Lula em campanha no Rio: pesquisas mostram disputa apertada com Flávio Bolsonaro. Foto: Pedro Kirilos/Estadão Foto: Pedro Kirilos/Estadão

Sidônio Palmeira vence briga com PT e Fazenda; governo usa saldo das apostas online e promessa de quitação de dívidas como arma para reeleger Lula

Por Vera Rosa / Estadão

A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de proibir as apostas online no País passou por muitas idas e vindas antes de ser anunciada nesta sexta-feira, 25, e enfrentou várias divergências no governo e no PT. Pesquisas de intenção de voto indicando obstáculos inesperados na campanha petista, porém, falaram mais alto do que as contradições embutidas na Medida Provisória que interrompeu as atividades das bets.

Houve muitos senões na equipe econômica sobre a conveniência de extinguir todas as bets ou apenas os cassinos digitais, como o jogo do Tigrinho, às vésperas das eleições. Não sem motivo: sem as apostas online, o governo perderá uma arrecadação mensal de aproximadamente R$ 800 milhões. Mas o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, venceu a briga.

Desde que o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, começou a encostar em Lula nas pesquisas, Sidônio tentou acalmar o PT. Com base em monitoramentos de redes sociais, os chamados trackings, e pesquisas qualitativas – que medem as impressões dos eleitores –, o ministro avisou, no entanto, que o Planalto precisava tomar medidas de impacto para mudar o rumo da campanha.

O homem responsável pela propaganda do governo orientou o aumento do ataque a Flávio em muitos decibéis e pediu a Lula que tomasse distância regulamentar de amigos, parentes e aliados enroscados. O ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, e até o empresário Fábio Luís, o Lulinha, foram incluídos nessa lista. O presidente, porém, nem sempre ouvia o ministro.

Lula não ouviu Sidônio, por exemplo, quando foi aconselhado a não ficar ao lado do ex-líder do governo no Senado Jaques Wagner (PT-BA), no ato em Salvador, em 1.º de julho. Wagner teve o nome citado no escândalo do Banco Master e essa imagem não era conveniente para a campanha. O presidente ignorou o conselho e apareceu em várias fotos levantando a mão do senador.

Além disso, teve posição hesitante em relação ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, após relatório da Polícia Federal mostrar que o magistrado trocou mensagens suspeitas com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

Sob o argumento de que a oposição quer empurrar a crise do STF para o colo do governo, Sidônio achava que Lula nem deveria citar Moraes nas entrevistas e pronunciamentos. Era preciso, no entanto, usar um tom forte, recorrendo ao discurso de que “quem errou tem de pagar” e “ninguém está acima da lei”. O presidente agiu assim, mas, recentemente, fez questão de dar algumas voltas nesse roteiro e defender o papel de Moraes na defesa da democracia.

No diagnóstico do Planalto, pior do que o impacto do terremoto no STF sobre a campanha é a percepção dos eleitores sobre o trabalho de Lula. Cada vez mais, o aumento do custo de vida e o endividamento das famílias foram aparecendo nos trackings do governo e do PT como um fator que poderia levar Lula a perder a eleição. Levantamento promovido pela Confederação Nacional do Comércio (CNC), por exemplo, mostrou que, entre julho e agosto, a parcela de endividados no Brasil atingiu 82%.

Para o governo, a situação de inadimplência está ligada, sobretudo, às apostas online. Diante desse cenário, Sidônio e outros conselheiros políticos do governo convenceram Lula de que era preciso tomar uma providência radical. Nas reuniões reservadas com poucos ministros, aliás, ele sempre foi o mais enfático ao defender o fim das bets. A equipe econômica ficou isolada.

Após conceder reajuste de 15,04% no benefício do Bolsa Família, na última hora, o governo também anunciou nesta sexta-feira a terceira edição do programa Desenrola, com custo estimado em R$ 15 bilhões para os cofres públicos. A ideia é que o Tesouro compre dívidas antigas contraídas com bancos, com deságio mínimo de 90%. O desconto será, então, repassado para os devedores, que poderão quitar os débitos à vista ou de forma parcelada.

Na prática, o Planalto avalia que a expectativa do eleitor de ter dinheiro na conta ajudará na reeleição de Lula. O Desenrola 3.0 promete livrar a população de dívidas impagáveis, e o fim das bets permite ao jogador resgatar o saldo remanescente das apostas até 5 de outubro, um dia depois do primeiro turno.

Nos últimos meses, foram feitas várias reuniões no Palácio da Alvorada para discutir como resolver o problema de imagem do governo, associado principalmente ao endividamento da população. Mas Lula só bateu o martelo após ouvir, no dia 13, relatos de famílias que perderam tudo com os jogos. Uma mãe contou ao presidente que seu filho chegou a se suicidar. A cena foi ao ar na propaganda eleitoral do petista.

Nos vários desenhos apresentados a Lula como alternativa, técnicos do Ministério da Fazenda alertaram para a insegurança jurídica provocada pela Medida Provisória que acabou com as bets e para o risco de ações bilionárias na Justiça por quebra de contrato.

Cada uma das empresas autorizadas pela Fazenda a funcionar, em 2023, pagou R$ 30 milhões pela outorga para operar apostas online por cinco anos. Uma ala do próprio PT foi contra a extinção total das bets. Não foram poucos os petistas que defenderam apenas o fim dos cassinos digitais. Mudaram de ideia, no entanto, quando perceberam o risco de derrota nas eleições.

Em 2018, a bancada do PT na Câmara apoiou a Medida Provisória do governo Michel Temer que criou as apostas de quota fixa sobre resultados de eventos esportivos. Mas os cassinos online, como o jogo do Tigrinho, foram incorporados ao modelo apenas em 2023, durante o governo Lula.

Foi a gestão petista que regulamentou as bets, sob a justificativa de que essas empresas atuavam na clandestinidade. Agora, porém, às vésperas das eleições, o governo vai para o “tudo ou nada”.

Pressionado por Flávio, Lula usa a promessa de dinheiro na conta dos eleitores como arma, na tentativa de vencer o jogo. Em 1992, o americano James Carville, estrategista da vitoriosa campanha de Bill Clinton, já dizia: “É a economia, estúpido!” Trinta e quatro anos depois, a máxima parece se repetir. Desta vez, no Brasil.

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Com informações do Estadão

Delmo Menezes
Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais com experiência em diversos órgãos da administração direta e indireta. Analista político e observador atento da política local e nacional. Editor-Chefe do portal de notícias Agenda Capital.

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