
Poucos querem fazer política pensando verdadeiramente na população. Muitos chegam ao poder pensando primeiro em si mesmos, nos aliados e nos grupos que os cercam.
Por Delmo Menezes*
Política deveria ser sinônimo de responsabilidade, compromisso e serviço à sociedade. Mas, no Brasil, essa definição parece ter sido substituída, em muitos casos, por uma palavra que traduz melhor determinadas práticas: politicagem.
Aristóteles entendia a política como uma atividade voltada para a organização da sociedade e para a busca do bem comum. Política seria a arte de conciliar interesses, administrar conflitos e construir soluções para a coletividade.
É uma visão nobre do exercício do poder. Infelizmente, nem sempre é essa política que o cidadão encontra no dia a dia.
O brasileiro está cansado. Cansado de promessas que não são cumpridas, de discursos que desaparecem depois das eleições, de escândalos, de privilégios e de disputas políticas que parecem ter como principal objetivo a manutenção do poder.
O povo está cansado de promessas vazias e de ser enganado, inclusive por líderes que usam os púlpitos das igrejas para fazer política e influenciar o voto em períodos eleitorais. Fé e política podem conviver, mas o púlpito não deve ser transformado em palanque.
E esse desencanto tem consequências.
Cada vez mais pessoas demonstram desinteresse pelas eleições e afirmam não acreditar nos políticos. Basta verificar o alto índice de pessoas indecisas e que não demonstram interesse em votar.
Mas existe um problema ainda maior: quando o cidadão abandona a política, alguém continuará decidindo por ele.
O poder não pode ser propriedade de poucos
O mandato eletivo não pertence ao político. Pertence ao povo. O parlamentar não é dono do cargo. O governador não é dono do governo. O presidente não é dono do país. Todos ocupam funções temporárias concedidas pela população por meio do voto. Essa parece ser uma afirmação óbvia, mas nem sempre é tratada dessa maneira.
Há políticos que se comportam como se o poder fosse propriedade particular. Distribuem espaços, negociam apoio, acomodam aliados e transformam a estrutura pública em instrumento de sobrevivência política.
E, enquanto isso, o cidadão continua esperando por serviços básicos.
O Brasil real está do lado de fora dos palácios
Enquanto políticos discutem alianças, cargos e estratégias eleitorais, existe um Brasil real enfrentando problemas todos os dias. É o cidadão que espera por uma consulta médica. É a família que precisa de um medicamento. É o estudante que frequenta uma escola sem estrutura adequada. É o trabalhador que teme ser assaltado no caminho para casa. É o policial que coloca a própria vida em risco. É o pai e a mãe que têm medo de ver os filhos envolvidos com o crime. Essa população não precisa de discursos bonitos. Precisa de resultados.
Saúde, educação e segurança pública não podem ser utilizadas apenas como temas de campanha. São obrigações permanentes do Estado.
A política do discurso fácil
Outro problema é o crescimento de discursos populistas e demagógicos.
Prometer é fácil.
Difícil é explicar de onde virá o dinheiro, qual será o impacto da medida, quem será beneficiado e como aquela promessa será colocada em prática.
É justamente aí que o eleitor precisa estar atento.
Nem tudo que parece bom no palanque funciona na administração pública. Nem toda proposta pode ser executada. Nem toda promessa é constitucional. Nem todo discurso representa um projeto de governo. O cidadão precisa aprender a separar o político que trabalha daquele que simplesmente fala.
Partidos não podem virar apenas instrumentos eleitorais
Também é difícil explicar ao eleitor a constante mudança de partido por parte de alguns políticos. Hoje estão em uma legenda. Amanhã, em outra. Depois, em uma terceira. Mudam-se as siglas, mas permanecem os mesmos interesses. É claro que existem situações legítimas para uma mudança partidária. Mas quando a troca acontece exclusivamente por conveniência eleitoral, o cidadão tem o direito de questionar.
A política precisa ter coerência. Não se pode defender determinada bandeira em um momento e abandoná-la no seguinte apenas porque os ventos eleitorais mudaram.
O eleitor também tem responsabilidade
Mas não podemos colocar toda a culpa nos políticos. O eleitor também precisa assumir sua responsabilidade. É ele quem escolhe. É ele quem coloca e retira representantes do poder.
Por isso, não basta reclamar da política depois da eleição. É necessário pesquisar antes de votar.
Quem é o candidato?
Qual é sua trajetória?
O que fez antes?
Quais são suas propostas?
Tem experiência?
Possui preparo?
Como votou quando exerceu mandato?
Essas perguntas são muito mais importantes do que o número de seguidores nas redes sociais ou a capacidade de fazer discursos inflamados.
A mudança começa pelo voto
O Brasil terá novamente uma eleição para escolher presidente, governadores, senadores, deputados federais, deputados estaduais e distritais.
Mais uma vez, milhões de brasileiros terão nas mãos uma das maiores ferramentas da democracia: o voto.
É preciso usá-lo com consciência.
Não votar apenas porque alguém pediu.
Não votar apenas porque o candidato é famoso.
Não votar apenas por amizade, parentesco ou promessa de benefício.
E, principalmente, não vender o voto.
O voto não é favor.
É instrumento de poder do cidadão.
A eleição se aproxima
E, mais uma vez, o eleitor terá a oportunidade de escolher entre continuar alimentando velhas práticas ou exigir uma política diferente.
A decisão estará nas urnas. Mas a responsabilidade será de todos nós.
Porque o Brasil que queremos construir começa pela escolha daqueles que colocamos no poder.
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*Delmo Menezes – Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais com experiência em diversos órgãos da administração direta e indireta. Analista político e observador atento da política local e nacional. Editor-Chefe do portal de notícias Agenda Capital.




