Ex-deputado federal repete estratégia de Dilma Rousselff e aposta em MG para retorno eleitoral
Por Redação
Dez anos depois de protagonizar o impeachment da então presidente Dilma Rousseff e de ser cassado e preso meses mais tarde, o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (Republicanos) volta a se movimentar nos bastidores para tentar retornar à política institucional. A estratégia passa, novamente, por Minas Gerais, em uma tentativa de repetir o caminho trilhado por Dilma em 2018, quando transferiu seu domicílio eleitoral para Belo Horizonte e disputou uma vaga no Senado.
Cunha deixou o Rio de Janeiro e mudou o título eleitoral para a capital mineira. Desde então, tem intensificado viagens pelo interior do Estado em busca de apoio político e eleitoral, mirando uma candidatura a deputado federal em 2026. Em entrevista ao Estadão, o ex-parlamentar afirmou que a mudança se deu por razões “pessoais, profissionais e políticas”. Segundo ele, também pesou o fato de sua filha, a deputada federal Dani Cunha (União-RJ), já exercer mandato pelo Rio. “Não iria competir com ela”, declarou.
Experiências frustradas e nova aposta
Esta não é a primeira tentativa de Cunha de reconstruir sua trajetória eleitoral fora do berço político original. Em 2022, ele concorreu à Câmara dos Deputados por São Paulo, mas enfrentou entraves judiciais decorrentes da cassação do mandato e das investigações da Operação Lava Jato. A liberação da candidatura ocorreu apenas duas semanas antes do pleito, e Cunha obteve cerca de 5 mil votos, ficando fora do Congresso.
Agora, em Minas, a principal aposta do ex-deputado não está apenas nas articulações partidárias, mas no controle de meios de comunicação. Cunha estruturou a rede de rádios Maravilha FM, voltada principalmente ao público evangélico, com o slogan “a rádio de todas as igrejas que toca o som do céu”. Levantamento identificou emissoras ou retransmissoras da rede em ao menos 13 municípios mineiros.
Parte dessas rádios está registrada em nome de Daniel Cardoso de Sá, genro de Cunha. Outras pertencem a parceiros comerciais, como a emissora de Frutal, que, segundo o próprio ex-deputado, é ligada ao pastor RR Soares. Há ainda estações em cidades estratégicas como Belo Horizonte, Juiz de Fora, Uberaba, Uberlândia e João Pinheiro, além da aquisição de uma gráfica em Leopoldina, na Zona da Mata.
Cunha nega que a iniciativa tenha caráter político. “Estamos formando uma rede com rádios próprias e de terceiros. Isso é negócio privado, não política”, afirmou, evitando detalhar a expansão do grupo.
Presença no rádio e discurso político
Apesar do discurso empresarial, Cunha é figura constante na programação da Maravilha FM. Ele apresenta o programa “Pergunte ao seu prefeito”, participa de mesas-redondas semanais sobre política e atualidades, lê versículos bíblicos diariamente e entrevista lideranças políticas mineiras em um podcast. A grade mistura música gospel, jornalismo e esportes, ampliando o alcance junto a diferentes públicos.
Além do eleitorado evangélico, Cunha também mira o segmento antipetista. Em entrevista ao jornal Estado de Minas, afirmou que seu histórico político pode atrair eleitores contrários ao PT. “Na política, você avalia um candidato pelo passado. Quem não deseja o PT acha que eu sou efetivo para isso”, disse.
Triângulo Mineiro e futebol como vitrine
A região do Triângulo Mineiro tornou-se prioridade na estratégia do ex-presidente da Câmara. A rede Maravilha é patrocinadora master do Uberaba Sport Club, tradicional clube do interior mineiro. O acordo, segundo o presidente do clube, Rodrigo Alcino, vai até 2028 e inclui a transmissão dos jogos do time no Módulo II do Campeonato Mineiro de 2025.
A negociação envolveu a liberação dos direitos de imagem, tema que gerou questionamentos sobre possíveis relações políticas. A Federação Mineira de Futebol afirmou que não participou das tratativas, amparando-se na Lei do Mandante, que permite ao clube negociar diretamente a transmissão de seus jogos.
A federação é presidida por Adriano Aro, irmão do secretário de Governo de Minas, Marcelo Aro, integrante da gestão do governador Romeu Zema. Aliado de Cunha no passado, Adriano Aro afirma não ter relação com a eventual candidatura do ex-deputado.
Obstáculos partidários
No campo partidário, Cunha enfrenta resistências. A direção nacional do Podemos vetou sua filiação, segundo a deputada federal Nely Aquino, presidente do partido em Minas. Cunha, por sua vez, diz que não houve veto formal, mas resistência interna de grupos que temem concorrência eleitoral.
Atualmente filiado ao Republicanos, o ex-deputado também acumula atritos dentro da sigla. Ele move ação judicial contra o senador Cleitinho Azevedo, que rejeita publicamente sua candidatura no Estado. O presidente do Republicanos mineiro, Euclydes Pettersen, afirma que o tema ainda será discutido com a direção nacional.
Entre rádios, viagens, alianças regionais e disputas internas, Eduardo Cunha tenta reconstruir capital político em Minas Gerais. A estratégia combina comunicação direta com o eleitor, discurso conservador e presença territorial — uma aposta arriscada para quem carrega um dos passados mais controversos da política recente brasileira.
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Da Redação do Agenda Capital




