
Imunizante 100% nacional, desenvolvido pela UFMG, recebe autorização da Anvisa para iniciar testes em humanos; Ministério da Saúde prevê investimento de R$ 12 milhões nos ensaios clínicos
Por Delmo Menezes
O Brasil deu um passo importante no desenvolvimento de uma vacina contra a malária causada pelo parasita Plasmodium vivax, responsável pela maioria dos casos da doença no país. O imunizante Vivaxin, desenvolvido integralmente no Brasil pelo Centro de Tecnologia de Vacinas (CTVacinas), vinculado à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), recebeu autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar os testes clínicos em seres humanos.
A apresentação do estudo ocorreu neste sábado (10), com a participação do ministro da Saúde, Alexandre Padilha. A autorização representa um avanço na pesquisa científica nacional e abre caminho para avaliar a segurança e a resposta imunológica provocada pela vacina experimental.
O Ministério da Saúde prevê incentivo de R$ 12 milhões para a realização dos ensaios clínicos das fases I, II e III. O desenvolvimento do imunizante é resultado de pesquisas conduzidas em uma universidade pública brasileira e busca ampliar as ferramentas de prevenção contra uma doença que continua sendo um desafio para a saúde pública.
“O início do estudo clínico dessa vacina, desenvolvida integralmente em uma universidade pública brasileira, representa um avanço na busca por novas ferramentas de enfrentamento à doença e reforça a capacidade do Brasil de desenvolver soluções científicas próprias para ampliar a proteção da população”, destacou Padilha.
Primeira fase avaliará segurança em voluntários
A primeira etapa dos testes clínicos será dedicada à avaliação da segurança do imunizante, à identificação de possíveis reações adversas e à análise de sua capacidade de estimular uma resposta do sistema imunológico.
O estudo de fase I contará com 48 voluntários, homens e mulheres com idades entre 18 e 59 anos, sem histórico de infecção prévia por malária. O acompanhamento clínico está previsto para durar 360 dias.
Essa etapa é fundamental para reunir informações iniciais sobre a segurança da vacina experimental e sua interação com o organismo humano. Os resultados ajudarão a orientar as próximas fases da pesquisa.
A autorização da Anvisa, porém, não significa que o imunizante já esteja disponível para a população. Antes de uma eventual aprovação para uso, a vacina precisará passar pelas etapas de avaliação clínica, que investigam, progressivamente, sua segurança, a resposta imunológica e sua eficácia.

Malária ainda representa desafio para o Brasil
Apesar dos avanços no combate à doença, a malária permanece como um problema relevante de saúde pública. Em 2025, o Brasil registrou 118.037 casos, segundo os dados apresentados pelo Ministério da Saúde.
A doença é causada por parasitas do gênero Plasmodium, transmitidos principalmente pela picada de mosquitos infectados do gênero Anopheles. Entre as espécies que infectam seres humanos, o P. vivax e o P. falciparum têm grande importância epidemiológica.
No Brasil, o Plasmodium vivax é responsável pela maioria das infecções. A doença também predomina em diversas regiões das Américas e da Ásia, enquanto o P. falciparum tem maior peso epidemiológico em grande parte da África.
A malária vivax pode provocar episódios recorrentes da doença porque o parasita é capaz de permanecer em estado dormente no fígado, causando recaídas semanas, meses ou até mais tempo após a infecção inicial.
Esse comportamento torna o desenvolvimento de ferramentas específicas de prevenção especialmente importante para regiões onde a transmissão do P. vivax permanece significativa.
Vacinas existentes não são específicas para o parasita predominante no Brasil
Atualmente, existem duas vacinas contra a malária recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS): RTS,S/AS01 e R21/Matrix-M. Ambas foram desenvolvidas para combater o Plasmodium falciparum, espécie responsável por grande parte dos casos graves e das mortes por malária, especialmente na África.
