Deputado federal por Alagoas, ex-promotor de Justiça e relator da CPMI do INSS, Gaspar passa a integrar a chapa presidencial ao lado de Flávio Bolsonaro
Por Delmo Menezes
O senador Flávio Bolsonaro (PL) anunciou nesta quarta-feira (5) o deputado federal Alfredo Gaspar de Mendonça Neto (PL-AL) como candidato a vice-presidente da República nas eleições de 2026. O anúncio foi feito durante uma coletiva de imprensa com integrantes do partido, em Brasília.
A escolha consolida uma chapa puro-sangue do PL, formada por dois parlamentares da legenda, e encerra semanas de especulações e negociações em torno da composição da candidatura presidencial.
Alfredo Gaspar, de Alagoas, chegou à Câmara dos Deputados em 2023. Antes da carreira política, atuou como advogado e teve trajetória no Ministério Público de Alagoas, onde exerceu funções de destaque. Na Câmara, ganhou projeção nacional em 2026 ao assumir a relatoria da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS.
Segundo informações oficiais da Câmara, Gaspar está filiado ao PL desde 2026 e exerce mandato de deputado federal pelo estado de Alagoas.
Projeção nacional com a CPMI do INSS
A atuação de Alfredo Gaspar na CPMI do INSS foi um dos principais momentos de sua trajetória recente no Congresso. Como relator, apresentou um relatório final com mais de 4 mil páginas, propondo o indiciamento de mais de 200 pessoas.
O parecer, porém, acabou rejeitado pelo colegiado por 19 votos a 12, e a CPMI foi encerrada sem a aprovação de um relatório final.
A atuação na comissão colocou Gaspar no centro de um dos principais embates políticos do Congresso em 2026, especialmente pelas críticas dirigidas ao governo federal e pela atuação de oposição.
O deputado também passou a ter maior visibilidade entre setores do eleitorado alinhados ao bolsonarismo. Em março, durante a apresentação do relatório, Gaspar adotou uma postura de forte confronto político na comissão, inclusive em debates envolvendo a atuação do Supremo Tribunal Federal.
De uma vice de centro para um nome do próprio PL
A definição de Alfredo Gaspar representa uma mudança importante em relação às alternativas que vinham sendo discutidas pela campanha.
Nas últimas semanas, nomes como a senadora Tereza Cristina (PP-MS) e a ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques, do Republicanos, chegaram a ser considerados para a vaga.
A possibilidade de Tereza Cristina ganhou força dentro do PL, mas a senadora rejeitou o convite e decidiu concentrar sua atuação na disputa pelo Senado e na possibilidade de comandar a Casa em 2027.
Daniella Marques também chegou a ser considerada uma das principais alternativas. A escolha, entretanto, enfrentava um obstáculo político: uma eventual composição com uma candidata filiada ao Republicanos dependeria de uma aproximação formal entre os partidos.
A opção por Gaspar elimina esse problema e permite que o PL mantenha integralmente o controle da chapa presidencial.
Mulheres cotadas participaram do anúncio
A coletiva desta quarta-feira contou também com a presença de mulheres que chegaram a ser mencionadas como possíveis integrantes da chapa, entre elas Tereza Cristina, Daniella Marques e Damares.
As duas fizeram breves pronunciamentos em defesa da candidatura antes de Flávio Bolsonaro anunciar oficialmente Alfredo Gaspar.
A presença das duas figuras políticas no evento pode ser interpretada como uma tentativa de demonstrar unidade no campo político que vinha sendo envolvido nas negociações para a formação da chapa.

O impacto político da escolha
A decisão de Flávio Bolsonaro tem diferentes implicações para a campanha presidencial.
A primeira delas é a centralização da candidatura no PL. Ao escolher um deputado do próprio partido, Flávio não precisa dividir a composição da chapa com uma legenda que tenha projeto eleitoral próprio ou interesses específicos na disputa presidencial.
A segunda consequência é a ênfase no perfil de oposição. Gaspar ganhou projeção justamente em uma comissão parlamentar marcada por confrontos entre governo e oposição. Sua atuação na CPMI do INSS o aproximou do discurso de setores do campo bolsonarista e lhe deu visibilidade nacional.
