Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante o primeiro debate entre os candidatos à Presidência no segundo turno Foto: Werther Santana/Estadao

Primeiro confronto direto entre os presidenciáveis foi marcado por acusações, provocações e poucas propostas concretas; avaliação qualitativa aponta desgaste dos dois candidatos e dificuldade para conquistar os indecisos

Por Delmo Menezes

O primeiro debate do segundo turno entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), realizado na noite deste domingo (18/10), pela Band, em parceria com outros veículos de comunicação, terminou com um saldo político que merece atenção: os dois candidatos tiveram a oportunidade de apresentar suas propostas para o futuro do País, mas acabaram dividindo boa parte do tempo entre acusações, provocações e tentativas de desqualificar o adversário.

A uma semana da votação, marcada para 25 de outubro, o encontro deveria representar um momento decisivo para conquistar eleitores indecisos e consolidar apoios. Em vez disso, a avaliação de um grupo de eleitores acompanhados durante o programa revelou frustração com o nível do confronto e a falta de respostas mais consistentes para os problemas brasileiros.

Segurança pública, economia, saúde, produtividade, relações com os Estados Unidos e redução da maioridade penal estiveram entre os temas discutidos nos três blocos. Também houve acusações relacionadas à corrupção e a investigações envolvendo o Banco Master e as fraudes no INSS. Entretanto, o embate político frequentemente se sobrepôs à discussão sobre os caminhos que cada candidato pretende adotar para governar o Brasil.

Um debate que ficou aquém das expectativas

Uma pesquisa qualitativa conduzida pelo cientista político Renato Dorgan, CEO do instituto Travessia, a pedido do Estadão, reuniu 12 eleitores em São Paulo: quatro indecisos, quatro apoiadores de Flávio Bolsonaro e quatro eleitores de Lula. O grupo acompanhou o debate em tempo real e avaliou as intervenções dos candidatos por meio de cartões coloridos.

Ao final, expressões como “decepcionante”, “triste”, “vergonhoso” e “irresponsável” resumiram a percepção de participantes dos diferentes grupos. A principal reclamação foi a ausência de uma discussão mais aprofundada sobre os desafios do País.

É importante ressaltar que se trata de uma pesquisa qualitativa, com uma amostra pequena, sem representatividade estatística. Portanto, os resultados não permitem projetar o comportamento do eleitorado brasileiro nem prever o resultado da eleição. Ainda assim, oferecem pistas sobre como determinados eleitores percebem o desempenho dos candidatos e quais aspectos podem pesar na decisão de voto.

Na avaliação de Dorgan, o tom emocional do primeiro bloco comprometeu as expectativas em relação aos dois presidenciáveis. Lula foi percebido como repetitivo e excessivamente preocupado em defender os resultados de sua administração. Flávio, por sua vez, foi considerado agressivo e pouco convincente em determinadas respostas.

A leitura política é clara: em uma eleição polarizada, atacar o adversário pode mobilizar a própria base, mas não necessariamente conquista quem ainda está em dúvida.

Flávio Bolsonaro: segurança como trunfo, mas respostas insuficientes

O senador encontrou na segurança pública um dos principais pontos de sustentação de seu discurso. Propostas como o fim das saídas temporárias de presos e a castração química de abusadores receberam avaliações favoráveis de participantes da pesquisa qualitativa, inclusive entre alguns eleitores indecisos.

O tema oferece a Flávio uma oportunidade de explorar uma das preocupações recorrentes da população e se apresentar como alternativa ao governo petista. Seu discurso incisivo pode funcionar como instrumento de mobilização do eleitorado que deseja políticas de segurança mais rigorosas.

O problema surgiu quando o candidato foi questionado sobre assuntos específicos e, segundo participantes do grupo, não apresentou respostas suficientemente claras. Entre as cobranças feitas por Lula estavam o posicionamento de Flávio em defesa de um policial militar acusado de matar uma criança no Rio de Janeiro e seu voto contrário à ampliação da licença-maternidade para servidoras públicas estaduais.

A falta de respostas satisfatórias foi apontada como um dos motivos para a mudança de posição de um eleitor que iniciou o debate declarando voto no senador e terminou indeciso.

Também houve críticas à falta de detalhamento do plano econômico. Para governar o País, não basta apresentar um discurso de oposição ou enumerar medidas de impacto popular. É necessário explicar como as propostas serão financiadas, executadas e transformadas em resultados concretos.

A promessa de oferecer um SUS com padrão de atendimento comparável ao do Hospital Albert Einstein, conforme a avaliação do pesquisador sobre a fala do senador, também foi recebida com desconfiança por parte dos participantes.

Flávio conseguiu explorar temas nos quais possui maior apelo político, mas encontrou dificuldades para demonstrar, na percepção de alguns eleitores, domínio equivalente sobre o conjunto das responsabilidades presidenciais.

Lula: políticas sociais e o peso de defender o próprio governo

O presidente procurou valorizar as políticas sociais e os resultados de sua administração, uma estratégia coerente com a tentativa de convencer o eleitor de que merece mais quatro anos no Palácio do Planalto.

Nesse campo, Lula teve desempenho relativamente melhor na avaliação dos participantes. Seu discurso sobre programas sociais foi considerado convincente por parte do grupo, que reconheceu sua experiência na condução do governo e a familiaridade com o tema.

Entretanto, o presidente também enfrentou uma dificuldade política importante: ao destacar os avanços de sua gestão e prometer melhorias para o futuro, precisou lidar com a cobrança sobre problemas que continuam presentes na vida dos brasileiros.

Custo de vida, segurança, qualidade dos serviços públicos e dificuldades econômicas exigem respostas que vão além da apresentação de indicadores positivos ou da defesa das realizações administrativas.

