
Mesmo frágil, a novidade de trégua fez os iranianos respirarem. Apesar disso, muitos temem que o regime acirre ainda mais a repressão aos opositores dentro do país.
Por Daniel Ameri
Os ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã podem ter sido interrompidos, mas, para muitas pessoas dentro da república islâmica, o medo não.
Após mais de um mês de guerra, Teerã e Washington chegaram a um acordo para um cessar-fogo condicionado de duas semanas, mediado pelo Paquistão. Representantes americanos e iranianos agendaram uma reunião neste fim de semana, em Islamabad, no Paquistão, para negociações diretas com o objetivo de alcançar uma interrupção permanente no conflito.
Pouco depois do anúncio da trégua temporária, as autoridades iranianas agiram rapidamente para anunciar o acordo como uma política de vitória, insistindo que a república islâmica havia resistido à pressão militar e obrigado os adversários a recuar.
A comunicação oficial do governo iraniano vem retratando o cessar-fogo como prova de que a suposta “vitória no campo de batalha” será agora consolidada no plano político. Mas essa não é a forma como muitos dentro do país estão vivenciando este momento. Para eles, o cessar-fogo trouxe um problema, mas não a paz.
A guerra pode ter sido suspensa, mas o sistema político iraniano permanece intacto, alimentando a ansiedade pública de que um governo fragilizado pelo conflito mas ainda sem poder, pode agora reagir suportando a repressão interna.
A fragilidade da trégua faz com que muitos temam que a situação possa se deteriorar a qualquer momento. Segundo a agência de notícias Reuters, Teerã está abordando as conversas sobre o acordo com grande cautela, enquanto as autoridades americanas deixaram claro que estão prontas para retomar os combates caso a diplomacia falhe.

Alívio sem sensação de segurança
Um cidadão iraniano, que pediu para não ser identificado por razões de segurança, disse à DW que o cessar-fogo não prejudica o medo profundo que agora se espalha entre muitas pessoas. “Agora que há um cessar-fogo e o regime não mudou, existe uma preocupação real de que o governo se tornou mais duro com a população e que o clima fica ainda mais sufocante”, disse.
Esse medo surge em muitas das conversas que ocorrem atualmente no Irã, com as pessoas se mostrando preensivas sobre o que pode acontecer em breve.
Outro iraniano disse à DW que muitos acreditaram, no início, que a guerra poderia produzir rapidamente um desenvolvimento político, caso líderes de alto escalonamento e comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica fossem mortos. Mas essa expectativa acabou não se concretizando.
“Achamos que tudo terminaria rápido. Agora temos uma pausa na guerra, mas nada foi resolvido”, afirmou.
Narrativa em que nem todos acreditam
A imprensa estatal e as autoridades iranianas têm tentado apresentar o cessar-fogo como um triunfo, como se o país tivesse transformado a sobrevivência militar em sucesso político. Para muitos iranianos, no entanto, esse discurso é tão desconectado da realidade.
A liderança pode continuar de pé, mas é impossível esconder grande parte do custo da guerra.
O conflito causou algumas das figuras mais importantes da república islâmica, incluindo o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, além de ter causado danos a infraestruturas restritas e exposto a proximidade com que o país sofreu de uma catástrofe ainda mais ampla.
O sistema sobreviveu, mas sobrevive a um preço tão elevado não é algo automaticamente percebido como vitória por quem vivencia o conflito.
Isso influencia o clima atual da população, com muitos cidadãos demonstrando apenas exaustão, incerteza e medo.

Ser contra a guerra não significa ser pró‑regime
A realidade da opinião pública no Irã é mais complexa do que a propaganda de qualquer um dos lados admite.
Muitas pessoas responsabilizam a república islâmica pelas condições que levaram o país a esse ponto. Ao mesmo tempo, também culparam o presidente americano, Donald Trump, e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, por exercerem uma guerra que ameaçou, provocando uma destruição ainda maior.
Tanto a repressão do Estado quanto a lógica da escalada militar é rejeitada pelos iranianos.
