Os Estados Unidos são o principal destino das exportações brasileiras de máquinas e equipamentos. Foto: Divulgação.

Indústria e agronegócio defendem que sobretaxa de 25% prejudicará empresas, consumidores e cadeias produtivas dos dois países; decisão final de Washington deve sair até 15 de julho

Por Redação

Representantes da indústria, do agronegócio e de diversos setores produtivos brasileiros iniciam nesta segunda-feira (6) uma ofensiva em Washington para tentar impedir a imposição de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros proposta pelo governo do presidente Donald Trump.

As audiências públicas são promovidas pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) e fazem parte da investigação comercial conduzida com base na Seção 301 da legislação americana. A etapa é considerada decisiva antes da decisão final do governo dos Estados Unidos, prevista para ocorrer até 15 de julho.

Participam das audiências entidades como a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), além de representantes dos setores de café, açúcar, arroz, etanol de milho, ferro-gusa, madeira, papel, calçados, mel, rochas ornamentais e propriedade intelectual.

O objetivo da missão brasileira é demonstrar que a medida não afetaria apenas os exportadores nacionais, mas também elevaria custos para empresas americanas, aumentaria os preços ao consumidor nos Estados Unidos e comprometeria cadeias produtivas altamente integradas entre os dois países.

Indústria diz que tarifa não tem justificativa

A principal estratégia da indústria brasileira será rebater os argumentos apresentados pelo governo americano e mostrar que não existem fundamentos técnicos, jurídicos ou econômicos para a adoção da sobretaxa.

Segundo estimativas da CNI, caso a medida seja confirmada:

  • 31,6% das exportações brasileiras para os Estados Unidos passarão a pagar tarifa total de 37,5%, somando a nova sobretaxa de 25% a outra tarifa de 12,5%;
  • 35,2% de toda a pauta exportadora brasileira destinada ao mercado americano será atingida pela nova cobrança;
  • Considerando também as tarifas já existentes da Seção 232, 54,1% das exportações brasileiras ficarão sujeitas a algum tipo de tarifa adicional.

A Fiesp argumentará durante a audiência que a medida poderá atingir principalmente setores de maior valor agregado, como máquinas e equipamentos, autopeças, alimentos industrializados, madeira, móveis e outros produtos manufaturados.

Brasil rebate acusações dos EUA

Durante as audiências, representantes brasileiros também responderão aos principais pontos levantados pela investigação americana.

Na área de propriedade intelectual, o Brasil destacará a redução do estoque de pedidos de patentes no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), o fortalecimento das ações de combate à pirataria e o aprimoramento da fiscalização.

Sobre as tarifas de importação, o argumento será de que aproximadamente metade dos produtos americanos já entra no Brasil com alíquota reduzida ou isenção por meio de regimes especiais e acordos comerciais.

Em relação ao desmatamento, a defesa brasileira sustentará que o crescimento da produção agrícola decorre principalmente do aumento da produtividade e da incorporação de tecnologia, e não da expansão sobre áreas de floresta.

O país também defenderá o fortalecimento da cooperação comercial entre Brasil e Estados Unidos em substituição à criação de novas barreiras tarifárias.

Roberto Azevêdo critica proposta americana

O presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp, Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), afirma que as acusações apresentadas pelo USTR não encontram respaldo nas regras internacionais.

Segundo ele, as práticas comerciais brasileiras “não são discriminatórias, desleais nem ilegais” e tampouco prejudicam empresas americanas.

Azevêdo também avalia que a tarifa proposta não alcançará os objetivos pretendidos pelos Estados Unidos.

Para ele, a medida elevará os custos das cadeias produtivas em ambos os países, pressionará os preços ao consumidor e reduzirá a competitividade das empresas brasileiras e americanas.

O ex-diretor da OMC defende ainda maior articulação política entre os governos.

“Negociar não significa abrir mão da soberania, mas buscar soluções que tragam ganhos para ambos os lados”, tem defendido.

Governo brasileiro aposta na negociação

Enquanto as audiências ocorrem em Washington, equipes técnicas dos governos brasileiro e americano devem realizar novos encontros preparatórios para uma última rodada de negociações de alto nível antes da decisão final da Casa Branca.

Na última semana, o governo brasileiro encaminhou resposta oficial à investigação aberta pelos Estados Unidos.

O documento, assinado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirma que críticas americanas envolvendo o sistema de pagamentos PIX e decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) dizem respeito a questões de política interna e não possuem relação com práticas comerciais.

CNI alerta para insegurança jurídica

A gerente de Comércio e Integração Internacional da CNI, Constanza Negri, afirma que a sobretaxa carece de justificativa jurídica, econômica e estratégica.

Segundo ela, a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos é complementar, e não baseada em competição direta.

Além das possíveis perdas nas exportações, a executiva destaca que a principal preocupação das empresas é a instabilidade provocada pelas frequentes mudanças na política comercial americana.

Segundo Negri, a imprevisibilidade dificulta o planejamento das empresas, que muitas vezes não conseguem prever quais tarifas estarão em vigor no momento da exportação.

Setor de máquinas pede exclusão da tarifa

A Abimaq defenderá a exclusão do setor de máquinas e equipamentos de uma eventual sobretaxa.

Os Estados Unidos representam o principal destino das exportações brasileiras desse segmento, concentrando aproximadamente um quarto de todas as vendas externas.

Mesmo antes da possível aplicação da nova tarifa, o setor já registra impactos. Em 2025, as exportações brasileiras de máquinas e equipamentos para o mercado americano caíram mais de 9% em consequência das tarifas já adotadas pelo governo dos Estados Unidos.

A expectativa do setor produtivo brasileiro é de que os argumentos técnicos apresentados nas audiências reforcem a necessidade de uma solução negociada entre os dois governos, evitando uma escalada nas tensões comerciais e preservando uma relação econômica considerada estratégica para ambos os países.

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Da Redação do Agenda Capital

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