
A ONU estima que os terremotos, de magnitudes 7,2 e 7,5, afetaram cerca de 6,8 milhões de pessoas, quase um quarto da população venezuelana.
Por Redação
Equipes de resgate travam uma corrida contra o tempo no quinto dia após os terremotos que devastaram cidades venezuelanas. Enquanto as chances de encontrar pessoas com vida diminuem a cada hora, histórias de sobrevivência ainda alimentam a esperança em meio à tragédia.
As equipes de resgate venezuelanas e internacionais intensificaram, nesta segunda-feira (29/6), as buscas por sobreviventes soterrados pelos escombros deixados pelos dois terremotos que atingiram a Venezuela na última quarta-feira. Cinco dias após a tragédia, o balanço oficial já registra pelo menos 1.500 mortos, enquanto a Organização das Nações Unidas (ONU) estima que cerca de 50 mil pessoas ainda estejam desaparecidas.
Apesar da redução significativa das chances de localizar vítimas com vida após as primeiras 72 horas — consideradas decisivas em operações desse tipo — os socorristas continuam encontrando sobreviventes sob montanhas de concreto, renovando a esperança de milhares de famílias. Somente no domingo, 33 pessoas foram resgatadas com vida, segundo o governo venezuelano.
As operações seguem extremamente complexas. Além da instabilidade das estruturas destruídas, os trabalhos são dificultados pelas altas temperaturas, que aceleram a decomposição dos corpos e tornam o ambiente cada vez mais insalubre. Mesmo diante desse cenário, bombeiros, militares e voluntários mantêm os esforços ininterruptamente.
Missão internacional reforça operações
O estado de La Guaira, vizinho à capital Caracas e o mais devastado pelos tremores, recebeu no domingo reforços de equipes especializadas dos Estados Unidos, França e outros países. Nos primeiros dias após o desastre, moradores criticaram a lentidão da resposta oficial, afirmando que grande parte dos primeiros resgates foi conduzida por voluntários e moradores da própria comunidade.
A presidente interina, Delcy Rodríguez, determinou a continuidade das operações de busca e anunciou a criação de uma comissão para avaliar os danos às moradias e organizar o atendimento às famílias desabrigadas.
Segundo o governo, mais de 770 edifícios desabaram total ou parcialmente, entre eles prédios residenciais, estabelecimentos comerciais e dezenas de hospitais.
A ONU estima que os terremotos, de magnitudes 7,2 e 7,5, afetaram cerca de 6,8 milhões de pessoas, quase um quarto da população venezuelana. O risco permanece elevado devido à sequência de réplicas, incluindo tremores de magnitudes 4,2 e 4,5 registrados no domingo.

Resgate de pai e filho emociona o país
Em uma das cenas mais marcantes desde o início da tragédia, equipes de resgate dos Estados Unidos, França e Venezuela retiraram dos escombros, no domingo, um pai e seu filho que permaneceram presos por vários dias sob uma estrutura de concreto em La Guaira.
Cobertos de poeira, extremamente debilitados e quase sem reação, ambos foram cuidadosamente retirados por uma abertura entre os escombros e levados até uma ambulância sob aplausos e lágrimas de dezenas de pessoas que acompanhavam a operação. O resgate renovou a esperança de outras famílias que ainda aguardam notícias de parentes desaparecidos.

Em outro ponto da cidade, Helen Guedez e sua mãe seguem vivendo uma verdadeira maratona para tentar salvar Jesús Guedez, pai da família, preso sob os destroços de um edifício.
Segundo a agência Associated Press (AP), equipes americanas confirmaram que ele ainda estava vivo, mas consideraram a estrutura instável demais para realizar o resgate. Mesmo assim, a família decidiu continuar a operação ao lado de voluntários e mineradores locais.
“Não vamos desistir. Eles sabem que existe outra forma de tirá-lo dali e disseram que vão trabalhar até o fim”, afirmou Helen.
Segurança reforçada e registros de saques
O governo mobilizou mais de 14 mil militares e policiais para controlar a situação em La Guaira, onde o acesso permanece restrito e depende de autorização especial.
Ao mesmo tempo, moradores relataram episódios de saques a supermercados, farmácias e outros estabelecimentos comerciais. Muitos atribuem os casos à demora na chegada da ajuda humanitária e à escassez de alimentos e produtos básicos.
Tragédia também representa desafio político
Além da crise humanitária, o desastre se transformou no maior desafio enfrentado pela presidente interina Delcy Rodríguez desde que assumiu o comando do país após a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, em janeiro.
Rodríguez afirmou que as operações de busca “não serão interrompidas” e destacou que a chegada de equipes internacionais devolveu esperança à população.
Para analistas, entretanto, a tragédia agrava uma crise já existente. O pesquisador Ronal Rodríguez, do Observatório Venezuelano da Universidade do Rosário, afirmou à AP que o país enfrenta uma combinação de fatores extremamente delicada.
“Há interferência política dos Estados Unidos, limitações operacionais de um governo que já conduzia o país a uma grave crise humanitária e, agora, um terremoto de grandes proporções em uma região que carece de recursos humanos e infraestrutura para responder rapidamente ao desastre”, avaliou.
País enfrenta a maior tragédia em mais de um século
Considerados os mais destrutivos registrados na Venezuela em mais de cem anos, os terremotos atingiram um país que já enfrentava mais de uma década de colapso econômico. A crise comprometeu hospitais, serviços públicos e infraestrutura, além de provocar o êxodo de milhões de venezuelanos.
As Nações Unidas estimam que os prejuízos materiais alcancem US$ 6,7 bilhões, valor equivalente a aproximadamente 6% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.
A diretora-geral da Organização Internacional para Migrações (OIM), Amy Pope, alertou que a nova tragédia deverá ampliar ainda mais o fluxo migratório venezuelano, que já ultrapassa 8 milhões de pessoas na última década, agravando uma das maiores crises humanitárias do continente.
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Da Redação com informações da EFE/AP/DW






