Comunidades do Alto Jari e Jari do Socorro em Santarém-Pará, pedem ajuda para levar água potável às famílias. Foto: Divulgação.

Prefeitura da cidade solicita aeronaves, reforço de bombeiros, Força Nacional e maquinário para conter incêndios; fumaça chega à área urbana, enquanto famílias enfrentam dificuldades para obter água potável

Por Delmo Menezes

Santarém, no oeste do Pará, enfrenta uma grave combinação de estiagem, incêndios florestais e dificuldades de abastecimento que ameaça o meio ambiente e a sobrevivência de comunidades ribeirinhas e indígenas. Com o nível do Rio Tapajós muito abaixo do esperado para esta época do ano, o avanço das queimadas na zona rural e a fumaça que invade a área urbana ampliam a preocupação das autoridades e dos moradores.

Diante do agravamento do cenário, a Prefeitura de Santarém solicitou reforço emergencial aos governos estadual e federal para combater os incêndios florestais e ampliar a capacidade de resposta do município. O pedido inclui aeronaves especializadas, reforço do Corpo de Bombeiros, envio da Força Nacional de Segurança Pública e disponibilização de máquinas pesadas para a abertura de aceiros, faixas de terreno sem vegetação que ajudam a impedir a propagação das chamas.

O prefeito José Maria Tapajós formalizou a solicitação por meio do Ofício nº 291/2026-GAP/PMS, encaminhado ao governo do Pará, aos ministérios do Meio Ambiente e Mudança do Clima e da Justiça e Segurança Pública, além do Ibama e do ICMBio. A informação foi divulgada em 20 de outubro.

A preocupação é que a combinação de vegetação seca, baixa umidade e dificuldade de acesso às áreas atingidas favoreça a expansão dos incêndios, colocando em risco florestas, animais silvestres, plantações e comunidades inteiras.

Situação de emergência e cobrança por reforço

A gravidade da estiagem levou a administração municipal a decretar situação de emergência em 15 de outubro, por meio do Decreto nº 774/2026. A medida reconhece os impactos da redução das chuvas e da baixa dos rios Amazonas e Tapajós sobre o abastecimento de água, o transporte fluvial e o deslocamento de moradores das comunidades ribeirinhas.

O pedido de reforço para combater as queimadas representa uma nova frente de preocupação. A prefeitura quer ampliar a estrutura disponível para enfrentar incêndios em áreas rurais, nas proximidades de rodovias como a BR-163 e a PA-370 e nas divisas com Belterra, Mojuí dos Campos e Uruará, cidades que também estão sofrendo com as queimadas.

Entre as medidas solicitadas estão a instalação de uma aeronave especializada com base em Santarém, o aumento do efetivo e dos equipamentos de combate ao fogo, a mobilização de brigadistas e a disponibilização de maquinário pesado.

O município também defende o endurecimento da fiscalização e a suspensão temporária de autorizações para queimas controladas, diante do risco de que o fogo se espalhe rapidamente em áreas de vegetação ressecada.

A prefeitura, porém, ainda depende da articulação com as demais esferas de governo para ampliar os recursos e os meios operacionais disponíveis.

Queimadas em Santarém-Pará e região estão se alastrando. Foto: SEMAS

Arapixuna: incêndios ameaçam comunidades

Um dos episódios recentes mais preocupantes ocorreu na região de Arapixuna, na zona rural de Santarém. Um incêndio de grandes proporções começou em 13 de outubro, nas proximidades da comunidade Membeca, em uma área conhecida como Campo da Natureza, e mobilizou moradores de localidades vizinhas.

O fogo ameaçou comunidades como Aninduba, São José, Maicá e Amarí, além de provocar intensa fumaça e dificuldades respiratórias entre moradores. A região de Arapixuna reúne cerca de 4 mil pessoas distribuídas em 31 comunidades, segundo informações divulgadas pela imprensa local.