O Vivaxin tem como alvo o Plasmodium vivax, o que representa uma frente distinta de pesquisa científica.
A proposta brasileira busca contribuir para preencher uma lacuna na prevenção da doença. Entretanto, o potencial de proteção do novo imunizante ainda precisará ser demonstrado por meio dos ensaios clínicos.
Caso os estudos apresentem resultados positivos nas diferentes etapas e a vacina obtenha as aprovações regulatórias necessárias, o desenvolvimento poderá representar uma nova ferramenta de enfrentamento à malária vivax no Brasil e em outros países afetados pelo parasita.
CTVacinas recebe investimentos para ampliar pesquisas
O desenvolvimento do Vivaxin integra um conjunto de iniciativas destinadas a fortalecer a capacidade brasileira de produzir vacinas, medicamentos e tecnologias de diagnóstico.
O CTVacinas faz parte do Centro Nacional de Vacinas (CNVacinas), estrutura científica estratégica para ampliar a autonomia tecnológica do país na área da saúde.
Por meio do Programa de Desenvolvimento e Inovação Local (PDIL), o Ministério da Saúde prevê investir R$ 161,5 milhões em projetos de desenvolvimento de imunizantes e testes inovadores conduzidos pela unidade ou em parceria com outras instituições. Desse total, R$ 135,5 milhões serão destinados a projetos do próprio Centro.
Além da vacina contra a malária, a unidade trabalha em diferentes frentes de pesquisa, entre elas:
- Doença de Chagas: desenvolvimento de uma vacina terapêutica.
- Diagnóstico de doenças: testes para malária e leishmaniose tegumentar.
- Mpox: desenvolvimento de vacina baseada no vírus MVA.
- Covid-19: pesquisa de vacina nasal baseada em nanopartículas.
- Emergências sanitárias: desenvolvimento e validação de plataformas de testes rápidos para agravos relevantes para o Sistema Único de Saúde (SUS).
Os projetos procuram ampliar a capacidade nacional de responder a doenças infecciosas e a emergências sanitárias, reduzindo a dependência de tecnologias desenvolvidas no exterior.
Brasil também investe em vacinas e terapias com RNA
Outra frente estratégica do CTVacinas é o fortalecimento da capacidade brasileira de desenvolver tecnologias baseadas em RNA mensageiro (mRNA).
Essa plataforma utiliza instruções genéticas para orientar as células a produzir uma proteína ou outro componente capaz de estimular uma resposta imunológica. A tecnologia pode ser adaptada conforme o agente infeccioso ou a doença que se pretende combater.
O Centro foi aprovado como Centro de Competência em Terapias e Vacinas com RNA (CTV-RNA), em parceria entre o Ministério da Saúde e a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii).
A iniciativa prevê R$ 60 milhões em investimentos ao longo de quatro anos, com o objetivo de ampliar a pesquisa, a inovação e a capacidade nacional de desenvolver soluções nessa área.
Pesquisa nacional pode ampliar autonomia em saúde
O avanço do Vivaxin reúne dois objetivos estratégicos: buscar uma nova forma de prevenção contra a malária vivax e fortalecer a capacidade brasileira de desenvolver tecnologias próprias para enfrentar doenças que afetam a população.
O início dos testes em humanos é uma etapa importante, mas ainda inicial. A continuidade da pesquisa dependerá dos resultados de segurança e resposta imunológica, além das avaliações posteriores sobre eficácia e dos procedimentos regulatórios aplicáveis.
Se os resultados forem favoráveis, o imunizante poderá abrir uma nova perspectiva para o enfrentamento da malária causada pelo Plasmodium vivax, espécie predominante no Brasil.
Até lá, o estudo representa um avanço científico promissor, que coloca a pesquisa desenvolvida em uma universidade pública brasileira no centro dos esforços para ampliar a prevenção de uma doença que continua exigindo atenção das autoridades sanitárias nacionais e internacionais.
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Da Redação do Agenda Capital



