Por Dr. Cid Carvalhaes *
“São as águas de março fechando o verão, são promessas de vida no teu coração.” Tom Jobim, em sua genialidade musical, ao compor a canção Águas de Março, com sua letra repleta de contrastes, retrata com precisão um realismo estrutural ainda vigente.
Findo o verão, inaugura-se o outono. No compasso do tempo, poucas são as diferenças ou novidades em relação aos anos anteriores. No entanto, no momento atual, assim como no cancioneiro magistral, sobressaem contradições.
Lutas fratricidas, genocídios, devastações multilaterais, massacres de crianças, mulheres e idosos, além de destruições territoriais incompreensíveis, refletem a grande insensatez de múltiplos governantes de diferentes correntes ideológicas. Guerras intermináveis — Rússia x Ucrânia, Paquistão x Afeganistão, Israel x Hezbollah, EUA/Israel x Irã, conflitos étnicos na África e em outros continentes, além dos confrontos entre esquerda e direita em diversos países — evidenciam desentendimentos perversos que impõem sacrifícios à humanidade.
Poder-se-ia afirmar que se tratam de conflitos territoriais distantes de nós, latino-americanos. Contudo, suas consequências nos atingem diretamente. Um exemplo claro é o aumento vertiginoso do preço do barril de petróleo, que impacta os custos dos produtos e o abastecimento global.
Chega o outono. Os dias começam a se encurtar, as chuvas se tornam mais escassas e as consequências desses conflitos se aprofundam. As temperaturas ficam mais amenas, com sinais de períodos frios, em contraste com ânimos aquecidos pela beligerância, que geram sofrimento em escala global.
É inexplicável que governantes, que deveriam ser balizados pela equidade e pelo equilíbrio, conduzam suas ações pela força das armas. Quanta contradição: “lutam” pela paz patrocinando guerras.
O ser humano, por vezes, revela sua face mais desumana. Seu poderio egoísta, destruidor, prepotente e autoritário se intensifica, muitas vezes, na mesma proporção de seu acúmulo econômico e financeiro. Em diversos cantos do mundo, a vida humana parece valer menos do que um drone ou um míssil cruzando os céus.
“É pau, é pedra, é o fim do caminho.” Que a canção não esteja, de fato, a anunciar esse desfecho. Que venha o outono, com árvores se desgalhando, como prenúncio de renovação ao fim do inverno e da chegada da primavera.
Que o tempo acelere a transformação de mentes desvairadas e que, em breve, elas sejam renovadas pela primavera da paz.
*Dr. Cid Célio Jayme Carvalhaes – Médico neurocirurgião, advogado e escritor. Foi Presidente da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, Presidente do Conselho Deliberativo da SBN, Presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo e Presidente da Federação Nacional dos Médicos. Especialista no Direito Médico e da Saúde e Coordenador do Curso de Pós-Graduação em Direito da Escola Paulista de Direito. É Colunista do Agenda Capital.





