Invertendo valores: de bandido a herói

Lampião e o cangaço. Foto: reprodução

Por Miguel Lucena*

Diógenes de Arruda Câmara chegou a dizer que Jorge Amado, após deixar o Partido Comunista Brasileiro, não sobreviveria intelectualmente por mais seis meses. Ele costumava se gabar de que muitos capítulos das obras do escritor-mor da Bahia, escritos antes de 1950, eram preparados pelos dirigentes do Comitê Central do PCB/PC do B.

Excluídos os exageros de Arruda Câmara, tido como um stalinista fanático, é fato que os escritores comunistas foram orientados na década de 1930, num daqueles congressos culturais que se realizavam no Leste Europeu, a exaltar a figura do criminoso comum como vítima da sociedade.

A obra Capitães da Areia segue a orientação do Comintern (órgão que dirigia internacionalmente os comunistas). Os menores infratores, vítimas da sociedade, vivem de furtos e golpes. Pedro Bala, menino órfão que perdeu o pai durante uma greve no Porto da Bahia, chega ao final do romance como líder sindical e comunista. Um dos garotos ficará mais tarde conhecido como Volta Seca, famoso cangaceiro do Bando de Lampião.

Lampião, que era pago para atacar fazendeiros inimigos de coronéis da terra, e cujo bando funcionava como milícia dos anos 1920/30, roubando, saqueando, raptando moças, estuprando e matando quem não atendesse seus caprichos, foi transformado em heroi sertanejo e símbolo da bravura nordestina. A volante da Polícia sempre foi ridicularizada nos filmes.

Com o Cinema Novo, os bandidos continuaram exaltados, enquanto a Polícia era demonizada. Vi uma cena em que Paulo Gracindo, na função de inspetor policial, enfiava um alfinete na ponta do nariz de um criminoso que ele interrogava.

Lúcio Flávio, o passageiro da agonia, cuja imagem se confunde com a do galã Reginaldo Faria, foi usado e traído por policiais corruptos. Ele termina o filme como vítima de uma tremenda injustiça da sociedade, quando todos sabem que era um criminoso sanguinário.

Herói foi meu pai, que criou, educou e formou os filhos trabalhando no cabo da enxada e numa máquina lambe-lambe.

*Miguel Lucena é Delegado de Polícia Civil do DF, jornalista e escritor. Colunista semanal do Agenda Capital

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