
Custo de vida, piora dos serviços públicos e crise habitacional impulsionam manifestações em vários países, como França, Itália, Espanha e Portugal, em meio ao fortalecimento de partidos radicais.
Por Redação
O aumento dos custos dos combustíveis e da energia, a insatisfação com o estado das escolas, a deterioração dos serviços públicos e a crise habitacional estão alimentando uma onda de protestos que está tendo um impacto cada vez maior na política na Europa.
As preocupações com o poder de compra tornaram-se “um dos principais motores da política populista” na Europa, afirma o cientista político Gilles Ivaldi, da universidade francesa Sciences Po.
Na França, o fraco crescimento da economia, a inflação em alta e o elevado endividamento estão forçando o governo a adotar cortes de gastos que devem apertar ainda mais as já difíceis condições de vida de muitas famílias. Ao mesmo tempo, manifestantes exigem maiores investimentos em escolas e nos serviços públicos.
Há semanas multidões protestam nas principais cidades, e cerca de meio milhão de pessoas participaram, no sábado passado, de manifestações em todo o país para denunciar o aumento do custo de vida.

O ato marcou o auge de quatro semanas de protestos, iniciados por estudantes que reivindicavam melhores condições nas escolas de ensino médio. O que começou como manifestações pacíficas degenerou em violência em muitas cidades, com grupos mascarados atacando forças de segurança, invadindo prédios públicos e incendiando alguns deles, saqueando lojas e ateando fogo em carros, bicicletas e patinetes.
Protestos também têm ocorrido na Bélgica, na Itália e em Portugal, embora em menor escala.
“A França serve como modelo de protesto para outros movimentos no norte da Itália, em Bruxelas e em Portugal”, afirma o analista da Chatham House Sebastien Maillard.
Ele acrescenta que os problemas que alimentam a indignação popular na França também são sentidos em outros lugares e que manifestações podem “se espalhar por outras partes do continente”.
Na Albânia, grandes manifestações vêm sendo impulsionadas há semanas pela indignação com a percepção de corrupção governamental, a falta de empregos e a baixa qualidade da educação.
Na Espanha e em Portugal, manifestantes há semanas protestam contra a crise habitacional.
Forças extremistas se fortalecem
Cidades europeias estão se transformando em campos de batalha à medida que algumas das principais economias da União Europeia (UE), como França, Itália e Espanha, se aproximam de eleições decisivas, e a ultradireita registra ganhos eleitorais na Alemanha e pode obter resultados semelhantes em outros países.
Na Itália, a primeira-ministra Giorgia Meloni enfrentará eleições nacionais no próximo ano e teme a crescente concorrência do novo partido de ultradireita Futuro Nacional (FnV), liderado pelo ex-general do Exército Roberto Vannacci.
Na França, as eleições presidenciais de abril e maio escolherão um novo presidente após uma década de governo centrista sob Emmanuel Macron. A candidata de ultradireita Marine Le Pen lidera as pesquisas de opinião.
O governo acusa grupos de extrema esquerda de incentivarem a violência para aumentar as chances do líder do partido A França Insubmissa (LFI), Jean-Luc Mélenchon, na disputa presidencial.
Segundo analistas, os distúrbios na França estão expondo profundas divisões políticas e econômicas às vésperas da eleição presidencial do próximo ano, fortalecendo forças extremistas.
Alguns observadores acreditam que a crise pode beneficiar Le Pen ao reforçar preocupações relacionadas à segurança pública e à manutenção da ordem. Outros argumentam que ela pode elevar o apoio à esquerda radical entre jovens eleitores urbanos frustrados com as condições econômicas.

Apoio à Ucrânia
Os protestos ocorrem num momento crítico para o apoio europeu à Ucrânia. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, faz gestos de aproximação ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, mesmo com o Kremlin sendo responsabilizado por ciberataques e outros atos em países da Otan.
Políticos radicais tanto da direita quanto da esquerda vêm argumentando que a retomada dos laços energéticos com a Rússia ajudaria a reduzir o custo de vida, questionando o consenso predominante na Europa de apoio à Ucrânia.
Na Alemanha, a AfD afirma que o apoio à Ucrânia prejudica desnecessariamente a própria economia alemã, a maior da Europa, num momento em que muitas empresas que usam intensivamente energia enfrentam dificuldades.
Situações anteriores indicam que há uma relação entre preços elevados da energia e maior votação na AfD, afirma o professor de economia Jan Steckel, da Universidade Técnica de Munique.
“Partidos populistas frequentemente apresentam os custos de energia como algo evitável e os atribuem às decisões políticas de governos, em vez de aos choques geopolíticos subjacentes que os provocam“, diz.
