erros persistem. Um exemplo citado pela DW foi uma imagem atual de Gaza que um chatbot classificou erroneamente como antiga e proveniente do Iraque.
A conclusão dos especialistas é clara: a tecnologia pode ajudar, mas a checagem de fatos confiável ainda depende do olhar humano, de jornalismo profissional e de colaboração internacional para enfrentar campanhas coordenadas de desinformação.
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Da Redação do Agenda Capital e DW





