
Inteligência artificial não extinguirá empregos em massa, mas transformará o trabalho, diz futurista no São Paulo Innovation Week
Por Redação
A adoção da inteligência artificial (IA) nas empresas não deve provocar a eliminação repentina de empregos, mas sim uma transformação gradual no mercado de trabalho. Essa é a avaliação do futurista Ian Beacraft, um dos palestrantes do São Paulo Innovation Week.
CEO da consultoria Signal and Cipher e referência global em tendências do mundo corporativo, Beacraft compara o atual momento ao impacto das máquinas durante a Revolução Industrial. Para ele, o cenário aponta para adaptação — e não para substituição em massa da força de trabalho.
“Não consigo imaginar um mundo onde eliminaremos 75% dos empregos da noite para o dia. Eu vejo um cenário em que parte das tarefas será automatizada, possivelmente mais rápido do que esperamos. O impacto dependerá muito mais de como as organizações vão reagir do que da velocidade da tecnologia”, afirma.
Segundo o especialista, a inteligência artificial ainda é capaz de automatizar apenas parte das atividades hoje desempenhadas por humanos, o que mantém um espaço relevante para a atuação das pessoas. Ele destaca, no entanto, que as empresas tendem a adotar novas tecnologias de forma mais lenta do que o ritmo de evolução dessas ferramentas.
Beacraft também faz um alerta sobre a forma como a IA vem sendo utilizada no ambiente corporativo. De acordo com ele, muitas organizações ainda tratam a tecnologia apenas como uma ferramenta, o que limita significativamente seu potencial.
“Muitas pessoas ainda usam a IA como ferramenta, e isso pode representar uma perda de até 90% do seu valor. A IA é, na verdade, uma plataforma — assim como a eletricidade, a água ou a tecnologia digital, que moldaram economias inteiras”, explica.
Na avaliação do futurista, essa mudança de percepção será determinante para o futuro dos negócios. Ele acredita que, até o fim desta década, empresas poderão criar novos modelos com mais rapidez, impulsionadas pelo papel da IA na coordenação de processos e decisões.
Na prática, isso significa organizações mais ágeis, capazes de identificar oportunidades de mercado com maior velocidade e eficiência — desde que saibam utilizar a tecnologia de forma estratégica.

Confira os principais trechos da entrevista a seguir:
Como os profissionais humanos podem manter seus empregos e até se destacarem diante da ascensão dos agentes de IA?
Provavelmente, não estamos longe de um mundo onde ela poderá fazer tudo o que eu faço. É fácil cair nessa armadilha, especialmente quando os próprios criadores de IA estão vendendo a ideia de um mundo onde podem eliminar muitos dos desafios do trabalho. Certas funções serão automatizadas, mas, na maior parte, serão apenas partes dessas funções. O que acontece é que você não automatiza um trabalho inteiro de uma vez, e sim certas partes dele. O trabalho fica com uma lacuna e temos dificuldade em entender como preenchê-la. Como criar algo que possa pegar o trabalho de uma pessoa e agregar mais do que a organização precisa fazer? Essa é uma questão tanto de teoria organizacional quanto de gestão, tanto operacional quanto tecnológica. Um dos desafios em responder a essa pergunta é que geralmente ela é feita dentro de uma perspectiva tecnológica, de como prosperar nesta era em que a tecnologia está impulsionando tudo. A tecnologia não impulsiona tudo. É na tecnologia que o maior progresso está sendo feito, mas ela muda a estrutura de como o trabalho é feito, a estrutura de tomada de decisão, a forma como a liderança se apresenta e onde o poder está consolidado. Nos últimos 50 anos, isso não mudou muito. Agora, as dinâmicas estão sendo ‘disruptadas’. Mas não estamos discutindo todas as outras para chegarmos a uma resposta abrangente.
Como um profissional especializado pode começar sua transição para se tornar um ‘generalista criativo’ sem perder a autoridade técnica que já tem?
Pessoas com conhecimento profundo se tornarão ainda mais importantes, não menos. A própria expertise pode se tornar menos defensável, porque o custo de aquisição de novo conhecimento é zero. A IA facilitou a atuação como se fosse conhecimento. Mas o que ela não fez foi ajudar a incorporar o discernimento, a compreensão e a sabedoria de quem já se deparou com situações e casos extremos centenas ou milhares de vezes, para saber quais perguntas fazer, para saber como antecipar certos casos extremos ou cenários que outros podem não ter vivenciado antes. Essa sabedoria tem mais importância, não menos. Quando você tem pessoas com acesso ao conhecimento, mas sem experiência, fica mais fácil se deparar com desafios, problemas e dificuldades que poderiam passar despercebidos. Já aqueles que têm conhecimento profundo e expertise sabem como evitá-los antes mesmo de surgirem. Assim, acabam assumindo o papel de guia, muito mais do que aqueles que não o possuem. Eles podem orientar outros sobre como navegar na tecnologia, como utilizá-la para ir além de sua base de conhecimento, mas sua sabedoria se torna exponencialmente importante e inestimável, não menos.
Quais profissões podem ser seguras para os trabalhadores que temem ser substituídos por soluções baseadas em IA?
