Haaland deitou e rolou contra a defesa brasileira na Copa. Foto: Werther Santana/Estadão.

Derrota para a Noruega escancara problemas estruturais da Seleção Brasileira e da CBF; mais do que um tropeço, campanha expõe o esgotamento de um modelo que deixou de formar protagonistas e perdeu identidade

Por Redação

A derrota por 2 a 1 para a Noruega, nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, não foi um acidente de percurso nem um resultado decidido apenas pelos dois gols de Erling Haaland. Foi o desfecho previsível de um ciclo marcado pela improvisação, pela instabilidade administrativa, por erros de planejamento e pela ausência de um projeto esportivo consistente.

Pela primeira vez desde a Copa da Itália, em 1990, o Brasil encerra sua participação antes das quartas de final. Mais grave do que a eliminação é a constatação de que a Seleção Brasileira deixou de intimidar seus adversários e perdeu aquilo que durante décadas foi sua principal marca: a capacidade de produzir jogadores decisivos e um futebol capaz de superar qualquer obstáculo.

O fracasso diante da Noruega expõe problemas que se acumulam há anos e que não serão resolvidos apenas com uma troca de treinador.

Um ciclo sem rumo

Desde a saída de Tite, após a Copa de 2022, a Seleção viveu um dos períodos mais turbulentos de sua história recente.

Foram quatro treinadores em menos de quatro anos — Ramon Menezes, Fernando Diniz, Dorival Júnior e Carlo Ancelotti — cada um com ideias diferentes de jogo, critérios distintos de convocação e pouca continuidade.

Enquanto isso, a Confederação Brasileira de Futebol mergulhava em disputas políticas, mudanças de comando e insegurança institucional. Em vez de construir um projeto de longo prazo, o Brasil passou a improvisar.

Quando Ancelotti finalmente assumiu o comando, restava pouco mais de um ano até a Copa. Tempo insuficiente para criar uma identidade tática sólida ou renovar o elenco de maneira consistente.

Uma geração em transição

A convocação revelou outro problema evidente: o Brasil chegou ao Mundial sem definir claramente quem lideraria a nova geração.

Jogadores históricos, como Casemiro, Danilo, Marquinhos e Neymar, já não viviam seu melhor momento físico e técnico. Ao mesmo tempo, jovens talentos ainda buscavam espaço para assumir protagonismo.

O resultado foi uma equipe presa entre duas gerações: veteranos em declínio e promessas ainda sem maturidade suficiente para decidir jogos de Copa do Mundo.

Vini Jr. brilhou, mas não decidiu quando mais precisava

Vinícius Júnior iniciou o torneio como um dos melhores jogadores da competição. Marcou gols, participou diretamente das vitórias brasileiras e parecia pronto para assumir o protagonismo que durante anos pertenceu a Neymar.

No entanto, justamente na partida decisiva, desapareceu.

Não assumiu a responsabilidade na cobrança do pênalti desperdiçado por Bruno Guimarães e teve atuação discreta diante da forte marcação norueguesa.

Não se trata de responsabilizar individualmente o atacante, mas de reconhecer que as grandes seleções contam com jogadores capazes de decidir justamente nos momentos de maior pressão.

Lesões e planejamento deficiente

A preparação brasileira também foi marcada por sucessivos problemas físicos.

As ausências de Estêvão, Éder Militão, Wesley, Raphinha e Lucas Paquetá reduziram significativamente as opções ofensivas e defensivas.

Entretanto, as lesões não explicam tudo.

Elas apenas evidenciaram a falta de profundidade do elenco e um planejamento que apostou excessivamente em jogadores sem condições ideais de disputar um torneio tão exigente.

O caso de Neymar tornou-se emblemático.

Convocado mesmo lesionado, o camisa 10 chegou à Copa sem condições de atuar durante os 90 minutos em partidas decisivas. Sua presença acabou ocupando uma vaga que poderia ter sido destinada a um atleta plenamente recuperado.

Erros básicos custaram caro

A eliminação também foi construída dentro de campo.

O Brasil voltou a demonstrar fragilidade nas bolas paradas, problema que acompanha a equipe há várias temporadas.

O primeiro gol de Haaland nasceu justamente de uma falha de marcação aérea.

No ataque, a Seleção praticamente não conseguiu transformar escanteios e faltas laterais em oportunidades reais de gol.

Outro episódio simbólico foi a indefinição sobre o cobrador oficial de pênaltis.

Num torneio de mata-mata, chegar às oitavas sem uma hierarquia clara para cobranças decisivas revela deficiência de planejamento.

Bruno Guimarães desperdiçou a oportunidade de empatar a partida, enquanto especialistas permaneceram no banco de reservas.

O maior problema está na formação de jogadores

Mais preocupante do que a eliminação é perceber que o Brasil enfrenta um problema estrutural na formação de atletas.

Durante décadas, o futebol brasileiro produziu naturalmente grandes camisas 10, centroavantes decisivos e laterais capazes de desequilibrar partidas.

Hoje, essas posições tornaram-se escassas.

As categorias de base passaram a privilegiar pontas rápidos, volantes de forte marcação e atletas moldados para atender às exigências do mercado europeu.

Enquanto isso, seleções como França, Espanha, Argentina e até países de menor tradição continuam formando meio-campistas criativos, armadores clássicos e atacantes com capacidade de decidir grandes jogos.

O Brasil continua revelando excelentes jogadores, mas deixou de formar líderes técnicos capazes de assumir o controle das partidas mais importantes.

Muito além de trocar o treinador

Historicamente, o futebol brasileiro costuma responder às derrotas com mudanças no comando técnico.

Mas desta vez isso parece insuficiente.

A eliminação diante da Noruega evidencia que o problema ultrapassa Carlo Ancelotti.

Envolve a gestão da CBF, a ausência de planejamento, a descontinuidade dos projetos esportivos e um modelo de formação de atletas que já não produz jogadores com as características que fizeram do Brasil a maior potência do futebol mundial.

Se nenhuma reforma estrutural for realizada, o risco é que a eliminação de 2026 deixe de ser uma exceção para se tornar o novo padrão da Seleção Brasileira.

A camisa mais vitoriosa da história do futebol continua carregando cinco estrelas no peito. Mas apenas o peso da tradição já não basta para vencer Copas do Mundo.

A derrota para a Noruega representa mais do que o fim do sonho do hexacampeonato. É um alerta contundente de que o futebol brasileiro precisa repensar sua estrutura, recuperar sua identidade e voltar a formar jogadores capazes de decidir partidas, liderar equipes e devolver ao país o protagonismo perdido no cenário mundial. Caso contrário, o jejum de títulos, que já é o maior desde a conquista de 1958, tende a se prolongar por mais um ciclo.

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Da Redação do Agenda Capital

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