Outro elemento é a representatividade regional. Alfredo Gaspar é de Alagoas, no Nordeste, região considerada estratégica em qualquer eleição presidencial. A escolha coloca na chapa um candidato nordestino, embora ainda seja necessário avaliar até que ponto essa origem poderá ampliar a votação de Flávio na região.
O que a escolha revela sobre a estratégia eleitoral
A composição inicialmente cogitada pela campanha apontava para uma tentativa de ampliar a aliança partidária de Flávio Bolsonaro. Uma vice ligada ao PP, ao União Brasil ou ao Republicanos poderia representar uma ponte com setores do centro e da direita que não integram diretamente o PL.
Com a confirmação de Alfredo Gaspar, essa estratégia perde espaço na composição formal da chapa.
Isso não significa, necessariamente, que o PL abandone a tentativa de construir alianças políticas ao longo da campanha. Os partidos do chamado centro-direita podem apoiar candidatos diferentes no primeiro turno ou permanecer independentes, enquanto setores dessas legendas podem estabelecer aproximações específicas com candidaturas presidenciais.
O ponto central é que Flávio optou por não condicionar a escolha do vice à formação de uma aliança partidária mais ampla.
Chapa puro-sangue pode fortalecer identidade, mas reduz espaço para alianças
Do ponto de vista estratégico, a escolha apresenta vantagens e desafios.
Entre as vantagens está a possibilidade de apresentar ao eleitor uma chapa com identidade política mais clara. Flávio Bolsonaro e Alfredo Gaspar pertencem ao mesmo partido e estão alinhados ao campo oposicionista ao governo Lula.
A composição também reduz potenciais conflitos internos. Em uma chapa formada por partidos diferentes, a definição de prioridades, estratégias eleitorais e espaços no eventual governo poderia envolver negociações mais complexas.
Por outro lado, a ausência de um nome de outra legenda pode limitar o efeito de uma aliança formal com partidos de centro e direita.
Tereza Cristina, por exemplo, poderia agregar uma conexão mais direta com o setor do agronegócio e com o eleitorado ligado ao centro político. Daniella Marques, por sua vez, vinha sendo associada à área econômica e ao diálogo com o setor empresarial. A escolha de Gaspar deixa esses segmentos sem uma representação específica na chapa.
A força de Alfredo Gaspar
A principal credencial eleitoral de Gaspar, neste momento, está associada à sua atuação política e parlamentar, e não a uma trajetória anterior em disputas majoritárias nacionais.
Sua passagem pela CPMI do INSS, contudo, proporcionou exposição nacional e o colocou em uma posição de destaque dentro da oposição.
O relatório apresentado por Gaspar apontou a existência de diferentes núcleos envolvidos no esquema investigado e propôs centenas de indiciamentos. O documento, entretanto, não foi aprovado pela comissão.
Esse aspecto é relevante para compreender o perfil escolhido: Flávio não optou por uma figura de perfil empresarial ou por um nome tradicional do centro político, mas por um parlamentar identificado com a atuação de oposição e com pautas relacionadas ao combate à corrupção e à segurança pública.
O desafio será ampliar a chapa além do PL
Com a escolha definida, um dos desafios da campanha passa a ser transformar a identidade política da chapa em capacidade de ampliar o eleitorado.
Uma candidatura presidencial precisa, além de consolidar sua base, buscar votos fora do núcleo mais fiel de seus apoiadores. Nesse sentido, a escolha de Gaspar poderá ser testada principalmente pela capacidade de dialogar com eleitores moderados, setores do empresariado, eleitorado nordestino e segmentos que ainda não definiram seu voto.
A chapa também terá de lidar com o cenário de fragmentação da direita e do centro-direita. A permanência de diferentes candidaturas nesse campo político pode dificultar a concentração de votos no primeiro turno.
A escolha representa uma aposta em unidade partidária, fidelidade ao núcleo político do PL e fortalecimento do discurso de oposição. Ao mesmo tempo, deixa evidente que a campanha terá de buscar fora da composição formal da chapa os acordos e apoios necessários para ampliar sua presença eleitoral.
A confirmação de Alfredo Gaspar, portanto, não encerra a disputa pela formação de alianças. Ela marca o início de uma nova etapa: a de transformar a chapa presidencial em uma candidatura capaz de avançar além de sua base política original.
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Da Redação do Agenda Capital





