
Antigas e novas lideranças evangélicas tentam manter influência no tabuleiro político da capital
Por Delmo Menezes*
O segmento evangélico do Distrito Federal sempre exerceu forte influência no cenário político local. Em determinados momentos da história recente de Brasília, líderes religiosos eram recebidos por governadores como conselheiros respeitados, capazes de influenciar decisões importantes e mobilizar milhares de eleitores. Hoje, no entanto, o cenário é bem diferente.
Com as eleições de 2026 se aproximando e diante de um ambiente político marcado por incertezas, especialmente na composição das chapas majoritárias, as lideranças evangélicas voltam a se movimentar nos bastidores para tentar recuperar protagonismo e espaço dentro da política do DF.
Para se ter uma ideia da força desse segmento, em 2014 os evangélicos conseguiram eleger nove deputados distritais e cinco deputados federais ligados diretamente às igrejas ou apoiados por grandes denominações religiosas. Naquela época, o voto evangélico era considerado altamente organizado e decisivo em diversas disputas eleitorais.
Ao longo dos anos, porém, parte dessa influência acabou sendo desgastada por uma série de fatores. Entre eles, a desunião entre lideranças, disputas internas por poder, acusações de autoritarismo, escândalos envolvendo igrejas, surgimento de falsos profetas e o distanciamento de alguns representantes eleitos das pautas defendidas durante as campanhas eleitorais.
Lideranças antigas eram mais ouvidas e respeitadas
Muitos analistas políticos e integrantes do próprio meio evangélico avaliam que as antigas lideranças tinham maior credibilidade perante a sociedade e junto às autoridades do Distrito Federal, como o pastor e ex-vice-governador Benedito Domingos.
Pastores históricos, como Vilarindo Lima (Batista Central) e Divino Gonçalves (Assembleia de Deus de Taguatinga) deixaram um legado de influência, respeito e diálogo institucional.
Naquela época, era comum governadores procurarem líderes evangélicos para ouvir opiniões, pedir conselhos e construir pontes políticas com o segmento cristão. O respeito institucional era maior e havia uma percepção de que essas lideranças exerciam um papel conciliador e moral dentro da sociedade brasiliense.
Com o passar do tempo, entretanto, esse espaço foi sendo fragmentado. O crescimento acelerado das igrejas, aliado à multiplicação de lideranças e interesses políticos distintos, contribuiu para a perda de unidade do segmento.
Novas lideranças tentam ocupar espaços
Apesar das dificuldades, algumas lideranças continuam exercendo influência significativa no cenário político e religioso do Distrito Federal.
Entre os nomes que ainda possuem forte capacidade de mobilização e diálogo político, destacam-se:
Robson Rodovalho
Fundador da Sara Nossa Terra, Rodovalho construiu uma das maiores denominações evangélicas do país e mantém influência política no DF. Já exerceu mandato como deputado federal e é reconhecido por sua capacidade de articulação junto ao segmento cristão.
Ronaldo Fonseca
Ex-deputado federal por dois mandatos, Ronaldo Fonseca ganhou notoriedade nacional por sua atuação em defesa de pautas conservadoras, da família e dos interesses cristãos no Congresso Nacional. Também ocupou o cargo de ministro durante o governo de Michel Temer.
Renato Andrade
Bispo e presidente de uma importante denominação evangélica, Renato Andrade já assumiu por duas vezes mandato de deputado distrital e também ocupou cargos relevantes na administração pública do DF. É considerado uma liderança respeitada dentro do segmento religioso.
Fadi Faraj
Líder da Comunidade Evangélica Ministério da Fé, Fadi Faraj continua sendo uma figura influente no meio evangélico local. Em eleições anteriores, teve papel importante na eleição de sua irmã, Sandra Faraj.
Orcival Xavier
À frente da Convenção dos Ministros Evangélicos das Assembleias de Deus de Brasília e Goiás, Orcival Xavier é considerado um dos líderes mais influentes das Assembleias de Deus no DF e Entorno. Sua convenção reúne centenas de igrejas e deverá ter papel importante nas articulações políticas para 2026.
Júlio César
Ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, o deputado federal Júlio César conseguiu ampliar sua base eleitoral para além do público da igreja, consolidando-se como uma das figuras políticas evangélicas em ascensão no DF.
Novos nomes começam a ganhar espaço
Além dos nomes já consolidados, outras lideranças religiosas e políticas também começam a ocupar espaço dentro do segmento evangélico do Distrito Federal.
Entre eles estão o deputado Daniel de Castro, o ex-deputado Rodrigo Delmasso, a senadora Damares Alves, o pastor Ibi Batista e o bispo JB carvalho, que vêm ampliando presença nas discussões políticas e religiosas da capital federal.
Eleitorado mais atento e exigente
Diferentemente de décadas passadas, quando o apoio de uma liderança religiosa praticamente garantia grandes votações, o eleitor evangélico atual demonstra comportamento mais crítico e atento.
A crise de credibilidade enfrentada pela classe política, somada aos escândalos envolvendo algumas lideranças religiosas pelo país, fez crescer entre os eleitores a cobrança por coerência, integridade e compromisso real com a população.
Nos bastidores da política do DF, a avaliação é de que o apoio das igrejas continuará sendo importante, mas dificilmente terá o mesmo peso automático de outros tempos. O momento exige lideranças mais preparadas, transparentes e capazes de dialogar não apenas com seus fiéis, mas com toda a sociedade.
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*Delmo Menezes – Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais com experiência em diversos órgãos da administração direta e indireta. Analista político e observador atento da política local e nacional. Editor-Chefe do portal de notícias Agenda Capital.




