O Brasil pós-carnaval. Imagem gerada através de IA.

A frase mais ouvida após o início do ano é: “O Brasil só começa a funcionar depois do Carnaval” O calendário político desmente o mito do Carnaval

Por Delmo Menezes

Todo começo de ano tem um refrão bem conhecido: “o Brasil só começa a funcionar depois do Carnaval”. Passadas as festas de fim de ano e encerrada a folia, instala-se a sensação de que, só então, o país “liga o motor” e passa a andar. Mas essa percepção é apenas folclore cultural ou reflete, de fato, a dinâmica política e institucional brasileira?

A ideia não nasce do nada. Há, sim, um quase consenso informal entre políticos, empresários e gestores públicos de que janeiro e fevereiro são meses de baixa intensidade decisória. O Congresso Nacional, Executivo e o Judiciário, funcionam em ritmo reduzido. Governos ainda estão “arrumando a casa” e o mercado opera em compasso de espera. O Carnaval surge, assim, como um marco simbólico: depois dele, valeria oficialmente o início do ano.

Esse costume até encontra respaldo na cultura brasileira, marcada por pausas coletivas e rituais de renovação. O Carnaval cumpre esse papel: é válvula de escape social, momento de extravasar, de suspender temporariamente cobranças e pressões. O problema começa quando essa lógica cultural se transforma em adiamento automático da vida pública, da gestão e, sobretudo, das decisões políticas.

O calendário político não espera a folia

Se no imaginário popular o país só “funciona” depois do Carnaval, nos bastidores da política a realidade é outra. O ano de 2026, por exemplo, chega carregado de eventos que tornam impossível qualquer imobilismo prolongado. Além da Copa do Mundo — Copa do Mundo FIFA 2026 — o Brasil viverá eleições para deputados estaduais e distritais, deputados federais, governadores, senadores e presidente da República.

Esse calendário impõe urgência. Ainda no primeiro semestre, especialmente até o fim de março, quem ocupa cargos no Executivo e pretende disputar o pleito de outubro terá de se desincompatibilizar, conforme a legislação eleitoral. Ou seja, decisões estratégicas precisam ser tomadas agora, independentemente de ressaca carnavalesca.

Por isso, enquanto a percepção externa é de pausa, as articulações seguem a todo vapor. Parlamentares fazem contas para decidir se permanecem ou não em seus partidos; siglas se movimentam para atrair nomes competitivos; alianças, federações e arranjos eleitorais são costurados muitas vezes longe dos holofotes, mas com intensidade máxima — inclusive durante o Carnaval.

Carnaval como metáfora política

O Carnaval, nesse contexto, funciona menos como freio e mais como metáfora. Para muitos atores políticos, ele representa um “respiro” antes do embate real. É o último momento de informalidade antes de o jogo pesado começar. Mas isso não significa inatividade. Pelo contrário: enquanto a agenda pública desacelera, a agenda privada da política acelera.

Há também um componente estratégico nesse mito. Dizer que “o ano só começa depois do Carnaval” serve, muitas vezes, como justificativa para a lentidão administrativa, para o adiamento de reformas, projetos e enfrentamentos impopulares. É quase um acordo tácito: empurra-se o custo político para depois da folia, quando a atenção da sociedade volta a se concentrar na realidade.

O Judiciário e o primeiro semestre quente

No campo jurídico, o primeiro semestre de 2026 promete ser tudo, menos morno. Imbróglios envolvendo decisões de membros da alta cúpula do Judiciário devem pautar grande parte do debate nacional. O protagonismo do Supremo Tribunal Federal e as controvérsias em torno de suas decisões tendem a influenciar diretamente o ambiente político, tensionando relações entre Poderes e alimentando discursos eleitorais.

Esse cenário mostra que o país, na prática, nunca para. O que muda é a forma como a atividade se manifesta: menos visível para o cidadão comum, mas intensa nos centros de poder.

Começa ou não começa?

Afinal, o Brasil só começa depois do Carnaval? Do ponto de vista simbólico e cultural, a frase faz sentido. Ela traduz um hábito coletivo, um jeito brasileiro de organizar o tempo e lidar com pressões. Politicamente, porém, trata-se mais de um mito conveniente do que de uma verdade.

O Brasil não para; ele apenas muda de ritmo. Em ano de eleição mesmo fora dos gabinetes, acordos são firmados e estratégias são desenhadas. O ano político não espera o último desfile passar. Quem acredita que tudo só começa depois do Carnaval, corre o risco de chegar atrasado a um jogo que já está em andamento.

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*Delmo Menezes – Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais com experiência em diversos órgãos da administração direta e indireta. Analista político e observador atento da política local e nacional. Editor-Chefe do portal de notícias Agenda Capital.

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