Vladimir Putin está no comando da Rússia há 26 anos, desde o final de 1999. Reprodução.

Falta de experiência com um regime democrático e feridas da União Soviética explicam, em partes, o apoio ao governo de 26 anos de Vladimir Putin

Por Redação

Nas ruas de Moscou, explosões causadas por ataques de drones ucranianos marcavam o último dia das eleições parlamentares do país, em 20 de setembro, aquelas em que a população poderia escolher novos membros da chamada Duma, a Câmara dos Deputados russa.

As propostas dos candidatos variavam entre a manutenção do sistema de governo atual, a maior abertura à modernização tecnológica, desenvolvimento nacional, intervenção estatal, redistribuição de renda e até a retomada de políticas sociais soviéticas.

Diante das caixas de depósito de votos, duas cédulas que quase pareciam pergaminhos desenrolados traziam as legendas e os nomes dos candidatos distritais, mas, independente da escolha, existia apenas uma opção ideológica bem conhecida pelos russos: todos os partidos que concorreram no domingo eram, invariavelmente, leais à Vladimir Putin.

“Há várias razões pelas quais, nos últimos 26 anos, a população se adaptou a essa situação. Não quer dizer que não houvesse outros precedentes históricos, como o stalinismo e o poder soviético. Aquilo já era ruim o suficiente. Mas Putin fez algo realmente extraordinário em termos de corrupção da população russa”, afirmou Dina Khapaeva, professora de Estudos Russos do Instituto de Tecnologia da Geórgia. Natural de São Petersburgo – a mesma cidade onde nasceu Putin – Dina afirmou que costumava conduzir estudos de campo no país, mas deixou sua terra natal após o início do confronto entre Rússia e Georgia.

“Como não apoiar Putin?”

A máquina de propaganda russa é uma das ferramentas estatais mais conhecidas no mundo. Desde o que se assiste na televisão até cartazes, outdoors ou conteúdos disponíveis na internet são fabricados para exaltar a pátria e o governo.

Essa máquina é eficaz. Uma parte da população realmente concorda com Putin e seus métodos. Seja com a Guerra na Ucrânia ou com militarização da economia, muitos russos enxergam no governo a possibilidade de ainda prosperar, em algum aspecto, sobre o Ocidente.

A oposição, que existe em pequenos grupos, não demonstra força para enfrentar a repressão do governo em eleições ou protestos. Os poucos casos que se destacaram nesse sentido, lembram os especialistas, foram um exemplo para a população de que é mais seguro estar ao lado do governo do que contra ele – personalidades como o ativista Alexei Navalni, a jornalista Anna Politkovskaya e o político Boris Nemtsov, são frequentemente citados como uma oposição que morreu por estar do outro lado da bancada.

“Quando perguntamos por que os russos votam em Putin repetidamente a cada seis anos, primeiro precisamos lembrar que não há oposição real. Os russos estão cientes de que não têm essa opção e que nunca tiveram essa opção”, apontou Roman Badanin, jornalista russo e autor do livro O Czar em Pessoa, escrito em conjunto com Mikhaïl Rubin. Os dois estão à frente do jornal independente Proekt e vivem no exílio.

Em alguns casos, é como se a oposição não soubesse como se organizar em uma oposição efetiva, para burlar o Estado e suas formas de repressão. Para os especialistas, o motivo desse desconhecimento é claro: o país nunca viveu, de fato, um período significativo sob uma democracia verdadeira.


O século 20 foi marcado por uma transformação constante, mas pouco variada para os russos. A queda do último czar, Nicolau II, em meio a revolução, levou o país a um regime comunista sob o comando de Vladimir Lenin e Josef Stalin e, posteriormente, a continuação de um estado autoritário e de partido único até o fim da União Soviética, em 1991.

A Rússia foi entregue ao século 21 com um governo recém-saído das mãos de Boris Yeltsin, político que governou entre 1991 a 1999 durante um período de extrema dificuldade financeira e decepção com o regime capitalista – uma vez que a adoção do sistema foi feita de modo acelerado, causando um colapso econômico e a perda da sensação de estabilidade. Em 2000, na virada do milênio, Putin já era o comandante em Moscou.

“Para os russos comuns, democracia é algo equivalente a uma vida muito dura. E a época em que Putin se tornou presidente coincidiu com o aumento dos preços do petróleo. Agora as pessoas associam o período dele a uma vida melhor. Mesmo quando o nível de vida está caindo, a propaganda russa diz: ‘Isso ainda é muito melhor do que era nos anos 1990’”, explicou Rubin ao Estadão.

“A Rússia não tem experiência nenhuma com democracia. Então as pessoas não sabem como reagir a tais situações. A única coisa que sabem é que têm que se submeter a quem quer que esteja no poder. O czar, o imperador, o secretário-geral, o presidente. A Rússia é um país com população, mas sem cidadãos no sentido político da palavra”, apontou Konstantin Eggert, jornalista russo e comentarista político da Deutsche Welle.

Russos escolheram, em 20 de setembro, novos representantes para a Duma, o equivalente à Câmara dos Deputados russa.

Garantindo a ideologia

Para Putin, ele é o único líder possível para um povo que, constantemente, é visto como inimigo de outros países. Dina Khapaeva afirma que um dos indícios de que a imagem de Putin precisa ser alimentada é a frequência com que o seu governo encarou guerras ao longo de 26 anos.

A retomada da Guerra da Chechênia em 1999, coordenada por Putin quando era Primeiro-Ministro e às vésperas de seu primeiro mandato como presidente, marcou a virada dos conflitos para o seu regime definitivo. Depois, a guerra contra a Geórgia, em 2008, a anexação da Crimeia em 2014 e, por fim, a Guerra na Ucrânia, iniciada em 2022, que já ultrapassou a duração da Primeira Guerra Mundial, continuam sustentando a premissa de que a Rússia está constantemente em luta.