“Esses choques geopolíticos são muito mais difíceis de explicar. E acredito que é por isso que os partidos que estão no poder frequentemente enfrentam dificuldades.”
Na Itália, o Futuro Nacional também defende a restauração do fornecimento de gás pela Rússia. Os protestos no país ocorrem num momento em que a alta dos custos de energia complica os planos de Meloni de financiar cortes de impostos e aumentos de gastos no orçamento do próximo ano, o último antes de uma eleição nacional prevista para o fim de 2027.

Na Polônia, um dos aliados mais firmes da Ucrânia, a preocupação com as contas de energia está ajudando a aumentar o apoio à legenda de ultradireita Confederação da Coroa Polonesa. Seu líder, Grzegorz Braun, defendeu a retomada das compras de petróleo e gás russos, fazendo esse apelo ao lado de políticos da AfD em Lubmin, local onde chegam à Alemanha os danificados gasodutos Nord Stream. “Eu adoro o cheiro do gás russo pela manhã”, declarou, parafraseando a famosa afirmação do filme Apocalypse Now.
Jovens frustrados
Muitos dos protestos têm sido impulsionados pela frustração e ansiedade perante o futuro de muitos jovens europeus, que enfrentam “um forte sentimento de incerteza e perda de controle”, afirma a professora de sociologia María Silvestre, da Universidade de Deusto, na Espanha.
“Por que estou aqui? Bem, muito simplesmente porque considero o atual custo de vida realmente assustador”, disse Quentin Leviloux, manifestante de 21 anos em Nantes, na França. “Basta pensar nas pessoas que ganham apenas um salário mínimo quando se vê o custo dos alimentos, dos combustíveis e de tudo o mais. É assustador ver como tudo se tornou incrivelmente caro.”
Se os manifestantes são sobretudo jovens preocupados com o seu futuro, são as ações de centenas de mascarados que mais chamam a atenção. Eles entraram em confronto com a polícia, depredaram prédios públicos, incendiaram carros e bicicletas e saquearam lojas.
Investimentos em educação
Na França, país com uma longa tradição de protestos populares, manifestações iniciadas por causa da deterioração das instalações escolares nos subúrbios ao norte de Paris transformaram-se em alguns dos piores distúrbios do país em décadas.
Estudantes do ensino médio realizaram bloqueios e manifestações por várias semanas, exigindo mais recursos para escolas em estado precário e com falta de pessoal, especialmente em áreas de baixa renda.
Os protestos se ampliaram quando a central sindical CGT e outros ativistas aderiram ao movimento durante o recesso escolar do outono europeu. As queixas agora incluem o aumento do custo de vida e a qualidade dos serviços públicos.
Apesar de centenas de milhares de pessoas terem marchado pacificamente, os distúrbios do fim de semana passado resultaram em cerca de 2.500 prisões e graves episódios de violência em várias partes da França, incluindo saques em Paris, Marselha, Lyon e Bordeaux. Em Limoges, as chamas consumiram a parte histórica do prédio da prefeitura.
Algumas escolas foram incendiadas. Centenas de pessoas ficaram feridas enquanto estudantes e manifestantes arremessavam coquetéis molotov e as forças de segurança respondiam com gás lacrimogêneo.
O presidente Emmanuel Macron condenou a violência. O governo acusa ativistas da extrema esquerda de tentar fomentar o caos por meio de ataques a prédios públicos e à polícia. “Aqueles que saquearam terão de pagar pelos danos, e aqueles que procuraram derrubar a República serão responsabilizados”, declarou Macron no domingo. O governo do premiê Sébastien Lecornu determinou toque de recolher obrigatório em áreas de algumas grandes cidades.
Na Espanha, professores do ensino fundamental e médio iniciaram uma greve por tempo indeterminado em Madri na semana passada para exigir melhores salários e condições de trabalho. Paralisações semelhantes ocorreram em outras regiões do país ao longo deste ano.
Na Bélgica, estudantes do ensino médio realizaram protestos nas últimas semanas contra o aumento das taxas de matrícula nas universidades, mas o ministro do Interior, Bernard Quintin, atribuiu os distúrbios a uma “violência organizada”.
No sábado passado, a polícia utilizou gás lacrimogêneo e jatos d’água para dispersar centenas de manifestantes em Bruxelas e Liège que participaram de protestos contra o custo de vida.
Moradia inacessível dificulta a vida dos jovens
Espanha e Portugal estão tendo manifestações por causa dos altos custos da habitação. Nesta terça-feira a polícia portuguesa entrou em confronto com manifestantes e desmantelou acampamentos em Lisboa, onde deteve 55 pessoas.
