Alguns candidatos parecem acreditar que já venceram porque possuem sobrenome conhecido, estrutura partidária, alianças importantes ou suposto apoio de determinadas lideranças religiosas. Foto: gerada através de IA.

Disputa pelas duas vagas ao Senado ganha temperatura no DF, enquanto candidatos apostam em pesquisas, alianças e apoio de igrejas; mas eleitor pode frustrar quem já se considera eleito

Por Delmo Menezes*

A campanha eleitoral começou oficialmente, mas, no Distrito Federal, alguns candidatos parecem ter esquecido de um detalhe fundamental: a eleição ainda não aconteceu.

A corrida pelas duas vagas ao Senado já começou cercada de pesquisas, alianças políticas, apoio de lideranças religiosas e discursos de vitória antecipada. Há quem se comporte como se a cadeira no Congresso já estivesse reservada. O problema é que eleição não se ganha antes da abertura das urnas — e muito menos porque determinado candidato aparece na frente em uma pesquisa.

O primeiro alerta precisa ser dado justamente sobre os levantamentos eleitorais. Pesquisa registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não significa, automaticamente, que o resultado seja uma previsão do que acontecerá no dia da votação. O registro é uma exigência legal para que o levantamento possa ser divulgado, e o TSE determina que sejam informados dados como metodologia, período da coleta, plano amostral, margem de erro e nível de confiança. A própria Justiça Eleitoral esclarece que não faz controle prévio sobre o resultado das pesquisas.

É preciso, portanto, separar duas coisas: pesquisa registrada e resultado eleitoral.

Pesquisa é fotografia. Eleição é filme.

E fotografia pode mudar rapidamente.

A guerra das pesquisas

A disputa pelo Senado no DF já oferece um exemplo claro de como o eleitor precisa olhar os números com cautela. Tem candidata achando que já ganhou. Só esqueceram de combinar com o eleitor. O levantamento é um retrato de determinado momento. Não é diploma de senador. E esse talvez seja o principal erro de quem transforma pesquisa em certeza eleitoral.

Há pesquisas para diferentes gostos, metodologias distintas, períodos de coleta diferentes e cenários que podem produzir resultados diferentes. Por isso, o eleitor não deveria olhar apenas para quem aparece em primeiro lugar, mas também para: a margem de erro, indecisos, rejeição, período em que as entrevistas foram realizadas, metodologia e quem contratou o levantamento.

O próprio TSE disponibiliza consulta aos registros das pesquisas eleitorais.

Ninguém é dono das igrejas

Outro aspecto que chama atenção na eleição para o Senado é a disputa pelo voto evangélico.

Há candidatos que parecem acreditar que determinada igreja, denominação ou grupo religioso funciona como propriedade eleitoral. Não é assim que funciona.

Lideranças religiosas podem exercer influência e apresentar suas preferências políticas. Mas o voto pertence ao eleitor. E o eleitor cristão mudou.

Durante muito tempo, uma orientação de liderança religiosa poderia produzir uma adesão eleitoral bastante expressiva. Hoje, porém, o cenário é mais complexo. O membro da igreja pesquisa a vida do candidato, consulta familiares e amigos, acompanha redes sociais, observa seu comportamento público e compara aquilo que o político fala durante a campanha com aquilo que fez antes dela.

O eleitor não é mais simplesmente alguém que recebe uma ordem e vai à urna cumpri-la.

A igreja pode abrir a porta. Pode proporcionar espaço para o diálogo. Pode apresentar um candidato. Mas não consegue entrar na cabine de votação.

O “sapatinho de fogo” eleitoral

Também merece atenção o comportamento de candidatos (as) que, durante a campanha, descobrem repentinamente uma vocação religiosa.

Aparecem em cultos, abraçam pastores, participam de eventos, utilizam linguagem típica das igrejas e fazem questão de demonstrar uma intimidade com o segmento que nem sempre existiu antes do período eleitoral.

O eleitor precisa distinguir fé verdadeira de estratégia eleitoral.

Não há problema algum em um candidato dialogar com diferentes segmentos religiosos. Pelo contrário. A democracia pressupõe diálogo com todos.

O problema está em tentar construir uma identidade religiosa exclusivamente para conquistar votos. O eleitor cristão também observa isso.

E pode perguntar: onde estava esse candidato antes da campanha? Quais foram suas posições? O que fez quando não precisava do voto? Quais compromissos assumiu e quais efetivamente cumpriu?

Cuidado com o “salto alto“

Na política, o excesso de confiança pode ser tão perigoso quanto a falta de votos.

Alguns candidatos (as) parecem acreditar que já venceram porque possuem sobrenome conhecido, estrutura partidária, alianças importantes ou suposto apoio de determinadas lideranças religiosas.

Mas o jogo de 2026 não é necessariamente o mesmo de 2022.

O eleitor mudou. O ambiente político mudou. Os candidatos mudaram. As alianças mudaram. E, principalmente, o voto ainda está na mão do eleitor.

Até mesmo alianças consideradas perfeitas podem sofrer alterações durante a campanha. A chamada “dobradinha” pode funcionar no discurso político, mas precisa ser aceito pelo eleitor. E eleitor não recebe voto de ninguém por procuração.

Quem elege é o eleitor.

E são duas vagas para o Senado. Portanto, cada candidato terá de disputar individualmente a confiança de uma parcela significativa do eleitorado.

Quem está na frente hoje pode cair. Quem está atrás pode crescer. Quem aparece pouco pode surpreender. E quem acredita que já ganhou pode descobrir, tarde demais, que campanha eleitoral é uma disputa diária.

Por isso, o “sapato alto” merece ser guardado no armário.

A urna é o verdadeiro instituto de pesquisa

Pesquisas são instrumentos legítimos da democracia e ajudam a compreender tendências do eleitorado. Mas não substituem a vontade popular expressa nas urnas.

O próprio TSE estabelece regras para registro e divulgação desses levantamentos e mantém os dados disponíveis para consulta pública.

No fim, entretanto, haverá apenas uma pesquisa definitiva: aquela realizada no dia da eleição, com milhões de eleitores diante da urna.

É ali que desaparecem as certezas das campanhas, os discursos triunfalistas, os acordos de bastidores e as previsões.

A urna não sabe quem é mais famoso. Não sabe quem tem mais padrinhos. Não sabe qual candidato tem mais pastores ao lado. Não sabe quem apareceu mais vezes em uma pesquisa.

A urna apenas registra a escolha do eleitor.

E é justamente por isso que ninguém deveria se comportar como dono da eleição antes que ela aconteça.

No Distrito Federal, a disputa pelo Senado está apenas começando. Quem já se considera eleito pode descobrir que ainda precisa convencer o eleitor. E quem ainda está trabalhando para conquistar cada voto pode descobrir que eleição, até o último momento, continua sendo uma disputa aberta.

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*Delmo Menezes – Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais com experiência em diversos órgãos da administração direta e indireta. Analista político e observador atento da política local e nacional. Editor-Chefe do portal de notícias Agenda Capital.

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