Para alguns participantes, Lula falou como se a situação do País estivesse melhor do que realmente percebem no cotidiano. A crítica atinge o centro da estratégia petista: quem está no poder precisa demonstrar resultados, reconhecer insuficiências e explicar o que pretende fazer de diferente.

Outro ponto negativo foi a disposição do presidente para entrar em confrontos pessoais com o adversário. Mesmo entre eleitores que mantiveram o voto em Lula, houve críticas ao tempo dedicado às provocações, em detrimento da apresentação de propostas.

A experiência política e a capacidade de comunicação continuam sendo ativos do presidente, mas não eliminam a necessidade de responder objetivamente às cobranças sobre seu governo.

Os números da avaliação qualitativa

Os cartões utilizados pelos participantes indicaram vantagem relativa de Lula na avaliação do desempenho durante o debate.

Entre as avaliações registradas para o presidente, 44,79% foram positivas, 35,42% negativas e 19,79% neutras. No caso de Flávio Bolsonaro, 39,06% foram positivas, 46,88% negativas e 14,06% neutras.

A diferença sugere que Lula conseguiu uma recepção menos desfavorável entre os integrantes do grupo. Isso, porém, não significa que tenha realizado um debate amplamente aprovado: as avaliações negativas também representaram uma parcela expressiva de suas manifestações.

Flávio teve maior proporção de avaliações desfavoráveis, especialmente em razão das críticas à falta de respostas e à agressividade de algumas intervenções.

Os números devem ser interpretados dentro dos limites da metodologia. A amostra de 12 pessoas não permite concluir que Lula tenha vencido o debate perante o eleitorado nacional. O resultado aponta apenas uma tendência entre os participantes acompanhados.

Indecisos continuam sem uma decisão definitiva

Um dos aspectos mais relevantes do levantamento foi a dificuldade de converter o debate em uma decisão de voto.

Entre os quatro indecisos, uma eleitora declarou ter passado a preferir Lula, citando a ausência de propostas convincentes de Flávio e questionando a maturidade do senador para exercer a Presidência. Ela também mencionou medidas associadas ao governo petista, como o debate sobre o fim da escala 6×1 e o reajuste do Bolsa Família.

Os outros três indecisos permaneceram sem uma escolha definitiva e ainda consideravam a possibilidade de anular o voto. Dois demonstraram tendência a votar em Flávio, enquanto o terceiro poderia optar por Lula.

Entre os eleitores que já apoiavam Flávio, um terminou o debate indeciso. Os quatro participantes que declaravam voto em Lula mantiveram suas posições.

O quadro mostra que o confronto não produziu uma virada generalizada, mas expôs fragilidades que podem influenciar a reta final da campanha. Para alguns eleitores, Lula representa a continuidade de um projeto conhecido; para outros, Flávio oferece a possibilidade de mudança. Nenhuma dessas percepções, entretanto, elimina as dúvidas sobre a capacidade dos candidatos de responder aos desafios do País.

Corrupção: acusações que não dominaram a avaliação

As referências ao Banco Master e às fraudes no INSS também apareceram no confronto, com acusações e tentativas de associar o adversário a problemas investigados.

Apesar do peso político desses assuntos, o tema não foi apontado como um dos principais fatores de mobilização dos participantes da pesquisa qualitativa. A percepção sobre a qualidade das respostas, a segurança pública, as políticas sociais e a capacidade de governar teve maior destaque na avaliação relatada.

Isso não significa que denúncias e investigações sejam irrelevantes para a eleição. Significa apenas que, naquele grupo, a troca de acusações não se mostrou suficiente para definir a escolha de boa parte dos eleitores.

Em uma disputa presidencial, acusações podem produzir desgaste, mas precisam ser acompanhadas de informações verificáveis e explicações consistentes. Do contrário, correm o risco de alimentar a polarização sem esclarecer as dúvidas da população.

O desafio da última semana

O debate da Band deixou uma mensagem importante para os dois candidatos: a polarização pode manter os eleitores mais fiéis mobilizados, mas não substitui a apresentação de propostas claras para quem ainda não decidiu seu voto.

Lula precisa demonstrar que reconhece as limitações de seu governo e explicar como pretende enfrentar problemas que continuam preocupando a população. Defender políticas sociais é importante, mas a continuidade administrativa exige compromissos concretos, metas e respostas convincentes.

Flávio, por sua vez, precisa transformar o discurso de mudança em um programa de governo consistente, demonstrando preparo para além da segurança pública e respondendo diretamente aos questionamentos que lhe são apresentados. A agressividade pode produzir momentos de impacto, mas não substitui a clareza nem a demonstração de capacidade administrativa.

O eleitor que ainda está indeciso não procura apenas um candidato que ataque o adversário com mais força. Quer compreender o que mudará em sua vida, como a economia poderá melhorar, de que maneira a segurança será reforçada e quais soluções serão adotadas para os problemas da saúde e dos serviços públicos.

A poucos dias do segundo turno, o principal risco para Lula e Flávio é confundir confronto com convencimento. O debate ofereceu momentos de confronto político, mas a avaliação dos participantes indica que faltou justamente o que mais importa para quem ainda está escolhendo: respostas objetivas, propostas consistentes e sinais de maturidade para governar o Brasil.

Em uma eleição decidida nas urnas em 25 de outubro, o desempenho final dos candidatos dependerá não apenas da capacidade de mobilizar suas bases, mas também de convencer o eleitor de que estão preparados para governar. O debate terminou; a disputa pela confiança do eleitor continua.

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Da Redação do Agenda Capital

Delmo Menezes
Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais com experiência em diversos órgãos da administração direta e indireta. Analista político e observador atento da política local e nacional. Editor-Chefe do portal de notícias Agenda Capital.

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