Sem regulamentação oficial, a medicina da longevidade mistura boas práticas e tratamentos duvidosos. Foto: Reprodução.

Medicina da longevidade cresce sem regras e acende alerta entre especialistas. O campo está repleto de oportunidades — e também de oportunismo. Entenda como navegar por ele.

Por Redação

A chamada medicina da longevidade é, hoje, uma mistura ainda difusa de boas intenções, avanços científicos e práticas questionáveis, muitas vezes vendidas a preços elevados. Parte dessa confusão se deve à ausência de certificação oficial e de diretrizes formais para a área — tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, onde a especialidade ainda não é reconhecida.

Na prática, qualquer médico pode se autodenominar especialista em longevidade, fenômeno impulsionado sobretudo por profissionais que ganham visibilidade nas redes sociais. Enquanto há cientistas e médicos sérios empenhados em ajudar pessoas a viver mais e melhor — e em desenvolver terapias capazes de desacelerar o envelhecimento —, também proliferam clínicas e empresas que comercializam produtos e procedimentos com pouca ou nenhuma comprovação científica.

Entre eles estão suplementos, exames sofisticados e terapias intravenosas que, muitas vezes, carecem de evidências robustas. Para Bobby Mukkamala, presidente da American Medical Association, a área “exige muito escrutínio”. A questão central, segundo ele, é simples: os tratamentos oferecidos são realmente eficazes ou ainda não foram devidamente comprovados?

Especialistas ouvidos apontam que, em sua melhor versão, a medicina da longevidade pode oferecer benefícios importantes. Entre eles estão mais tempo de consulta, atenção individualizada e foco na prevenção, em vez do tratamento de doenças já instaladas.

“A melhor medicina da longevidade é, na verdade, aquilo que a boa medicina sempre buscou ser, mas raramente conseguiu entregar”, afirma Jordan Shlain, fundador da clínica Private Medical.

Um dos pilares desse modelo é o check-up abrangente, que pode incluir avaliação física detalhada, exames laboratoriais, testes genéticos e exames de imagem. Alguns desses procedimentos já fazem parte da rotina da atenção primária, enquanto outros — como a análise de lipoproteína(a) e apolipoproteína B — vêm ganhando espaço por sua relação com o risco cardiovascular.

A proposta é reunir o máximo de dados possível para identificar riscos antes que doenças se manifestem. Ao contrário da medicina tradicional, que muitas vezes reage a diagnósticos já estabelecidos, a abordagem da longevidade busca antecipar intervenções.

Um exemplo é o controle da glicemia. Em vez de esperar o diagnóstico de pré-diabetes, médicos dessa área podem recomendar mudanças no estilo de vida já diante de tendências de elevação nos níveis de açúcar no sangue.

Essa lógica amplia o conceito de normalidade: exames dentro da faixa considerada saudável podem não ser vistos como ideais. “Queremos que pessoas normais se tornem ideais”, resume Andrea Maier, especialista na área.

Apesar disso, ainda há poucas evidências de que essa personalização gere resultados superiores às recomendações tradicionais, como alimentação equilibrada, prática regular de exercícios e sono adequado.

Outro ponto sensível é o custo. O atendimento em clínicas de longevidade costuma ser caro e, em geral, não é coberto por planos de saúde. Há modelos que cobram por serviço e outros baseados em assinaturas anuais que podem chegar a valores bastante elevados.

Críticos argumentam que, muitas vezes, o diferencial não está em tratamentos revolucionários, mas no tempo dedicado ao paciente. Na atenção primária tradicional, consultas costumam ser rápidas, enquanto clínicas de longevidade oferecem acompanhamento mais detalhado.

Além disso, a falta de regulamentação abre espaço para práticas arriscadas. Terapias com células-tronco, uso de peptídeos e troca de plasma são exemplos de intervenções oferecidas sem comprovação sólida — e que podem trazer riscos à saúde.

Há relatos, inclusive, de complicações graves associadas a esses procedimentos. Especialistas também questionam a precisão de testes como os de “idade biológica”, considerados ainda imprecisos para uso individual.

Mesmo tratamentos com algum respaldo científico — como certos suplementos ou medicamentos utilizados fora de indicação — exigem cautela. “A medicina da longevidade pode, em alguns casos, ser apenas charlatanismo com aparência científica”, alerta Shlain.

Apesar das críticas, há consenso de que o futuro da área é promissor. Pesquisas em andamento e ensaios clínicos podem, nos próximos anos, resultar em terapias capazes de atuar diretamente nos mecanismos do envelhecimento.

“Hoje, a geromedicina ainda carece de medicamentos específicos — mas eles virão”, afirma Eric Verdin, do Buck Institute for Research on Aging. Segundo ele, o desafio é equilibrar expectativa e evidência científica. “Talvez estejamos apenas um pouco adiantados em relação ao que a ciência já pode entregar.”

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Da Redação com informações do The New York Times

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