Pesquisas mostram disputa apertada entre Lula e Flávio Bolsonaro, enquanto especialistas apontam que migração de votos, participação nas urnas e comportamento dos indecisos ainda podem alterar o cenário
Por Redação
A três dias do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, a disputa pelo Palácio do Planalto permanece aberta nos principais levantamentos. As pesquisas mais recentes mostram Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) separados por poucos pontos, com cenários que, em diferentes institutos, configuram empate técnico dentro das margens de erro.
A nova pesquisa Real Time Big Data, divulgada nesta quinta-feira (1º), reforçou a proximidade entre os dois principais candidatos. No primeiro turno, Lula aparece com 43% das intenções de voto, contra 39% de Flávio Bolsonaro. Na simulação de segundo turno, Flávio registra 46% e Lula 45%, também dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. O levantamento ouviu 2 mil eleitores entre 26 e 30 de setembro.
O Datafolha também tem nova pesquisa prevista para esta quinta-feira, com 2.506 entrevistados, enquanto outro levantamento será divulgado no sábado, véspera da votação. A pesquisa anterior, de 28 de setembro, apontava Lula com 40% e Flávio com 36% no primeiro turno.
Nesse cenário, a reta final ganha importância. O voto de eleitores que ainda não consolidaram sua escolha, a eventual migração de votos dos candidatos da chamada terceira via e o comparecimento às urnas podem produzir alterações importantes até domingo (4).
Voto útil pode ganhar força na reta final
O chamado voto útil é apontado pelos especialistas como um dos principais fatores capazes de modificar a fotografia das pesquisas nos últimos dias.
Durante a edição especial de O Grande Debate Eleições 2026, da CNN Brasil, Guilherme Russo, diretor de inteligência da Quaest, destacou três elementos que podem interferir no resultado: a migração de eleitores de candidatos que não lideram a corrida, o impacto das notícias e dos debates e, principalmente, o nível de engajamento do eleitorado.
Entre os candidatos que podem perder votos na reta final estão nomes como Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão). A possibilidade é que parte desses eleitores passe a concentrar o voto nos dois candidatos mais competitivos.
Segundo Russo, porém, o comportamento do eleitor no dia da votação continua sendo uma variável importante. O comparecimento efetivo às urnas é um dos fatores mais difíceis de ser capturado integralmente pelas pesquisas realizadas antes do domingo.
Abstenção entra no radar
A participação eleitoral aparece como uma das principais incógnitas da reta final.
Marcelo Tokarski, CEO da Nexus, chamou atenção para os desafios enfrentados pelos institutos justamente na tentativa de identificar quem efetivamente irá votar. Segundo ele, não existe uma metodologia capaz de reproduzir perfeitamente o comportamento do eleitorado, já que pesquisas presenciais e telefônicas possuem limitações diferentes.
O fenômeno ganha importância porque uma parcela do eleitorado demonstra insatisfação com o cenário político, mas não necessariamente transforma essa insatisfação em uma escolha imediata por um candidato.
É justamente nesse grupo que podem ocorrer mudanças de última hora.
Eleitor indeciso ainda representa parcela relevante
A pesquisa Meio/Ideia divulgada na quarta-feira (30) apontou que aproximadamente 18% dos eleitores ainda não conseguem indicar um candidato para a Presidência. O percentual é dez pontos maior do que o registrado no mesmo período da eleição de 2022, segundo os dados apresentados no debate.
Esse contingente não significa, necessariamente, que todos estejam completamente indecisos. Parte pode ter preferência, mas ainda não estar disposta a revelá-la; outra parcela pode estar considerando votar em branco ou nulo; e há ainda eleitores que podem decidir apenas nos últimos dias.
Por isso, a movimentação desse grupo é acompanhada com atenção pelas campanhas e pelos institutos.
Eleição marcada pela rejeição
Bruno Soller, analista e sócio do Real Time Big Data, classificou o atual processo eleitoral como marcado por forte rejeição aos principais candidatos. Na avaliação apresentada durante o debate, uma parcela significativa do eleitorado estaria escolhendo mais pela rejeição ao adversário do que por identificação positiva com o próprio candidato.