A ocorrência também mobilizou brigadas comunitárias e moradores que tentaram conter o avanço das chamas. O episódio evidencia a importância das equipes locais, mas também os limites do combate quando faltam equipamentos, pessoal e recursos para enfrentar incêndios extensos.

Animais mortos na região de Santarém-Pará, após queimadas na região — Foto: Corpo de Bombeiros/Divulgação

No Baixo Tapajós, a preocupação alcança também os territórios indígenas e as áreas de floresta utilizadas por populações tradicionais para moradia, alimentação e atividades econômicas.

Uma reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, com informações da DW, em 21 de outubro, mostra que comunidades indígenas da região estão reforçando medidas de prevenção diante do risco de novos incêndios. A memória da destruição provocada pelo fogo na aldeia Muruary, entre 2015 e 2016, continua presente entre os indígenas do povo Kumaruara.

Naquela ocasião, as chamas destruíram casas, casas de farinha e roçados. A seca chegou a comprometer até o igarapé utilizado como fonte de água pela comunidade.

Após a experiência, os indígenas fortaleceram a organização de brigadas próprias, como a Guardiões Kumaruara, que atua na prevenção e no combate a incêndios florestais. Mesmo com essa preparação, a atual estiagem mantém as comunidades em alerta.

Fumaça chega à cidade e preocupa autoridades de saúde

Os impactos das queimadas já ultrapassam os limites da zona rural. A fumaça transportada pelo vento alcançou a área urbana de Santarém e também foi percebida em Alter do Chão, importante destino turístico da região.

O problema deixou de ser apenas ambiental e passou a representar uma preocupação de saúde pública.

Segundo informações divulgadas pela imprensa local, a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Santarém contabilizou 423 atendimentos relacionados a sintomas respiratórios até 19 de outubro de 2026. Em todo o mês de outubro de 2025, haviam sido registrados 308 atendimentos, uma diferença de aproximadamente 37%.

Os números reforçam a preocupação com os efeitos da exposição à fumaça, especialmente entre crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares.

O monitoramento da qualidade do ar também apresentou oscilações importantes. Segundo a plataforma IQAir, Santarém chegou a registrar classificação de qualidade do ar “muito insalubre” na manhã de 19 de outubro. No dia seguinte, o índice havia melhorado para a categoria “moderada”, demonstrando que a situação pode mudar conforme a concentração de fumaça e as condições atmosféricas.

A população deve evitar exposição prolongada à fumaça, reduzir atividades físicas ao ar livre nos períodos mais críticos e procurar atendimento médico em caso de agravamento de sintomas respiratórios.

Rio Tapajós baixo dificulta a vida dos ribeirinhos

Enquanto o fogo avança em terra firme, a diminuição do nível dos rios cria outro problema para as comunidades que dependem das embarcações para se deslocar, transportar alimentos e acessar serviços públicos.

Em Santarém, o Rio Tapajós é parte fundamental da vida econômica, social e cultural da população. A redução de sua profundidade compromete a navegação em determinados trechos e dificulta o transporte de pessoas e mercadorias, especialmente nas localidades mais afastadas.

A situação é ainda mais delicada nas áreas de várzea, onde o acesso às casas e aos pontos de abastecimento depende das condições dos canais e igarapés.

A experiência de estiagens anteriores demonstra a dimensão do problema. Em 2024, comunidades da região já haviam enfrentado isolamento e dificuldades de acesso à água potável, exigindo ações de apoio de organizações e instituições locais.

O cenário atual reacende o temor de que a falta de chuvas e a descida dos rios agravem as condições de vida das famílias justamente quando a região também precisa enfrentar incêndios e fumaça.

Alto Jari e Jari do Socorro pedem água potável

A crise já se traduz em necessidades concretas para moradores de comunidades ribeirinhas.

No Canal do Jari, na região do distrito de Arapixuna, as comunidades Alto Jari e Jari do Socorro enfrentam dificuldades para obter água potável. Os moradores pedem apoio para instalar uma rede de distribuição que leve água de um poço até as residências.

