Saúde, educação, transporte e segurança concentram as principais propostas da disputa pelo Palácio do Buriti; tarifa zero é ponto de convergência, mas candidatos apresentam caminhos diferentes para administrar Brasília
Por Delmo Menezes
Na reta final da disputa pelo Governo do Distrito Federal, Celina Leão (PP) e Leandro Grass (PT) apresentam projetos distintos para enfrentar os principais desafios de Brasília. Saúde pública, educação, segurança e mobilidade urbana estão entre os temas centrais dos planos de governo, que também trazem propostas para reduzir desigualdades e melhorar a qualidade de vida da população.
A atual governadora aposta na continuidade administrativa, na experiência política e nas entregas que afirma ter realizado desde que assumiu o Palácio do Buriti, em 30 de março. Grass, professor e ex-presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), defende uma reformulação dos serviços públicos, com prioridade para a redução das filas na saúde, a ampliação das vagas em creches e mudanças na gestão.
Os dois candidatos têm propostas semelhantes em algumas áreas, como a ampliação do ensino em tempo integral, a expansão dos serviços de saúde e a implantação da tarifa zero no transporte público. As diferenças aparecem principalmente no alcance dos programas, nos mecanismos de execução e nas prioridades de cada projeto.
Celina Leão aposta na continuidade e na ampliação dos serviços
Celina defende um modelo de gestão baseado em entregas, proximidade com as regiões administrativas e continuidade do planejamento iniciado durante sua passagem pelo governo.
A candidata cita a realização de 20 mil cirurgias eletivas, 200 mil consultas, a contratação de 518 médicos e a emissão de quase 2 mil ordens de serviço como resultados de sua gestão. Também destaca o programa GDF na Sua Porta, que leva serviços e intervenções às cidades do DF.
Sua proposta é dar continuidade às ações em andamento e ampliar a estrutura de atendimento nas áreas consideradas prioritárias.
Saúde: tecnologia, cirurgias e novas unidades
Na saúde, Celina propõe o Expresso da Saúde, com uso de telemedicina e inteligência artificial para reduzir o tempo de espera por consultas, exames e procedimentos.
O plano prevê o fortalecimento do Opera-DF, voltado às cirurgias eletivas, e a implantação de um prontuário eletrônico unificado para integrar as informações dos pacientes.
Entre as principais obras e medidas estão:
- Construção de sete novas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs).
- Conclusão do Hospital Ortopédico do Guará e avanço das obras hospitalares em São Sebastião, Ceilândia e Recanto das Emas.
- Implantação do Hospital Oncológico.
- Ampliação dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) para todas as regiões administrativas.
- Concursos públicos e reposição de profissionais da saúde.
A proposta combina expansão da rede física com ferramentas tecnológicas para melhorar o atendimento e organizar a demanda.
Educação: alfabetização e bolsas para estudantes
Na educação, uma das principais iniciativas é o programa Primeiras Letras, que pretende garantir que todas as crianças concluam o segundo ano do ensino fundamental sabendo ler e escrever.
Celina também propõe ampliar gradualmente as escolas em tempo integral e a oferta de escolas cívico-militares.
Para os estudantes, o plano inclui o Futuro Agora, com bolsas financeiras vinculadas à frequência e ao desempenho escolar no ensino médio, e o Bolsa Universitária DF, destinado a apoiar estudantes do ensino superior.
A candidata também prevê a distribuição de tablets e a utilização de soluções de inteligência artificial na gestão de programas educacionais.
Transporte: tarifa zero e expansão do metrô
Na mobilidade urbana, Celina propõe a tarifa zero para a população de baixa renda. A medida busca reduzir o peso do transporte no orçamento das famílias.
O plano inclui a expansão da Linha 1 do Metrô, a implantação da Linha 2, com previsão de chegada ao Gama, e articulações com o governo federal e Goiás para viabilizar uma ligação ferroviária entre Brasília e Luziânia.
As propostas envolvem projetos de longo prazo, que dependem de planejamento, recursos e articulação institucional para sair do papel.
Segurança: monitoramento e reforço policial
Celina pretende modernizar o programa DF 360 e o Centro Integrado de Operações de Brasília (CIOB), ampliando o uso de tecnologia e a integração das forças de segurança.
A candidata também prevê mais policiamento preventivo e a criação de delegacias e batalhões em regiões administrativas que ainda não contam com essas estruturas.
Entre as medidas estão a defesa da isonomia salarial entre a Polícia Civil do DF e a Polícia Federal, a modernização do sistema penitenciário e a meta de inserir 100% da população carcerária em atividades de trabalho dentro das unidades prisionais.
Leandro Grass propõe reorganizar os serviços públicos
Grass apresenta a recuperação dos serviços públicos como eixo central de seu projeto. O candidato afirma que pretende enfrentar problemas estruturais acumulados na saúde e na educação, além de integrar as políticas de segurança e mobilidade.
Na saúde, a principal meta é reduzir as filas de consultas e exames. Na educação, a prioridade inclui zerar a espera por vagas em creches. No transporte, a proposta de tarifa zero vem acompanhada da ampliação das linhas de ônibus e de medidas para atender melhor as regiões periféricas e rurais.
Saúde: especialistas e exames em até 30 dias
Grass estabelece como meta garantir consultas com especialistas e exames em até 30 dias até o fim de um eventual mandato, em 2030.