Esse ambiente aumenta a importância do voto útil e da capacidade de cada campanha de mobilizar seus eleitores no domingo.
A própria pesquisa Real Time divulgada nesta quinta-feira mostra rejeição de 49% para Lula e 49% para Flávio Bolsonaro, segundo os dados publicados sobre o levantamento.
O eleitor que rejeita Lula, mas não declara voto em Flávio
Marcelo Tokarski chamou atenção para um grupo específico: eleitores que desaprovam o governo Lula, mas que ainda não manifestam intenção de votar em Flávio Bolsonaro.
Segundo o executivo da Nexus, esse segmento teria presença relevante entre eleitores mais escolarizados, de classe média e moradores dos grandes centros urbanos.
Esse comportamento ajuda a explicar parte da dificuldade de transformar avaliação de governo em intenção de voto. Desaprovar uma administração não significa automaticamente escolher seu principal adversário.
A conversão dessa insatisfação em voto efetivo, portanto, pode ser uma das questões centrais dos últimos dias.
Divisão regional e por perfil do eleitor
O cenário também apresenta diferenças importantes de acordo com o perfil socioeconômico e regional do eleitorado.
Lula mantém vantagem entre eleitores de menor renda, especialmente aqueles que recebem até dois salários mínimos, enquanto Flávio Bolsonaro apresenta desempenho mais elevado nas faixas de renda superiores.
Também há diferenças por religião e região: o eleitorado católico tende a apresentar maior preferência por Lula, enquanto Flávio concentra parcela expressiva do voto evangélico. Regionalmente, o Nordeste permanece como uma das principais bases eleitorais do petista, enquanto o Sul apresenta maior inclinação para o campo político representado por Flávio.
Essas diferenças tornam estados de grande peso eleitoral, especialmente aqueles em que os dois candidatos apresentam desempenho mais equilibrado, particularmente relevantes na reta final.
“Antipetismo de chegada”
Cila Schulman, CEO do Instituto Ideia, destacou a volatilidade observada no comportamento eleitoral e mencionou o chamado “antipetismo de chegada”.
O conceito descreve a possibilidade de eleitores que inicialmente optaram por candidatos menores migrarem, na reta final, para o nome mais competitivo identificado como oposição ao PT.
O movimento, caso ocorra, pode alterar a distribuição dos votos sem necessariamente aumentar o número de eleitores que afirmam ter mudado de opinião sobre Lula ou Flávio.
Por que a aprovação do governo não se converteu integralmente em votos
Yuri Sanches, head de análise política da AtlasIntel, também analisou a dificuldade do governo em ampliar sua aprovação durante a campanha.
Segundo Sanches, o governo chegou ao período eleitoral com rejeições já consolidadas e sem conseguir transformar determinadas medidas em uma percepção imediata de ganho entre os eleitores.
Ele citou como exemplo a isenção do Imposto de Renda, cujo impacto financeiro para parte dos beneficiados somente será percebido posteriormente, inclusive no momento da declaração do imposto.
Na avaliação apresentada pelo analista, isso dificultou a transformação de medidas governamentais em uma fidelização automática do eleitor que apoiou Lula em 2022.
Últimos dias serão marcados por pressão sobre o eleitor
Com o primeiro turno marcado para domingo, 4 de outubro, as campanhas entram agora na fase de maior pressão sobre os eleitores.
Debates, propaganda, redes sociais, eventos de campanha, notícias de última hora e movimentos de voto útil podem influenciar uma parcela do eleitorado. O debate da TV Globo, previsto para esta quinta-feira (1º), ocorre justamente nesse momento decisivo da campanha.
A fotografia das pesquisas, portanto, mostra uma disputa extremamente concentrada nos dois principais candidatos, mas ainda sujeita a movimentos de última hora.
O que pode definir a eleição não está apenas em quem lidera as pesquisas, mas também em quantos eleitores efetivamente irão às urnas, quantos manterão sua escolha e quantos decidirão mudar de voto nos últimos dias.
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Da Redação do Agenda Capital