De acordo com Dulce Oliveira, representante comunitária, Alto Jari dispõe de um poço equipado com um microssistema de energia solar que aciona a bomba e abastece caixas-d’água. Durante a cheia, os moradores utilizavam pequenas embarcações, conhecidas como rabetas, para chegar ao local e buscar água.

Com a estiagem, porém, o acesso ficou comprometido.

A proposta apresentada pelos moradores é instalar uma rede central de distribuição, com mangueiras ou canos, para atender às duas comunidades. Depois, cada família faria a ligação até sua residência.

A iniciativa busca garantir água de qualidade para todos, especialmente para idosos com dificuldades de locomoção e crianças que frequentam a escola local.

A situação mostra como a estiagem afeta não apenas a navegação e o abastecimento comercial, mas também necessidades básicas, como beber água, preparar alimentos e manter condições adequadas de higiene.

Baixo nível dos rios dificulta assistência — Foto: Divulgação

Defesa Civil enfrenta dificuldades para chegar às comunidades

O baixo nível dos rios também dificulta o trabalho das equipes de assistência. Em determinadas localidades, embarcações maiores já não conseguem se aproximar das margens, obrigando os moradores a utilizar barcos menores para transportar materiais e suprimentos.

Segundo informações da Defesa Civil municipal divulgadas no relato sobre as comunidades do Jari, o atendimento a famílias durante a estiagem de 2024 chegou a levar três meses em determinadas situações, em razão das dificuldades de acesso.

Alto Jari, Jari do Socorro e outras localidades da região estão entre os pontos que exigem atenção especial.

O decreto de emergência abre caminho para a mobilização de órgãos municipais e para medidas de assistência, mas o reconhecimento federal e a viabilização de recursos são etapas importantes para ampliar a resposta à população afetada.

Para as famílias, a instalação de sistemas permanentes de abastecimento pode reduzir a dependência das oscilações do rio e oferecer maior segurança durante os períodos de seca.

Rio Tapajós registra forte baixa devido à seca severa que atinge Santarém, no oeste do Pará. — Foto: Divulgação/Agência Santarém

O desafio climático e a ameaça do El Niño

O cenário de Santarém também está inserido em um contexto mais amplo de preocupação com a Amazônia. Reportagens recentes apontam que a intensificação do fenômeno El Niño pode agravar a seca e aumentar a vulnerabilidade da vegetação aos incêndios florestais.

A combinação de calor, baixa umidade e vegetação ressecada facilita a propagação das chamas. Embora as condições climáticas favoreçam os incêndios, muitas ocorrências têm origem em atividades humanas, o que reforça a necessidade de fiscalização e prevenção.

No Baixo Tapajós, as brigadas comunitárias e indígenas têm ampliado sua atuação, utilizando conhecimentos tradicionais e estratégias de manejo integrado do fogo para prevenir tragédias.

A resposta, entretanto, exige integração entre governos, órgãos ambientais, bombeiros, organizações comunitárias e lideranças tradicionais.

Uma emergência que exige respostas imediatas

Com a estiagem afetando os rios, as queimadas avançando pela zona rural, a fumaça prejudicando a qualidade do ar e comunidades enfrentando dificuldades para conseguir água potável, Santarém vive uma crise que exige atenção para além dos limites municipais.

O pedido de reforço feito pela prefeitura coloca os governos estadual e federal diante da necessidade de ampliar a capacidade de combate aos incêndios e de garantir assistência às populações mais vulneráveis.

A resposta precisa contemplar tanto as ações emergenciais — como aeronaves, brigadistas, equipamentos e abastecimento de água — quanto medidas de médio e longo prazo, incluindo prevenção de incêndios, fortalecimento das brigadas comunitárias e melhoria da infraestrutura de abastecimento nas localidades isoladas.

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Da Redação do Agenda Capital

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