O médico, o paciente e os desafios de um sistema cada vez mais mercantilizado
Por Dr. Cid Carvalhaes*
Ser médico é um mister difícil e desafiador. Receber pessoas, saber ouvi-las, compreendê-las e acolhê-las; formular hipóteses diagnósticas; encaminhar a propedêutica adequada (exames complementares); firmar diagnósticos; propor e definir terapêuticas eficientes; contornar eventuais efeitos adversos; acompanhar a evolução dos enfermos; atuar com agilidade, eficiência, técnica e, especialmente, ética, exige dedicação e compromisso.
Sou médico há 57 anos. Tive o privilégio de vivenciar amplas modificações ao longo dessas seis décadas. Mudaram os mecanismos de formação profissional e houve uma verdadeira pletora de médicos. As áreas metropolitanas e as cidades de médio e grande porte concentram a maioria dos profissionais brasileiros. Há uma desproporção evidente entre o crescimento da população e o aumento do número de médicos no Brasil. Não é exagero afirmar que a graduação médica atual, salvo honrosas exceções, transformou-se em uma verdadeira indústria de interesses econômicos.
O exercício profissional passou a ser intermediado por diferentes matizes. Grandes organizações hospitalares, empresas de exames complementares — análises clínicas, exames funcionais e de imagem —, planos e seguros de saúde, todos ávidos por resultados financeiros cada vez mais expressivos.
O humanismo, imprescindível na Medicina, cedeu espaço à mecanização. A avaliação criteriosa do paciente foi, em muitos casos, substituída por máquinas de toda espécie. O exame físico do enfermo, ferramenta fundamental da prática médica, passou a ser, por vezes, interpretado de forma equivocada.
Faculdades de Medicina de qualificação duvidosa continuam a “produzir médicos” aos montes. Observa-se, também, certa banalização das patologias. Uma apendicite com dois ou três dias de evolução parece simples de resolver. Tudo vira “virose”. Crescem os procedimentos voltados apenas à estética: aumento ou redução das mamas, correções nasais, lipoaspirações, canetas emagrecedoras e outros procedimentos sem adequada indicação. Ao mesmo tempo, observa-se descontrole no tratamento da obesidade, do diabetes, da hipertensão, da epilepsia e de diversas doenças crônicas. Somam-se a isso o sedentarismo, o alcoolismo, o tabagismo, o uso indiscriminado de anabolizantes, drogas ilícitas e tantos outros problemas.
Profissionais despreparados oferecem atendimentos e realizam procedimentos que resultam em complicações graves e, por vezes, em mortes. Recentemente, duas mulheres ainda jovens faleceram durante procedimentos de captação de óvulos. Também se multiplicam os casos de complicações decorrentes da utilização de PMMA (polimetilmetacrilato) para fins estéticos, prática agora proibida para essa finalidade pelo Conselho Federal de Medicina (CFM).
Os exemplos são incontáveis e se acumulam diariamente. Diante dessa realidade, faço uma recomendação: procurem médicos experientes, tecnicamente preparados e de conduta ética ilibada. A Medicina continua sendo uma das mais nobres profissões, mas exige responsabilidade, conhecimento e compromisso permanente com a vida humana.
*Dr. Cid Célio Jayme Carvalhaes – Médico neurocirurgião, advogado e escritor. Foi Presidente da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, Presidente do Conselho Deliberativo da SBN, Presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo e Presidente da Federação Nacional dos Médicos. Especialista no Direito Médico e da Saúde e Coordenador do Curso de Pós-Graduação em Direito da Escola Paulista de Direito. É Colunista do Agenda Capital.





Li, atentamente, o Artigo do Dr. Cid Carvalhaes. Observei que ainda faltam outras verdades a serem acrescentadas, no entanto, quero crer que elas serão mostradas em outras oportunidades. Deixo claro que, não postei minha assinatura por falta do local adequado.