Pessoas caminham em frente à janela danificada de um McDonald's, um dia após os confrontos durante um dia nacional de manifestações contra o custo de vida e o aumento dos preços dos combustíveis, em Paris, França, 18 de outubro de 2026. Reprodução.

Alta dos preços da energia, perda do poder de compra e revolta social ampliam o desgaste dos governos e fortalecem discursos populistas na França, Alemanha, Itália e Polônia

Por Redação

A disparada dos preços dos combustíveis está transformando o descontentamento econômico em combustível político na Europa. Com famílias pressionadas pelo custo de vida, agricultores acumulando prejuízos e trabalhadores protestando contra a perda do poder de compra, partidos de extrema-direita ganham espaço no debate público e ampliam sua influência às vésperas de importantes disputas eleitorais.

Uma reportagem da agência Reuters, publicada nesta terça-feira (20), mostra como a insatisfação popular se espalha pelo continente, colocando governos sob pressão e abrindo oportunidades para forças políticas que prometem reduzir impostos, baratear a energia e rever as relações com a Rússia.

O cenário é especialmente delicado na França, onde a crise econômica se soma à instabilidade política e à escalada de manifestações. A combinação de inflação, despesas crescentes com energia e dificuldades para equilibrar as contas públicas ameaça ampliar o desgaste do governo e fortalecer candidaturas que exploram a insatisfação dos eleitores.

França enfrenta onda de revolta social

Os protestos franceses, que começaram com reivindicações relacionadas à deterioração das instalações escolares nos subúrbios ao norte de Paris, ganharam novas dimensões e passaram a refletir a indignação com o encarecimento da vida. Segundo a Reuters, os distúrbios evoluíram para episódios de violência, saques, incêndios e destruição de prédios públicos.

Em Nantes, o manifestante Quentin Leviloux, de 21 anos, resumiu o sentimento de parte da população ao afirmar que o custo de vida se tornou assustador, especialmente para quem recebe pouco mais do que o salário mínimo e precisa arcar com despesas cada vez maiores de alimentação, combustível e serviços essenciais.

Pessoas caminham em frente à janela danificada de um McDonald’s, um dia após os confrontos durante um dia nacional de manifestações contra o custo de vida e o aumento dos preços dos combustíveis, em Paris, França. Reprodução.

O presidente francês, Emmanuel Macron, reconheceu a legitimidade das reivindicações relacionadas ao aumento dos preços, mas condenou os atos de violência e vandalismo. A dificuldade do governo está em responder à pressão econômica sem agravar os desequilíbrios fiscais.

É nesse ambiente que Marine Le Pen, líder da direita nacionalista e principal referência do Reunião Nacional, procura transformar o custo dos combustíveis em uma das bandeiras centrais de sua estratégia política.

A proposta de reduzir significativamente a tributação sobre os combustíveis encontra receptividade entre eleitores de áreas rurais e semirrurais, onde o automóvel é indispensável para trabalhar, estudar e acessar serviços públicos.

De acordo com a reportagem, pesquisas do instituto Elabe indicaram melhora na popularidade de Le Pen desde o início do conflito com o Irã, enquanto a avaliação de Macron apresentou deterioração.

Manifestantes marcham contra o custo de vida em Paris. Reprodução.

Energia cara amplia pressão sobre governos

O agravamento da crise energética adiciona uma nova camada de dificuldades a economias que ainda enfrentam os efeitos da pandemia e das consequências da invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022.

A Reuters relata que a Comissão Europeia estimou em aproximadamente 100 bilhões de euros o custo econômico associado ao conflito envolvendo Estados Unidos e Irã, em razão dos impactos sobre o comércio e os mercados de energia. A reportagem também aponta forte alta nos preços dos combustíveis, com a gasolina subindo cerca de 140% e o diesel dobrando, segundo os dados citados.

O encarecimento da energia afeta diretamente o transporte, a produção industrial, a agricultura e o orçamento doméstico. Quando o combustível sobe, o impacto se espalha pela cadeia econômica, pressionando o preço dos alimentos e de outros produtos e serviços.

Para os governos, o desafio é duplo: conter a inflação e, ao mesmo tempo, evitar que medidas de alívio fiscal comprometam ainda mais as contas públicas.

Na avaliação do cientista político Gilles Ivaldi, da Sciences Po, a preocupação com o poder de compra se tornou um dos principais motores da política populista europeia.

O desgaste dos partidos tradicionais abre espaço para discursos que atribuem a crise a decisões dos governos e prometem soluções rápidas para problemas que também estão ligados a fatores geopolíticos e estruturais.

