O senador Flávio Bolsonaro foi anunciado como candidato do pai para concorrer à presidência em 2026 Foto: Wilton Junior/Estadão

Lançamento de Flávio Bolsonaro como pré-candidato a presidente é visto por lideranças com desconfianças

Por Delmo Menezes

O anúncio do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) de que escolheu o filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), como pré-candidato à Presidência da República em 2026 caiu como uma bomba no meio político, mas foi recebido com ampla desconfiança nos bastidores. Entre lideranças partidárias, a avaliação predominante é que a movimentação não passa de um “balão de ensaio” para testar a reação do eleitorado e manter a família Bolsonaro em evidência no cenário nacional.

A leitura de dirigentes de diferentes correntes ideológicas é de que a estratégia tem dois objetivos centrais: medir a força eleitoral de Flávio e, ao mesmo tempo, preservar o protagonismo político da família enquanto Jair Bolsonaro cumpre prisão na superintendência da Polícia Federal, em Brasília. Na prática, Flávio passaria a funcionar como porta-voz do ex-presidente, ocupando o espaço simbólico de liderança da direita.

Ainda nos bastidores, até mesmo setores tradicionalmente alinhados ao bolsonarismo, como parte das lideranças evangélicas, demonstraram ceticismo em relação à viabilidade real da candidatura. A percepção é de que o anúncio foi precipitado e não representa, necessariamente, uma decisão definitiva.

Estratégia antiga de testar reações

A tática de antecipar anúncios para aferir a receptividade política não é novidade no grupo de Jair Bolsonaro. Em 2019, o então presidente chegou a anunciar publicamente a intenção de indicar o deputado Eduardo Bolsonaro para a embaixada do Brasil nos Estados Unidos, o que acabou não se concretizando diante da forte reação contrária no Congresso e na opinião pública.

Agora, segundo avaliam lideranças ouvidas sob reserva, a pré-candidatura de Flávio cumpre o papel de impedir que o centro político avance na construção de um nome próprio fora do clã Bolsonaro. O movimento também serviria para controlar a narrativa da imprensa ao deslocar os holofotes para o senador justamente durante o recesso parlamentar, período de noticiário político mais esvaziado.

Reação política e impacto no mercado

O anúncio causou surpresa entre aliados, incomodou o Centrão, gerou desconfiança nos adversários e provocou forte reação no mercado financeiro. Em resposta imediata, o Ibovespa registrou queda superior a 4%, enquanto o dólar futuro disparou, reflexo da leitura de investidores de que a eventual candidatura de Flávio teria menor competitividade eleitoral.

Na avaliação de dirigentes partidários, uma decisão concreta sobre a candidatura só deve ocorrer após o Carnaval de 2026. Até lá, o centro político segue tentando viabilizar uma alternativa fora da família Bolsonaro, com destaque para o nome do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). No entanto, aliados reconhecem que Tarcísio só aceitaria disputar o Planalto com o aval explícito de Jair Bolsonaro.

Controle político e sucessão familiar

Apesar das críticas e da desconfiança generalizada, a escolha de Flávio não é considerada totalmente ilógica dentro da estratégia do ex-presidente. Fragilizado politicamente e sob forte cerco jurídico, Bolsonaro vê no primogênito o nome mais confiável para representar seus interesses diretos.

Entre os potenciais nomes do campo bolsonarista — Flávio, Michelle Bolsonaro e Tarcísio de Freitas — o senador é apontado como aquele que mais obedeceria às diretrizes do pai. O raciocínio, segundo aliados, é simples: em caso de vitória, Bolsonaro manteria influência direta sobre o governo; em caso de derrota, o sobrenome Bolsonaro continuaria em evidência no cenário político nacional.

Avaliação eleitoral desfavorável

Outro fator que pesa contra a candidatura de Flávio é a leitura do mercado e de analistas políticos de que ele teria menos chances eleitorais contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva do que nomes como Tarcísio. Essa percepção contribuiu para a forte reação negativa nos indicadores econômicos após o anúncio.

Assim, apesar do impacto imediato e do barulho político provocado, a avaliação predominante nos bastidores é de que o lançamento de Flávio Bolsonaro como pré-candidato ainda está longe de se consolidar como um projeto definitivo. Para muitos, trata-se, acima de tudo, de uma jogada estratégica para medir forças, tensionar adversários e manter a família Bolsonaro no centro do debate político nacional.

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Da Redação do Agenda Capital

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