Dezenas de milhares marcharam pela capital no sábado contra os baixos salários, os custos da habitação e o aumento do custo de vida, ampliando a pressão sobre o governo português. Após a manifestação, dezenas de barracas foram montadas na praça do Rossio, no centro de Lisboa.
Os protestos em Portugal se seguem a atos semelhantes na Espanha. Em Madri, barracas cobertas por lonas ocupam há semanas a praça Porta do Sol em protesto contra o aumento dos custos de moradia, movimento desencadeado pelo despejo de María del Carmen Abascal, uma mulher de 87 anos que posteriormente morreu hospitalizada.
A pressão pública levou o governo socialista a aprovar medidas voltadas para moradias acessíveis, mas elas não obtiveram apoio suficiente no Parlamento, o que levou o primeiro-ministro Pedro Sánchez a convocar eleições antecipadas para novembro – nas quais a habitação será um tema central. Também foi convocada uma greve geral para novembro, a primeira em 14 anos.
Protestos semelhantes surgiram nas maiores cidades portuguesas, Lisboa e Porto, bem como em Barcelona, um dos principais focos dos problemas relacionados ao turismo excessivo e à habitação na Espanha.
Custo de vida na Itália
O movimento Italia in Piazza (Itália nas Praças) mobiliza milhares de manifestantes, que exigem melhores empregos, saúde, educação e acesso à moradia. Segundo dados oficiais, a inflação italiana atingiu 4,2% em setembro, superando a média de 3,8% da zona do euro.
Marchas pacíficas deram lugar a tumultos violentos em Turim, Bolonha e Milão, o centro financeiro e da moda do país, no fim de semana passado. Centenas de manifestantes encapuzados, muitos deles aparentemente menores de idade, incendiaram lixeiras, entraram em confronto com a polícia e saquearam lojas no centro da cidade após uma manifestação inicialmente pacífica contra a deterioração dos serviços públicos e o aumento dos custos de vida.
A polícia italiana comunicou ter detido 271 jovens durante os tumultos em Milão. Desses, 32 foram presos, incluindo 23 menores e 13 estrangeiros. Outras 28 pessoas foram denunciadas às autoridades judiciais.
Na segunda-feira, o vice-primeiro-ministro Matteo Salvini, líder do partido de ultradireita Liga, anunciou o envio de 500 soldados para “defender Milão” após dois dias de confrontos, saques e vandalismo. A medida deverá integrar um pacote de segurança a ser aprovado pelo gabinete ministerial.
Um grupo recém-criado chamado Movimento 17 de Outubro anunciou uma “mobilização permanente”, convocando manifestações todos os sábados às 15h em cidades de toda a Itália.
Bloqueios rodoviários organizados por caminhoneiros, agricultores e metalúrgicos estão interrompendo o transporte em partes do sul do país, contribuindo para a escassez de combustível e elevando preocupações sobre o abastecimento de supermercados.
O protesto dos caminhoneiros contra os altos preços dos combustíveis e o custo de vida, iniciado na semana anterior com o bloqueio de estradas, rodovias e portos na Sicília e no sul da Itália, vem causando vários transtornos, como falta de produtos em supermercados e filas nos postos de combustível, e está ameaçando a produção de massas italianas.
A fabricante de massas Rummo, sediada na região da Campânia, afirmou que suspendeu a produção após ficar sem ingredientes. Quase todos os grandes produtores das regiões vizinhas enfrentam dificuldades semelhantes, afirmou o diretor-executivo Cosimo Rummo ao jornal La Repubblica.
Estudantes na Albânia aderem aos protestos
Protestos contra o governo já duram mais de uma semana na capital albanesa, Tirana. Nesta segunda-feira, um grupo de manifestantes incendiou o Tribunal de Apelação, marcando uma escalada nos confrontos entre a polícia e jovens manifestantes.
O dia começou com uma concentração estudantil pacífica em frente ao Ministério da Educação, mas acabou em confrontos violentos após o arremesso de pedras contra as forças de segurança.
Os confrontos se intensificaram após estudantes do ensino médio e universitários aderirem ao amplo movimento antigovernamental Flamingo, que exige a renúncia do primeiro-ministro Edi Rama. Outras cidades da Albânia, como Kurbin, no norte, e Vlorë, no sul, também foram palco de protestos e episódios violentos.
Rama condenou os manifestantes, afirmando que eles foram “ideologizados e radicalizados” por grupos radicais de esquerda.
O combate à corrupção é uma das principais bandeiras do movimento, batizado em referência ao habitat natural dos flamingos numa região onde o governo de Rama autorizou um grande empreendimento turístico de luxo ligado a Jared Kushner, genro de Trump.
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Com informações da Reuters/AP/AFP, EFE/LUSA//DW