Barricada de papelão e lixo é incendiada durante confrontos entre manifestantes e a polícia em um protesto, na Piazza Duomo, em Milão.

Agricultores e trabalhadores vão às ruas

A insatisfação não se restringe à França. Na Sicília, agricultores de Gela protestam contra os custos que ameaçam inviabilizar suas atividades. Tratores tomam as ruas, enquanto faixas denunciam a contradição de quem trabalha na terra, produz alimentos e acumula dívidas.

Segundo Arcangelo Gambino, representante dos agricultores na província de Caltanissetta, o custo do combustível mais que dobrou, tornando a operação de máquinas agrícolas excessivamente cara.

Bloqueios promovidos por caminhoneiros, agricultores e trabalhadores da indústria metalúrgica também interromperam o transporte em partes do sul da Itália, provocando preocupações com o abastecimento de combustíveis e produtos nos supermercados.

Em Milão, protestos contra a precariedade dos serviços públicos e o aumento do custo de vida foram acompanhados por confrontos e episódios de vandalismo, conforme a reportagem.

Em Portugal, dezenas de milhares de pessoas marcharam em Lisboa para exigir melhores salários e denunciar o encarecimento da habitação e das despesas cotidianas. Na Espanha, a crise habitacional e a escalada dos aluguéis alimentaram manifestações após o despejo de uma idosa de 87 anos.

Bélgica e Albânia também registraram protestos motivados por diferentes problemas econômicos e sociais, incluindo baixos salários, desemprego, corrupção e deficiências nos serviços públicos.

Embora as reivindicações variem de país para país, a insatisfação tem um ponto em comum: a percepção de que os rendimentos não acompanham o aumento das despesas e de que os governos não oferecem respostas suficientes.

roblema complexo e oferece aos eleitores um responsável político identificável para uma crise que afeta diretamente seu orçamento.

Meloni enfrenta concorrência na Itália

Na Itália, a primeira-ministra Giorgia Meloni também enfrenta pressão em um cenário de crescente mobilização social. A disputa pela direita ganhou um novo elemento com o Futuro Nacional, partido liderado pelo ex-general Roberto Vannacci.

A legenda defende a recuperação das ligações energéticas com a Rússia, utilizando o aumento dos custos como argumento contra a atual orientação europeia.

O avanço dessa pauta mostra que a insatisfação com os preços não beneficia necessariamente apenas os partidos de oposição de esquerda ou direita. Ela também alimenta disputas dentro do próprio campo conservador, especialmente quando novas lideranças tentam conquistar eleitores descontentes com os resultados econômicos.

Polônia também sente os efeitos da crise

Na Polônia, um dos principais apoiadores europeus da Ucrânia, a preocupação com as contas de energia contribui para ampliar o espaço da extrema-direita.

A Confederação da Coroa Polonesa, liderada por Grzegorz Braun, defende a retomada das compras de petróleo e gás russos. Braun tem apresentado seus argumentos em articulação com políticos da AfD, incluindo encontros relacionados ao debate sobre os gasodutos Nord Stream.

A defesa do gás russo expõe uma divisão crescente na política europeia: de um lado, governos que sustentam a necessidade de manter a pressão sobre Moscou; de outro, grupos que argumentam que a população e as empresas não devem continuar arcando com os custos dessa estratégia.

A controvérsia ganha força justamente quando a inflação energética afeta a competitividade industrial e o orçamento das famílias.

O custo de vida pode redefinir o mapa político europeu

A crise dos combustíveis demonstra como problemas econômicos cotidianos podem produzir consequências políticas profundas. O preço na bomba, a conta de energia, o custo dos alimentos e as despesas com moradia deixaram de ser apenas indicadores econômicos para ocupar o centro das disputas eleitorais.

Partidos de extrema-direita procuram converter essa insatisfação em votos, associando o encarecimento da vida às políticas adotadas pelos governos e oferecendo propostas de redução tributária ou reaproximação energética com a Rússia.

O fenômeno, entretanto, não elimina a responsabilidade de outros fatores, como os conflitos internacionais, as restrições de oferta e as dificuldades estruturais das economias europeias. O desafio para os eleitores é distinguir as causas efetivas da crise das soluções apresentadas no discurso eleitoral.

Com importantes disputas políticas no horizonte, França, Alemanha, Itália e Polônia oferecem exemplos de como a perda do poder de compra pode alterar prioridades, desgastar governos e fortalecer candidaturas que prometem romper com o caminho adotado pelas forças tradicionais.

Na Europa, a crise energética já ultrapassou os limites da economia. Tornou-se uma questão de estabilidade social, confiança política e disputa pelo poder.

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Da Redação com informações de Agências Internacionais

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