O país celebra seus professores uma vez por ano, mas continua adiando decisões fundamentais sobre salários, condições de trabalho e respeito profissional. A contradição revela o lugar que a educação realmente ocupa nas prioridades nacionais.
Por Delmo Menezes
Há uma contradição que o Brasil precisa enfrentar: todos reconhecem a importância do professor, mas poucos parecem dispostos a tratar essa importância como prioridade nacional.
Quando uma criança aprende a ler, quando um jovem descobre sua vocação ou quando um adulto amplia sua compreensão do mundo, existe, quase sempre, a presença de um educador. Ainda assim, aquele que ajuda a construir o futuro de outras pessoas frequentemente precisa lutar pelo próprio presente.
Neste 15 de outubro, Dia do Professor, vale perguntar: se a educação é apontada como o caminho para o desenvolvimento do Brasil, por que seus principais agentes continuam enfrentando tantas dificuldades para exercer a profissão?
A resposta não está na falta de discursos. Está na distância entre o que o país diz sobre a educação e aquilo que efetivamente faz por ela.
O professor que ninguém vê
A imagem tradicional do professor diante da lousa não revela a dimensão de seu trabalho. Antes de entrar em sala, ele prepara aulas, pesquisa, organiza conteúdos e procura maneiras de tornar o conhecimento acessível a estudantes com diferentes necessidades. Depois que a aula termina, ainda há provas para corrigir, atividades para avaliar, relatórios para preencher e dificuldades de aprendizagem para acompanhar.
É um trabalho que não cabe no horário registrado nem termina quando o sinal anuncia o fim das aulas.
Além de ensinar, o educador precisa lidar com conflitos, desinteresse, problemas de convivência e situações sociais que chegam à escola sem pedir licença. Em muitas circunstâncias, é chamado a exercer funções que ultrapassam suas atribuições, sem contar com o apoio necessário.
Essa realidade ajuda a explicar o desgaste de uma categoria da qual se exige cada vez mais, embora nem sempre sejam oferecidas condições proporcionais às responsabilidades assumidas.
A sociedade cobra resultados dos professores, mas nem sempre lhes entrega os meios necessários para alcançá-los.
Quando ensinar deixa de ser uma escolha atraente
Uma profissão revela seu prestígio não apenas pelo que a sociedade fala sobre ela, mas também pela capacidade de atrair novos profissionais.
Nesse aspecto, a docência enfrenta um sinal de alerta. Salários pouco competitivos, perspectivas limitadas de progressão e dificuldades cotidianas fazem com que muitos jovens hesitem antes de escolher a sala de aula como espaço de realização profissional.
Não se pode esperar que uma carreira dependa exclusivamente de idealismo. A vocação é importante, mas não paga as contas, não reduz a sobrecarga e não garante tranquilidade para planejar o futuro.
Quando professores experientes se sentem desestimulados e jovens talentosos procuram outras áreas, o prejuízo ultrapassa os limites das escolas. O país perde a oportunidade de formar e manter profissionais capazes de preparar as próximas gerações.
A pergunta, portanto, não deveria ser apenas como convencer mais jovens a se tornarem professores, mas como tornar a profissão digna, respeitada e atraente.
Uma escola diante de um mundo que mudou
O professor de hoje trabalha em uma realidade muito diferente daquela de algumas décadas atrás. A informação está disponível em telas, circula em velocidade extraordinária e disputa a atenção dos estudantes com inúmeras distrações.
A inteligência artificial acrescentou novas possibilidades e preocupações. Ferramentas digitais podem auxiliar no aprendizado, mas também exigem discernimento para identificar erros, verificar informações e evitar que a facilidade de obter respostas substitua o exercício de pensar.
Nesse contexto, ensinar não significa apenas transmitir conteúdos. Significa ajudar o estudante a interpretar, questionar, argumentar e construir conhecimento com autonomia.