Em todos esses eventos, a população russa foi alimentada com propaganda estatal, em uma espécie de discurso de “nós contra eles”, afirma Lev Volkov, diretor do Levada Center, instituto de pesquisa independente que reúne números de aprovação do governo e suas medidas.

“A gente deveria encarar isso como um padrão bem básico de ‘nós contra eles’. Quando perguntamos para as pessoas se elas apoiam as forças armadas russas, elas respondem: ‘sim. Quem mais eu vou apoiar?’. São os nossos rapazes, nossos soldados. Então, é ‘nós contra eles’. Acho que essa é uma dimensão importante. Isso também coincide mais ou menos com o apoio às autoridades de Putin. É mais ou menos a mesma coisa, são as políticas dele. Portanto, coincide a proporção daqueles que apoiam e confiam ou que não apoiam e não confiam”, apontou Volkov em entrevista ao Estadão.

O Levada Center é apenas um dos institutos que fazem levantamentos sobre a opinião pública sobre o governo do país. O VCIOM, Centro Russo de Pesquisa de Opinião Pública, também faz um estudo sobre a aprovação do presidente e do nível de confiança no governo.

Em abril, uma pesquisa do órgão estatal mostrou que a aprovação do presidente tinha caído para 65,6%, o número mais baixo desde a invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022. Na época, o levantamento, feito majoritariamente por telefone, passou a ser um combinado entre entrevistas à distância e uma abordagem porta-a-porta, onde agentes do órgão visitavam a população para recolher as respostas. A aprovação de Putin em maio passou para 66,8%, com um nível de confiança de 72,1%.

A VCIOM admitiu a mudança na metodologia da pesquisa em seu site, afirmando que as restrições nas linhas telefônicas estavam dificultando a pesquisa remota.

“Os pesquisadores começaram a ir diretamente aos apartamentos das pessoas, batendo na porta e perguntando: ‘O que você acha de Putin?’. Em um país como a Rússia, isso faz uma diferença enorme, porque é quase um crime não apoiar Vladimir Putin e muita gente entende isso”, afirmou Rubin.

Afinal, porque continuar fazendo eleições?

A resposta está mais enraizada na cultura de todo cidadão do que realmente transparece. Um estudo realizado em 2024 por uma série de especialistas e publicado na American Political Science Review, analisou quatro anos de pesquisas sobre o governo Putin para chegar a uma conclusão que pode ser aplicada em qualquer lugar do mundo: ser popular faz com que ditadores governem muito mais fácil.

O estudo revelou que as pessoas estão mais suscetíveis a apoiar um líder quando há evidências de que ele é amplamente apoiado pela população. Isso porque os altos níveis nas pesquisas de opinião fazem com que os cidadãos entendam que determinado político é competente e confiável. Quando os pesquisadores apresentaram informações negativas sobre a popularidade de Putin aos participantes, “uma parte considerável” reavaliou suas respostas e diminuiu o apoio ao presidente. “Muitos especialistas concordam que a popularidade do presidente Vladimir Putin é essencial para a estabilidade do regime autoritário da Rússia”, afirma a pesquisa.

Por isso, as eleições continuam sendo uma ferramenta importante para o governo. No último pleito parlamentar para eleger a chamada Duma – um equivalente da Câmara dos Deputados – em 20 de setembro, o partido Rússia Unida, de Vladimir Putin, conquistou 349 das 450 cadeiras disponíveis na câmara, formando maioria absoluta. Os outros assentos foram divididos entre quatro partidos que são denominados “oposição sistêmica”, o que significa que eles concordam com as principais políticas de Putin. As eleições foram as primeiras desde o início da Guerra na Ucrânia, em fevereiro de 2022.

O Yabloko, único partido que se opunha à guerra na Ucrânia e a outras políticas de Putin, foi proibido de disputar as eleições do mês de setembro – o vice-presidente da legenda, Lev Shlosberg, foi condenado a 11 anos de prisão por divulgação de notícias falsas e por “desacreditar as Forças Armadas” da Rússia. O líder do partido, Nikolai Rybakov, está sendo processado por escrever mensagens como “pela paz” na cédula de votação. A acusação é de vandalismo.

“Qualquer partido não relacionado ao Kremlin está fadado a não ser registrado. Não há como ser registrado e não há como participar de nenhum tipo de eleição, de eleições municipais à federais”, explicou Rubin.

Percepção do ocidente

Os especialistas ainda afirmam que, para o Ocidente, pode ser difícil imaginar como um regime pode ser capaz de influenciar os votos, manter o controle de informações e estabelecer um regime de 26 anos sem que nenhuma revolução de sucesso possa acontecer, por mais guerras e conflitos que o país esteja envolvido.

Mas para compreender a cultura russa é necessário, porém, entender os anos de transformação social e política enfrentada pelo país, afirma Eggert. Para ele, a resiliência russa vai além da baixa na economia ou da dificuldade em encontrar produtos na prateleira.

“Nos últimos 100 anos, a Rússia passou por três revoluções, uma guerra civil, duas guerras mundiais, fome em grande escala, encarceramento de 10 milhões de pessoas nos gulags. Nesse contexto, se não há leite, por exemplo, não é sofrimento. As pessoas estão acostumadas com isso. Ainda dá para mandar os filhos para a escola. Tudo bem, há filas para comprar pão. Você prefere ir para a prisão ou simplesmente ficar na fila por cinco horas? A escolha é muito simples. Se não há pão na mesa ou dinheiro no banco porque eles quebraram, talvez haja uma mudança. Mas antes disso os russos vão se adaptar”, apontou Eggert ao Estadão.

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Com informações do Estadão

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