Para enfrentar a demanda represada, propõe um mutirão permanente de consultas, exames e cirurgias, utilizando a capacidade ociosa das redes pública e privada enquanto promove mudanças estruturais na rede pública.
O plano também prevê:
- Convocação dos 5 mil aprovados no concurso para a enfermagem, além da nomeação de técnicos e auxiliares.
- Concursos para suprir o déficit de especialistas.
- Transferência do comando do Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (Iges-DF) para a Secretaria de Saúde.
- Ampliação das parcerias com o governo federal, incluindo programas como o Agora Tem Especialistas e o Mais Médicos.
- Reorganização da assistência para aproximar os serviços da população.
A proposta estabelece metas mensuráveis, mas seu cumprimento dependerá da disponibilidade de profissionais, da capacidade de atendimento e dos recursos destinados à rede.
Educação: creches, ensino integral e valorização dos professores
Na educação, Grass pretende zerar a fila por vagas em creches e universalizar o atendimento na pré-escola.
O candidato propõe ampliar o ensino em tempo integral em toda a rede pública, começando pelas regiões mais vulneráveis, e estabelecer metas de aprendizagem por escola e região administrativa.
Também defende o pagamento do piso salarial dos professores, inclusive temporários, a reserva de um terço da jornada para atividades extraclasse e a redução da dependência de contratos temporários na rede pública.
O plano inclui investimentos em educação profissional e tecnológica, reposição dos quadros de servidores e ampliação das oportunidades de formação para os estudantes.
Transporte: tarifa zero gradual e mais ônibus à noite
Grass também defende a tarifa zero, mas prevê implantação progressiva e gradual, com execução por etapas.
Além da gratuidade, o candidato propõe ampliar a rede de ônibus, especialmente nas periferias e áreas rurais, e garantir a circulação de coletivos depois das 22h.
O plano inclui corredores de BRT nos eixos Norte, Oeste e Sudoeste, aquisição de novos trens para o Metrô e criação de ligações ferroviárias com o Entorno do DF.
O candidato também prevê medidas para reduzir as mortes no trânsito e melhorar as condições de deslocamento de quem depende do transporte coletivo diariamente.
Segurança: inteligência, prevenção e combate à violência contra a mulher
Na segurança pública, Grass propõe manter o DF 360, mas ampliar a capacidade de transformar as imagens captadas pelas câmeras em respostas efetivas às ocorrências.
A principal iniciativa é a Rede Sentinela, que prevê análise de imagens 24 horas por dia e ferramentas tecnológicas para auxiliar o trabalho policial, mantendo a decisão final sob responsabilidade humana.
O candidato também pretende integrar as forças de segurança, reforçar a prevenção e reverter a tendência de crescimento dos feminicídios e dos crimes violentos letais intencionais.
Entre as medidas estão ações de acompanhamento de vítimas de violência doméstica, fiscalização de medidas protetivas e planejamento de concursos para recompor os efetivos das forças de segurança.
Onde os dois projetos se aproximam — e onde divergem
As propostas revelam pontos de convergência, mas também diferenças importantes na forma de enfrentar os problemas do DF.
Na saúde, ambos prometem reduzir filas, ampliar a estrutura de atendimento e reforçar o quadro de profissionais. Celina enfatiza tecnologia, cirurgias e novas unidades; Grass estabelece prazo de até 30 dias para consultas especializadas e exames, além de propor mudanças na gestão do Iges-DF.
Na educação, os dois defendem a ampliação do ensino integral. Celina destaca alfabetização, escolas cívico-militares e bolsas para estudantes. Grass prioriza vagas em creches, valorização dos professores e redução da dependência de contratos temporários.
No transporte, a tarifa zero aparece nos dois programas. A diferença está no público inicialmente contemplado e no formato de implantação: Celina prevê gratuidade para pessoas de baixa renda, enquanto Grass defende implementação progressiva e gradual. Ambos apresentam propostas de expansão da infraestrutura de transporte.
Na segurança, os dois pretendem modernizar o DF 360 e integrar as forças policiais. Celina enfatiza o policiamento preventivo, a criação de unidades policiais e as condições de carreira. Grass concentra parte de sua proposta na inteligência, na prevenção da violência contra a mulher e na melhoria da resposta às ocorrências.
O desafio será transformar promessas em resultados
Independentemente de quem vencer a eleição, a execução das propostas dependerá de orçamento, planejamento, disponibilidade de servidores e capacidade de coordenação entre os órgãos públicos.
Projetos como novos hospitais, expansão do metrô e ligações ferroviárias exigem investimentos elevados e podem depender de parcerias com outros governos. Já medidas como organização de filas, convocação de aprovados em concursos e integração de sistemas também exigem planejamento e condições administrativas para produzir resultados.
Para o eleitor, a comparação dos programas permite avaliar não apenas o que cada candidato promete, mas também quais problemas pretende priorizar e quais metas estabelece para os próximos quatro anos.
A disputa pelo Palácio do Buriti coloca em debate dois caminhos: a continuidade e a ampliação de ações defendidas pela atual governadora ou a reorganização dos serviços públicos proposta pelo candidato do PT. A decisão caberá aos eleitores, que terão de considerar as prioridades para suas famílias e as condições de execução de cada programa.
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Da Redação do Agenda Capital








