O afastamento de Ednaldo se dá no contexto de uma investigação sobre a autenticidade da assinatura do coronel Nunes em um acordo homologado pelo STF em fevereiro, que havia validado o processo eleitoral da CBF
Por Delmo Menezes
A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) vive mais um capítulo turbulento em sua história recente. O presidente Ednaldo Rodrigues foi afastado do cargo nesta quinta-feira (15) por decisão do desembargador Gabriel de Oliveira Zefiro, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ). A medida ocorre após determinação do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para apuração de possível falsificação na assinatura do ex-presidente da entidade, coronel Antônio Carlos Nunes de Lima, em um acordo que havia estabilizado a permanência de Ednaldo no cargo.
A decisão de Zefiro nomeia Fernando José Sarney, vice-presidente da CBF, como interventor e determina que ele convoque novas eleições “o mais rápido possível”. Enquanto isso, Sarney assume os poderes administrativos da entidade máxima do futebol brasileiro.
Suspeita de fraude
O afastamento de Ednaldo se dá no contexto de uma investigação sobre a autenticidade da assinatura do coronel Nunes em um acordo homologado pelo STF em fevereiro, que havia validado o processo eleitoral da CBF. O documento é alvo de suspeita de falsificação, levantada após uma perícia grafotécnica solicitada pelo vereador carioca Marcos Dias (Podemos), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal do Rio.
O laudo, assinado pela perita Jacqueline Tirotti, concluiu que não foi possível identificar o punho de Nunes na assinatura analisada. Além disso, foi anexado ao processo um parecer médico do Dr. Jorge Pagura, chefe do Departamento Médico da CBF, apontando que Nunes — hoje com 86 anos — sofre de déficit cognitivo severo, agravado por um tumor cerebral e uma cirurgia invasiva realizada em 2023.
Defesa de Ednaldo e possível recurso
Ednaldo Rodrigues nega qualquer irregularidade e afirma ter “certeza absoluta que o coronel Nunes assinou o documento”. Ele garante não ter medo da apuração e sustenta a legalidade do acordo que o manteve no cargo. A CBF, por sua vez, emitiu nota oficial afirmando que não teve acesso ao laudo pericial e criticou o que chamou de uso “midiático e precipitado” do documento.
Como a decisão do TJ-RJ foi monocrática, ou seja, proferida por um único desembargador, ainda cabe recurso. A CBF pode apresentar um agravo interno para que o caso seja reavaliado por um colegiado, além de poder recorrer a instâncias superiores, com embargos, apelações ou recursos especiais e extraordinários, conforme prevê o Código de Processo Civil.
O que diz a decisão judicial
O desembargador Gabriel Zefiro, em sua decisão, expressa dúvidas não apenas sobre a autenticidade da assinatura, mas sobre a capacidade cognitiva do coronel Nunes à época da assinatura. “A robustez dos indícios trazidos aos autos leva à inarredável conclusão acerca de um fato, até mesmo óbvio: há muito o coronel Nunes não tem condições de expressar de forma consciente sua vontade. Seus atos são guiados. Não emanam da sua vontade livre e consciente”, escreveu o magistrado.
Zefiro ainda criticou a ausência de Nunes em audiência convocada para esclarecimentos, mesmo por videoconferência, e afirmou que uma simples inspeção judicial teria sido suficiente para esclarecer a questão. Diante disso, anulou o acordo firmado e retomou uma decisão anterior do próprio TJ-RJ que, no fim de 2023, havia afastado Ednaldo Rodrigues da presidência.
Repercussões e denúncias internas
A nova crise institucional da CBF ocorre em meio ao anúncio de Carlo Ancelotti como futuro técnico da seleção brasileira, movimento visto nos bastidores como uma vitória pessoal de Ednaldo Rodrigues. No entanto, o dirigente enfrenta três denúncias na Comissão de Ética da entidade — por suspeita de assédio, gestão temerária e justamente pela suposta fraude no acordo que agora foi anulado.
Dois pedidos de afastamento haviam sido apresentados ao STF, um pela deputada federal Daniela do Waguinho (União Brasil-RJ) e outro por Fernando Sarney. Ambos foram negados por Gilmar Mendes, que preferiu remeter o caso à instância inferior para apuração dos fatos.
E agora?
Com a decisão de Zefiro, o cenário na CBF volta à estaca zero. Fernando Sarney, um dos vice-presidentes mais antigos da entidade e filho do ex-presidente da República José Sarney, assume interinamente e deverá conduzir o processo eleitoral. A expectativa é de que a entidade busque uma rápida definição para evitar sanções de entidades como Fifa e Conmebol, que tradicionalmente resistem a interferências externas nas federações nacionais.
A novela jurídica e política envolvendo o comando do futebol brasileiro está longe do fim. Enquanto isso, a CBF vive dias de incerteza, com a credibilidade abalada e o futuro de sua liderança em aberto.
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Da Redação do Agenda Capital