É uma tarefa ainda mais exigente, que requer formação continuada, recursos tecnológicos e tempo para planejamento. Não faz sentido cobrar inovação dos educadores sem lhes oferecer as condições necessárias para acompanhar as transformações.
A tecnologia pode mudar os instrumentos de ensino, mas não elimina a importância de um professor capaz de despertar curiosidade, reconhecer dificuldades e inspirar confiança.
Não se pode responsabilizar o professor por todas as falhas da educação
Os resultados insuficientes da aprendizagem, as dificuldades de alfabetização e o analfabetismo funcional representam problemas graves para o desenvolvimento brasileiro.
Mas é preciso compreender suas causas sem procurar culpados fáceis.
O aprendizado depende da qualidade do ensino, da formação docente, da gestão escolar, da infraestrutura, das condições socioeconômicas dos estudantes e da participação das famílias. Quando essas dimensões falham, o professor sente diretamente os efeitos, mas não dispõe, sozinho, dos meios para resolver todos os problemas.
Uma escola sem recursos adequados, com turmas excessivamente numerosas ou sem apoio especializado enfrenta obstáculos que a dedicação individual não consegue eliminar.
Isso não significa dispensar a responsabilidade profissional ou deixar de avaliar resultados. Significa reconhecer que a cobrança só é justa quando acompanhada de condições, suporte e responsabilidades compartilhadas.
O professor precisa ser ouvido na formulação das políticas educacionais, e não lembrado apenas quando os indicadores revelam dificuldades.
Educação não pode depender do calendário eleitoral
A cada eleição, candidatos prometem melhorar escolas, ampliar investimentos e fortalecer a carreira docente. Depois, as prioridades mudam, os programas são reformulados e parte dos compromissos perde força.
Esse ciclo precisa ser interrompido.
A educação deve ser tratada como política de Estado, com planejamento de longo prazo, financiamento adequado e continuidade entre governos. Isso inclui o cumprimento do piso salarial nacional do magistério público da educação básica, planos de carreira consistentes, formação continuada, segurança nas escolas e melhores condições de trabalho.
União, estados, Distrito Federal e municípios precisam assumir suas responsabilidades de maneira coordenada, com metas claras e avaliação dos resultados.
Não se trata apenas de gastar mais, mas de investir melhor, combater desigualdades e garantir que os recursos cheguem onde fazem diferença na aprendizagem.
Um país que deseja competir em ciência, tecnologia e inovação não pode relegar a educação a uma promessa recorrente de campanha.
Por isso, investir nos professores não é uma concessão a uma categoria profissional. É uma decisão estratégica sobre o futuro do país.
O educador não resolve sozinho as desigualdades brasileiras, mas pode oferecer aos estudantes ferramentas para compreendê-las e superá-las. Seu trabalho não elimina todas as dificuldades de uma sociedade, mas ajuda a formar pessoas capazes de enfrentá-las.
O aplauso precisa continuar depois de 15 de outubro
A frase atribuída a Rubem Alves, segundo a qual o professor permanece vivo naqueles que aprenderam a ver o mundo por meio de suas palavras, expressa uma verdade que atravessa gerações. Todos guardamos, de alguma maneira, a lembrança de alguém que nos ensinou algo decisivo.
Mas há uma injustiça em celebrar a grandeza dessa missão sem enfrentar as dificuldades concretas de quem a exerce.
O professor não precisa apenas de homenagens. Precisa de remuneração digna, respeito à sua autoridade pedagógica, segurança, recursos para trabalhar e tempo para continuar aprendendo. Precisa, sobretudo, saber que sua dedicação encontra respaldo nas instituições e na sociedade.
Neste Dia do Professor, minha reflexão é simples: não podemos exigir que a educação transforme o Brasil enquanto tratamos seus educadores como se fossem capazes de superar, apenas com esforço pessoal, todas as limitações do sistema.
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*Delmo Menezes – Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais com experiência em diversos órgãos da administração direta e indireta. Analista político e observador atento da política local e nacional. Editor-Chefe do portal de notícias Agenda Capital.





