A gravidade do problema judicial é confirmada pelos dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que apontam os Correios como o maior litigante trabalhista do País

Por Redação

Brasília — A Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (Correios) divulgou um balanço do terceiro trimestre de 2025 que não apenas revela um prejuízo acumulado de R$ 6,05 bilhões no ano até setembro, mas também mantém uma persistente “ressalva” da auditoria independente, sinalizando problemas na avaliação de riscos da estatal.

Pelo terceiro relatório trimestral consecutivo, a auditoria contratada aponta a necessidade de aprimoramento nos critérios e controles internos, principalmente em relação às estimativas de processos judiciais. Se essa revisão comprovar que os riscos de perda judicial foram subestimados, o prejuízo bilionário da empresa deverá aumentar significativamente devido à necessidade de maiores provisões financeiras.

Os Correios, por sua vez, defendem-se: “as demonstrações contábeis dos Correios são elaboradas e publicadas em conformidade com a legislação e normas vigentes”, e que os documentos são examinados “segundo as normas brasileiras e internacionais”.

Provisões judiciais quase dobram

O cerne da ressalva da auditoria reside na gestão dos passivos contingentes. A empresa está revisando as estimativas e riscos de seus processos judiciais. Em comparação com o fim de 2024, o montante de provisões para esses processos quase dobrou, saltando de R$ 2,72 bilhões para R$ 5 bilhões ao final de setembro de 2025.

Entre as maiores preocupações estão os processos trabalhistas, com foco especial na cumulatividade do AADC (Adicional de Atividade de Distribuição e/ou Coleta Externa) com o AP (Adicional de Periculosidade). A estatal admite que os impactos dessa revisão poderão ser refletidos nas próximas Demonstrações Contábeis.

A gravidade do problema judicial é confirmada pelos dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que apontam os Correios como o maior litigante trabalhista do País, registrando 56.481 novos casos nos últimos 12 meses — uma média de 154 ações por dia.

Auditoria e análise de especialistas

A auditoria dos balanços está sendo realizada pela Consult Auditores, empresa sediada no Paraná, que não faz parte das “Big Four” (Deloitte, EY, KPMG, e PwC). O relatório da Consult cita que, embora haja avanços na classificação dos riscos processuais, “ainda foram observados pontos que requerem aprimoramento nos critérios utilizados e nos controles internos”.

A especialista Magali Camazano explica que, pelas normas contábeis, a empresa só deve constituir provisão quando o risco de perda é provável, o que, no caso dos Correios, já estaria prejudicando seu resultado financeiro. O pequeno detalhamento sobre esses riscos no balanço oficial levanta questionamentos no mercado.

É importante notar que o termo “ressalva” (utilizado pela Consult Auditores) indica problemas de confiança nos dados, sendo rebatizado como “opinião modificada” nas regras internacionais (IFRS), enquanto a “ênfase” (também levantada pela auditoria) apenas coloca o foco em dados que merecem atenção, como o déficit no custeio global do plano de saúde pós-emprego.

Descompasso financeiro causa prejuízo “contratado”

A deterioração acelerada das finanças dos Correios é atribuída, por especialistas, ao grave descompasso entre o aumento de gastos operacionais e a queda de receitas.

O professor Márcio Holland, da FGV-EESP e ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda, alerta que a evolução dos gastos, especialmente com pessoal e reajustes de benefícios, foi incompatível com a realidade do mercado.

O pagamento de benefícios a empregados subiu drasticamente, de R$ 2,79 bilhões no quarto trimestre de 2024 para R$ 4,97 bilhões no terceiro trimestre de 2025. Ao mesmo tempo, a receita líquida de vendas e serviços caiu de R$ 14,15 bilhões para R$ 12,34 bilhões no mesmo período, uma retração de R$ 1,8 bilhão.

“Somando as perdas com o maior pagamento de benefícios… com a menor receita, já se cria um prejuízo contratado de R$ 4 bilhões”, afirma Holland, citando também o impacto da concorrência e o fim do monopólio com a “taxa das blusinhas”, que teria retirado cerca de R$ 2 bilhões da receita anual.

Plano de reestruturação insuficiente

Para tentar estancar o rombo, a estatal apresentou um plano de reestruturação que inclui a venda de imóveis, renegociação de contratos e um programa de demissão voluntária (PDV) de, pelo menos, 10 mil empregados.

No entanto, o professor Holland considera o plano insuficiente para reverter a crise. Além disso, a iniciativa de buscar um empréstimo de R$ 20 bilhões com garantia do Tesouro Nacional foi barrada. O Tesouro negou o aval, exigindo que as taxas de juros não ultrapassem 120% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), condição que os bancos credores não aceitaram, impedindo o socorro financeiro.

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Da Redação Agenda Capital

Delmo Menezes
Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais com experiência em diversos órgãos da administração direta e indireta. Analista político e observador atento da política local e nacional. Editor-Chefe do portal de notícias Agenda Capital.

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