Em ano eleitoral, acordos podem fortalecer projetos, mas escolhas equivocadas também podem destruir reputações e comprometer carreiras políticas.
Por Delmo Menezes*
Na política, ninguém caminha sozinho. Para vencer uma eleição, governar ou construir um projeto de poder, é preciso dialogar, negociar e estabelecer alianças. O problema começa quando, em nome da conveniência eleitoral, alguns políticos passam a ignorar princípios, valores e a própria história.
Estamos novamente diante de um período eleitoral. E, como acontece a cada eleição, começam as articulações, as conversas reservadas, os encontros, os acordos e as promessas. Adversários de ontem podem se transformar em aliados de hoje. Discursos são relativizados, diferenças ideológicas são colocadas em segundo plano e, muitas vezes, aquilo que parecia impossível passa a ser apresentado como uma “aliança estratégica”.
Até aí, faz parte da política.
Democracia pressupõe diálogo. Nenhum partido ou liderança é obrigado a permanecer eternamente preso às mesmas posições. A política também é feita de mudanças, composição e capacidade de construir consensos.
Mas existe uma diferença entre flexibilidade política e falta de coerência.
O eleitor percebe quando uma aliança é construída para atender ao interesse público e quando ela nasce exclusivamente da conveniência eleitoral.
É aí que entra o velho ditado: “Diga-me com quem andas e eu te direi quem és.”
A frase pode parecer simples, mas carrega uma verdade que não deveria ser ignorada por quem pretende ocupar um cargo público. Na política, os aliados também ajudam a construir a imagem de um candidato. Quem escolhe caminhar ao lado de determinada pessoa ou grupo inevitavelmente passa a compartilhar parte da responsabilidade por suas atitudes, seus discursos e suas escolhas.
E não adianta descobrir isso somente depois.
A história política brasileira está repleta de exemplos de pessoas que chegaram à vida pública com boas intenções, projetos legítimos e disposição para trabalhar. Com o passar dos anos, porém, algumas acabaram se afastando dos princípios que defenderam no início da trajetória.
Vieram as concessões. Depois, os acordos. Em seguida, as vantagens. E, quando perceberam, estavam envolvidos em situações que poderiam comprometer toda uma história construída com muito esforço.
Uma carreira política pode levar anos para ser construída e apenas alguns meses para ser destruída.
O poder, quando mal administrado, pode ser sedutor. Cargos, privilégios, influência e proximidade com centros de decisão podem fazer com que alguns políticos confundam projeto público com projeto pessoal.
E é justamente nesse momento que as alianças perigosas aparecem.
Há quem faça acordos com todos, atire para todos os lados e tente manter portas abertas em todas as direções. Parece uma estratégia inteligente. Mas, na prática, pode transformar-se em uma armadilha.
Quem promete demais fica obrigado a entregar demais.
Quem faz muitos acordos pode acabar prisioneiro dos próprios compromissos.
E quem se alia sem critérios pode descobrir, tarde demais, que escolheu o caminho errado.
Existe uma antiga história, contada de diferentes maneiras, sobre uma mulher que usava a aliança de casamento em um dedo diferente daquele considerado tradicional. O marido perguntou por que ela fazia aquilo. A resposta teria sido: “Porque me casei com o homem errado.”
A história é apenas uma metáfora, mas serve perfeitamente para a política.
Há alianças que parecem boas no início e se transformam em um peso ao longo do caminho.
O problema é que, na vida pública, não existe divórcio simples. Quando uma aliança política dá errado, o desgaste não fica restrito aos envolvidos. Ele pode atingir partidos, governos, mandatos e, principalmente, a confiança do eleitor.
Por isso, uma pergunta deveria acompanhar cada negociação eleitoral:
Com quem estou me aliando e qual será o preço dessa escolha?
Essa pergunta é ainda mais importante quando se aproximam as convenções partidárias e a definição das chapas. É natural que partidos busquem ampliar suas alianças. Também é legítimo que candidatos procurem apoios para fortalecer suas campanhas.
Mas não vale tudo para ganhar uma eleição.
O eleitor está mais atento. A informação circula rapidamente e a memória política, embora muitos candidatos pareçam esquecer, continua existindo.
Uma fotografia ao lado de determinado aliado, um discurso compartilhado, um acordo firmado ou uma promessa feita hoje pode ser lembrado amanhã — especialmente quando os interesses mudarem e os antigos parceiros passarem a trocar acusações.
Depois das eleições vem a conta.
É quando aparecem as cobranças por cargos, espaços, secretarias, posições estratégicas e participação no poder. O que foi negociado nos bastidores precisa ser colocado em prática. E nem sempre aquilo que parecia fácil durante a campanha continua sendo possível depois da vitória.
É nesse momento que surgem as frustrações, os rompimentos e as acusações de traição.
Na política, muitos falam em traição quando, na verdade, houve apenas uma aliança mal construída desde o início.
Talvez seja hora de os nossos homens e mulheres públicos compreenderem que aliança não pode ser apenas uma operação matemática para somar votos.
É preciso somar princípios, responsabilidade e compromisso com a sociedade.
Um bom aliado não é necessariamente aquele que oferece mais votos, mais dinheiro, mais estrutura ou mais tempo de televisão. Um bom aliado é aquele cuja presença fortalece o projeto e não coloca em risco a credibilidade de quem está ao seu lado.
A política brasileira precisa de alianças, sim.
Mas precisa, sobretudo, de alianças responsáveis.
Porque o eleitor pode até esquecer uma promessa de campanha. Pode até não lembrar de todos os discursos. Mas dificilmente esquecerá quando perceber que foi usado como instrumento para legitimar uma aliança construída apenas em benefício de poucos.
No final, a pergunta não será apenas quem venceu a eleição.
Será também quem se perdeu no caminho para vencer.
E essa talvez seja a maior lição para os candidatos que começam a desenhar seus projetos para 2026: antes de escolher quem estará ao seu lado no palanque, é preciso pensar em quem você estará disposto a ter ao seu lado na história.
Porque, na política, ninguém escolhe apenas um aliado. Escolhe também a imagem, os riscos e o legado que virão junto com ele.
E talvez essa seja uma das principais lições para quem pretende disputar uma eleição: antes de perguntar “quanto essa aliança pode me dar?”, é preciso perguntar “quanto ela poderá me custar?”
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*Delmo Menezes – Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais com experiência em diversos órgãos da administração direta e indireta. Analista político e observador atento da política local e nacional. Editor-Chefe do portal de notícias Agenda Capital.





