A Secretaria de Saúde do DF informou que mantém diversas ações voltadas à promoção da saúde e da qualidade de vida dos servidores. Reprodução.

Pressão e sobrecarga levam milhares de profissionais da saúde ao afastamento no DF

Por Redação

Enquanto a população do Distrito Federal enfrenta longas filas, unidades superlotadas e dificuldades para conseguir atendimento, uma crise silenciosa cresce nos bastidores da rede pública de saúde: o adoecimento mental dos próprios profissionais responsáveis por cuidar da população.

Dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) e divulgados pelo site Metrópoles, revelam um cenário preocupante. Em 2025, os transtornos mentais e comportamentais foram responsáveis por 198.636 dias de afastamento entre servidores da Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF), representando 35,51% de todos os dias de licença concedidos no período.

Ao todo, foram emitidos 54.470 atestados médicos, resultando em 559.382 dias de afastamento das atividades. Desses, cerca de 15% — ou 8.334 licenças — tiveram como causa diagnósticos relacionados à saúde mental.

Os números evidenciam um problema que vem crescendo ano após ano e que tem preocupado especialistas, entidades representativas e os próprios trabalhadores da saúde pública.

Pressão crescente dentro das unidades

Profissionais da rede relatam uma combinação de fatores que contribuem diretamente para o adoecimento emocional e psicológico.

Entre os principais problemas apontados estão a sobrecarga de trabalho, o déficit de servidores, equipamentos deteriorados, falta de insumos, aumento constante da demanda por atendimento, crescimento populacional do Distrito Federal e salários considerados incompatíveis com a responsabilidade exercida.

A realidade se torna ainda mais difícil em setores críticos como emergências, UPAs, hospitais regionais e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), onde os profissionais convivem diariamente com situações de estresse extremo, sofrimento humano, acidentes graves e risco constante de agressões.

O presidente do Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal (Coren-DF), Elissandro Noronha dos Santos, destaca que enfermeiros e técnicos de enfermagem representam a principal força de trabalho da rede pública.

Segundo ele, além do desgaste físico e emocional inerente à profissão, os trabalhadores da enfermagem estão entre os mais expostos à violência física, verbal e psicológica dentro dos ambientes de trabalho.

“A rotina envolve o enfrentamento contínuo do sofrimento humano, de situações críticas e de perdas, frequentemente em contextos marcados por limitações estruturais e organizacionais”, observa.

Para o dirigente, a superlotação dos serviços, a insuficiência de recursos humanos e fragilidades na gestão do trabalho contribuem diretamente para o aumento da sobrecarga ocupacional e para o comprometimento da saúde mental dos profissionais.

Enfermeiros lideram afastamentos

Quando os números são analisados por categoria profissional, os dados chamam ainda mais atenção.

Em 2025, foram registradas 9.462 licenças médicas entre enfermeiros e 20.727 entre técnicos de enfermagem. Juntas, as duas categorias responderam por mais da metade dos afastamentos concedidos pela Secretaria de Saúde.

O aumento das licenças de longa duração também preocupa.

Em 2023, foram registrados 6.195 afastamentos superiores a 30 dias. No ano passado, esse número subiu para 6.560, representando cerca de 12% do total de atestados concedidos aos servidores da saúde.

Especialistas alertam que esse crescimento pode indicar casos mais graves de ansiedade, depressão, síndrome de burnout e outros transtornos relacionados ao ambiente de trabalho.

O drama vivido por quem cuida

Por trás das estatísticas existem histórias de sofrimento que ajudam a explicar a dimensão do problema.

O servidor aposentado do Samu-DF, Flávio Vitorino, relatou que enfrentou episódios de adoecimento mental ao longo da carreira.

Após uma separação conjugal e problemas financeiros, ele precisou se afastar do trabalho por quase um mês. Mais tarde, durante o processo de aposentadoria, voltou a sofrer com ansiedade intensa, causada pelo receio de continuar exposto aos riscos da profissão.

Segundo ele, a pressão emocional acumulada ao longo dos anos tornou-se insustentável.

O relato demonstra que, embora questões pessoais também influenciem a saúde mental dos trabalhadores, o ambiente profissional frequentemente atua como fator agravante.

Um problema de saúde pública

Especialistas defendem que o crescimento dos afastamentos por transtornos mentais deve ser encarado como uma questão estratégica para o funcionamento do sistema público de saúde.

Quando um servidor se afasta, a equipe remanescente passa a absorver a carga de trabalho, gerando um efeito cascata que aumenta ainda mais a sobrecarga dos profissionais que permanecem em atividade.

O resultado é um ciclo preocupante: mais pressão, mais adoecimento e mais afastamentos.

Além do impacto humano, o problema afeta diretamente a qualidade do atendimento prestado à população.

Para o presidente do Coren-DF, o investimento em condições adequadas de trabalho, valorização profissional, contratação de pessoal e programas permanentes de apoio psicológico é fundamental para garantir a sustentabilidade da rede pública.

“Promover e proteger a saúde mental dos profissionais é indispensável para qualificar a assistência prestada à população”, afirma.

O que diz a Secretaria de Saúde

Em nota, a Secretaria de Saúde do Distrito Federal informou que mantém diversas ações voltadas à promoção da saúde e da qualidade de vida dos servidores.

Entre as iniciativas estão programas de educação permanente, exames ocupacionais periódicos, campanhas de vacinação, inspeções de segurança, ações de promoção da saúde mental e oferta de práticas integrativas como acupuntura, auriculoterapia e meditação.

A pasta também afirma desenvolver campanhas de combate ao assédio moral e sexual, incentivo à alimentação saudável, atividades físicas e ações preventivas voltadas ao bem-estar dos trabalhadores.

Apesar dos esforços institucionais, os números mostram que o desafio continua crescendo e exige medidas estruturais mais amplas.

Afinal, para que a população receba um atendimento de qualidade, é indispensável cuidar primeiro da saúde física e mental daqueles que dedicam suas vidas a cuidar dos outros.

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Da Redação do Agenda Capital

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