Prateleiras vazias no Albert Heijn em Utrecht/ Holanda. Foto: Divulgação.

Ataque atingiu centenas de lojas, provocou perdas de alimentos e relatos de incêndios; na Holanda, centros de distribuição foram paralisados e consumidores podem enfrentar falta de produtos frescos

Por Delmo Menezes

Um ciberataque de grandes proporções atingiu sistemas de refrigeração de redes de supermercados na França, Holanda e Bélgica na noite deste domingo (11/10). Na França, hackers teriam elevado a temperatura de equipamentos de refrigeração a até 50°C durante várias horas, comprometendo alimentos e provocando prejuízos em centenas de estabelecimentos.

O caso mobilizou autoridades francesas e foi classificado por representantes do setor varejista como um episódio sem precedentes. Além das perdas de produtos perecíveis, foram relatados incêndios em meio aos incidentes, enquanto equipes de segurança cibernética investigam a origem e a extensão da invasão.

A Procuradoria de Paris informou que o ataque em larga escala afetou equipamentos de refrigeração conectados em diferentes grandes redes de supermercados do país. Diante da gravidade da ocorrência, o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, determinou que a Agência Nacional de Segurança dos Sistemas de Informação (ANSSI) investigasse o caso.

O governo francês também iniciou a coordenação com autoridades de outros países europeus para verificar se a ofensiva ultrapassou as fronteiras nacionais e se outras empresas podem estar expostas à mesma vulnerabilidade.

As filiais afetadas teriam que “descartar todos os produtos”, tanto frescos quanto congelados, informou a Intermarché, em Paris/França. Fotografia: Virginie Lefour

Centenas de supermercados afetados na França

A rede Intermarché confirmou que aproximadamente 150 lojas foram atingidas. Segundo a empresa Les Mousquetaires, responsável pela operação da marca, os sistemas de refrigeração permaneceram aquecidos a 50°C por cerca de seis horas.

Para evitar riscos à saúde dos consumidores, os alimentos comprometidos foram descartados. A medida representa perdas financeiras para os estabelecimentos e evidencia os riscos de ataques digitais contra equipamentos que desempenham funções essenciais para a conservação de alimentos.

A Coopérative U, outra importante organização varejista francesa, também confirmou que foi afetada.

Em manifestação publicada na rede social X, o diretor-executivo da companhia, Dominique Schelcher, afirmou que atacar equipamentos fundamentais para conservar produtos frescos e garantir o abastecimento alimentar da população é uma ocorrência de extrema gravidade e sem precedentes.

Relatos divulgados pela imprensa francesa apontaram ainda possíveis impactos em outras redes. A BFM TV informou que unidades da E.Leclerc também teriam sido atingidas, com invasores acionando remotamente o descongelamento forçado de sistemas de refrigeração.

Carrefour, Monoprix e Auchan também foram mencionadas entre as empresas procuradas para comentar o episódio, mas não havia confirmação pública de que todas tivessem sido afetadas.

Holanda enfrenta problemas em sistemas e centros de distribuição

Na Holanda, a Ahold Delhaize, grupo que controla a rede Albert Heijn, informou que enfrentava um problema de segurança e decidiu desligar preventivamente vários sistemas para proteger sua infraestrutura de tecnologia da informação.

As lojas da Albert Heijn, maior rede de supermercados do país, permaneceram abertas na Holanda e na Bélgica. Entretanto, o aplicativo da empresa e os serviços de entrega pela internet ficaram indisponíveis, enquanto etiquetas eletrônicas de preços passaram a exibir informações incorretas em diversas situações.

Prateleiras vazias no Albert Heijn em Amsterdam/ Holanda. Foto: Divulgação.

Os impactos também alcançaram a logística. Segundo a presidente-executiva da Albert Heijn, Margaret Versteden-van Duijn, as atividades foram interrompidas completamente em alguns centros de distribuição depois que sistemas precisaram ser desligados por precaução.

A rede possui sete grandes centros de distribuição na Holanda. A executiva não detalhou quais unidades continuavam operacionais.

A paralisação pode comprometer o abastecimento das lojas, especialmente de alimentos frescos, cuja distribuição depende de operações logísticas frequentes e de uma cadeia de conservação controlada.

A empresa prevê maior disponibilidade de produtos não perecíveis, pães e alimentos congelados, mas admite que a duração do problema poderá determinar a extensão de eventuais faltas nas prateleiras.

“É claro que as prateleiras vão ficar vazias se isso se prolongar”, afirmou a executiva, segundo informações divulgadas pela emissora holandesa NOS. Ela ressaltou que os efeitos poderão variar de uma loja para outra.

Até o momento descrito nos relatos, a companhia não havia confirmado se agentes maliciosos conseguiram efetivamente invadir seus sistemas de tecnologia da informação. A investigação permanecia em andamento.

Bélgica também registra reflexos

Os problemas de segurança também foram associados a operações da Delhaize, rede pertencente ao grupo Ahold Delhaize, com atuação na Bélgica e em Luxemburgo.

A possível ocorrência de incidentes em diferentes países ampliou a preocupação das autoridades e das empresas com a hipótese de uma vulnerabilidade compartilhada ou de ataques coordenados. Entretanto, não havia confirmação de que os problemas registrados na França, na Holanda e na Bélgica tivessem a mesma origem.

A distinção é importante: a coincidência temporal e os efeitos semelhantes não são suficientes, por si só, para comprovar que todos os episódios fazem parte de uma única ofensiva.

Software dinamarquês entra no radar da investigação

De acordo com informações atribuídas a uma fonte próxima ao governo francês, a ANSSI identificou uma vulnerabilidade em um software fornecido pela empresa dinamarquesa Danfoss.

A descoberta pode ajudar a esclarecer como os invasores conseguiram interferir remotamente nos sistemas de refrigeração. Ainda assim, a identificação de uma possível vulnerabilidade não significa, por si só, que a fornecedora tenha sido responsável pelo ataque ou que todos os incidentes tenham explorado a mesma falha.

Os investigadores precisam determinar como ocorreu o acesso, quais equipamentos foram comprometidos, se houve exploração de falhas conhecidas e se outras empresas utilizam sistemas igualmente vulneráveis.

Ataque expõe riscos da conexão entre equipamentos industriais e redes digitais

O episódio demonstra como a digitalização de atividades essenciais do comércio pode ampliar os efeitos de um incidente cibernético. Sistemas de refrigeração, controles de temperatura, plataformas de preços, aplicativos e centros de distribuição integram operações que dependem cada vez mais de redes informatizadas.

Quando esses recursos são comprometidos, os danos podem ultrapassar a indisponibilidade de serviços digitais e atingir diretamente a conservação de alimentos, a logística e o funcionamento das lojas.

No caso francês, o aquecimento dos refrigeradores obrigou estabelecimentos a descartar produtos para proteger os consumidores. Na Holanda, a interrupção preventiva de sistemas provocou dificuldades operacionais e levantou o risco de desabastecimento localizado.

A investigação das autoridades francesas, em coordenação com parceiros europeus, deverá esclarecer a dimensão da ofensiva, a eventual ligação entre os incidentes e as medidas necessárias para evitar novos ataques.

Enquanto isso, redes varejistas enfrentam o desafio de manter o atendimento ao público e recuperar operações sem comprometer a segurança dos alimentos nem ampliar a exposição de suas infraestruturas digitais.

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Da Redação do Agenda Capital e Agências Internacionais

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