A questão não é tanto a segurança das profissões, mas sim como percebemos a evolução de tudo, porque tudo está mudando. Se a discussão for entre profissões seguras e inseguras, vira um jogo de desgaste, um ‘nós contra eles’. É como se fosse o povo contra a tecnologia. A tecnologia está vindo para cima de nós, e sempre foi algo capaz de amplificar todo o espectro do espírito e da capacidade humana. Nós, como sociedade, vamos mudar enormemente por causa do que está acontecendo no mundo e do que a IA possibilita. Isso nos permitirá fazer coisas incríveis. Mas também vai eliminar certas partes de nossas funções que realmente amamos, tornando-as desnecessárias. Isso traz benefícios e desvantagens. Então, a sociedade terá de se adaptar a isso de muitas maneiras. Nós poderemos celebrar os avanços que vierem com isso, mas também teremos de lamentar coletivamente a perda de coisas que antes compunham nossa identidade e que aspirávamos criar juntos, por conta própria. Como isso se dará, eu não sei, mas é algo que está evoluindo e que já começamos a ver em tempo real.
Quais são as soft skills que serão as mais escassas e valiosas nos próximos cinco anos?
A primeira coisa que eu diria é discernimento e a capacidade de articular intenções. Discernimento significa entender o que deve ser construído e como deve ser construído, ou o que deve ser criado com IA. A declaração de intenções é uma das características marcantes de um bom comunicador e um bom gestor. Consigo articular o que quero de você de uma forma que me garanta um retorno valioso? Faremos o mesmo com a IA quando a implementarmos. A maioria das pessoas tem muita dificuldade com essa parte porque não estamos acostumados a articular nossas intenções em detalhes. Podemos receber um retorno que simplesmente parece que não funciona, mas será porque não especificamos como seria o resultado esperado.
Em um mundo onde diferentes IAs assumem funções dos trabalhadores, como a economia irá se manter?
Normalmente, o que acontece quando há uma mudança estrutural na economia é que outros setores começam a surgir e a evoluir em torno dela. Não se trata simplesmente de uma bolha que se evapora. Se um certo número de funções for impactado pela IA, outras áreas da economia precisam se desenvolver em torno disso. Não consigo imaginar um mundo onde eliminaremos 75% dos empregos da noite para o dia. Eu vejo um mundo onde uma certa parcela das tarefas que realizamos hoje será automatizada, e isso pode acontecer mais cedo do que imaginamos. O impacto será resultado de como nossas organizações reagirão, e não da rapidez com que a tecnologia tornará isso possível. Existe uma enorme defasagem entre a capacidade da tecnologia e sua difusão na sociedade. O custo é um fator importante: quão caro é usar IA para realizar essas tarefas? Atualmente, a IA é muito cara para a maioria delas. No geral, ela pode realizar tarefas pequenas e específicas a um custo muito baixo, mas realizar cada vez mais o trabalho intelectual que as pessoas e os humanos fazem é bastante caro. Esse não é um assunto que se discute muito. O outro ponto é a rapidez com que podemos reestruturar as organizações para começar a usar essa tecnologia de forma eficaz, de modo a eliminar a necessidade de humanos para realizar esse trabalho. Essa é uma mudança e transformação organizacional que não acontece da noite para o dia. Leva tempo.
Então, levará anos para que a IA cause impactos
relevantes nas empresas?
Estamos falando de vários anos para que esses grandes impactos que as pessoas pensam que virão amanhã se consolidem de fato. Isso nos dá tempo, como sociedade, para termos essas conversas sobre como seria quando houvesse menos trabalho humano a ser feito aqui e mais trabalho sendo realizado ali. As empresas que usam IA fazem uma separação entre a coordenação do trabalho e a cultura do trabalho. A maneira como construímos organizações hoje é que essas duas coisas estão completamente interligadas. Agora, a IA cuida da coordenação e as pessoas definem a cultura. Isso significa que a natureza do trabalho muda fundamentalmente. É parecido com o que aconteceu na Revolução Industrial. Não ficamos sem trabalho, nós migramos para outras formas de trabalho. Estamos deixando de valorizar nosso trabalho intelectual, o esforço de escrever o documento, fazer a síntese, criar o conteúdo nós mesmos e orquestrar, delegar e coordenar isso com a IA. Isso significa projetar fluxos de trabalho, ou melhor, reestruturar os ambientes em que o trabalho acontece. É outro nível de abstração, algo como do físico para o mental. Agora é do mental, da produção e da coordenação para o projeto e a arquitetura desses tipos de ambientes. Leva tempo para mudar toda uma sociedade de um tipo de trabalho para outro. Levamos de 125 a 150 anos de teoria da administração moderna para chegar onde estamos hoje. Esse mesmo tipo de desenvolvimento provavelmente acontecerá em menos de uma década, talvez 15 anos. Não, é muito mais rápido, mas é um tipo muito semelhante de encapsulamento de mudança.
Qual é o erro mais comum que as empresas cometem ao tentar implementar IA em suas operações hoje?
Nas soluções de IA, se você fornecer a ferramenta, as pessoas a usarão. E vemos isso repetidamente: após a implementação do ChatGPT, Copilot ou Claude AI, as empresas têm um pico de uso, mas de repente ninguém mais usa porque não conseguem descobrir como aplicá-los na rotina. As companhias contam com as pessoas para descobrirem o que a IA significa para elas. É preciso ter um plano sobre como a IA impacta no dia a dia. Precisamos de respostas, não de uma nova obrigação. Mas é isso que as empresas estão fazendo. Elas estão dando aos seus funcionários uma nova obrigação que devem ser 50% mais produtivos. Na verdade, o que foi dado foi uma missão de descobrir como a IA torna o trabalho mais eficiente. Por isso, as empresas percebem uma grande queda na produtividade antes de um aumento, o que é normal. Mesmo que você dê as respostas, as pessoas precisam descobrir uma nova maneira de trabalhar. Elas precisam entender o que isso significa para o trabalho delas e como vão mudar a forma como trabalham.
Siga o Agenda Capital no Instagram>https://www.instagram.com/agendacapitaloficial
Da Redação do Agenda Capital e Estadão