Pessoas ouvidas pela DW descreveram uma realidade diferente, ressaltando que são contra a guerra, mas não nos termos do regime. Eles não querem mais bombardeios, mais destruição nem mais sofrimento, mas isso não significa que tenham deixado de se opor ao governo atual. Essas pessoas temem que o regime agora usa o cessar‑fogo para se apresentar como vitorioso e silenciar a sociedade de forma ainda mais agressiva do que antes.
Babak Dorbeiki, ex-integrante do Centro de Pesquisa Estratégica do Irã, diz à DW que segmentos da Guarda Revolucionária Islâmica podem não estar realmente interessados em consolidar a guerra. “A guarda não é contra a guerra. Pelo contrário, ela quer guerra agora”, explica. Na avaliação dele, a verdadeira posição antiguerra pertence ao que ele chama de “parte racional da sociedade”.
Segundo Dorbeiki, porque o conflito não deve ser separado da oposição à repressão interna. De acordo com o especialista, é possível – e necessário – condenar ao mesmo tempo a guerra, as execuções, as prisões e o autoritarismo.
Qualquer posição antiguerra significativa, diz ele, também precisa exigir que uma república islâmica mude a forma de governar a sociedade e avance em direção à paz.
Esse argumento reflete um recebimento difuso entre alguns críticos do regime, o de que um conflito prolongado ajuda o regime a obscurecer a separação entre o Irã como país e a república islâmica como sistema político, o que pode se tornar mais difícil para uma população contestar um sem enfraquecer o outro.
Mais medo diante das ameaças de Trump
Nos dias anteriores à trégua, as ameaças de Donald Trump de destruir pontes e usinas de energia dentro do Irã foram vistas pelos iranianos como uma ameaça direta à vida civil.
Uma fonte dentro do país disse à DW que, após os alertas de Trump, os preços dos geradores domésticos dispararam, à medida que as pessoas corriam para comprá-los.
O que mais sustentava a população, afirmou a fonte, não era apenas a possibilidade de um novo ataque, mas a sensação de que a infraestrutura civil mais básica do país havia sido transformada em moeda de troca em uma guerra sobre a qual os cidadãos não tinham qualquer controle.
A sensação de insegurança também foi agravada pelo prolongado anúncio da internet, que deixou muitos iranianos sem acesso a informações externas e cada vez mais dependentes de redes domésticas restritas e controladas.
Guerra aprofunda crise econômica
O conflito também piorou um cenário que já era grave. Uma pessoa que vive no Irã conta para DW que sua família precisa vender economias e ouro apenas para conseguir sobreviver. A renda vinha de trabalhos realizados pelo Instagram, mas as interrupções na internet acabaram com essa fonte de sustento.
Outro entrevistado afirmou que nem mesmo se mudar temporariamente para a casa de parentes parecia viável, já que os familiares também enfrentavam dificuldades.
Para as famílias iranianas, a guerra significou queda de renda, aumento de preços e mudança de rotinas, o que leva muitos a enxergarem o cessar‑fogo de duas semanas não como uma vitória, mas como um problema momentâneo.
Vida mais difícil para jornalistas
A guerra também se tornou a vida mais difícil para jornalistas, especialmente para iranianos fora do país que querem se posicionar contra o conflito sem serem acusados de repetir a narrativa do regime.
Behrouz Tourani, repórter veterano e professor de jornalismo, diz à DW que um incidente ocasional com o discurso oficial do governo não é, por si só, um problema. A verdadeira questão, afirma, é se os jornalistas perdem a independência e passam a internalizar essa narrativa.
Para evitar armadilhas, Tourani aconselha repórteres a concentrarem o trabalho principalmente nos custos humanos, políticos e sociais do conflito.
Embora o cessar-fogo possa ter interrompido uma escalada militar imediata, ele não resolveu uma crise mais profunda. Continuando certo como Estados Unidos, Israel e Irã irão lidar com questões centrais como avaliações, orientações e repressão política, o que mantém uma sensação de fragilidade pairando sobre a vida no Irã.
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Com informações da Deutsche Welle



