Flávio Bolsonaro e Lula. Foto: G1/Agenda Capital.

Lula precisa atrair eleitores de Flávio que ainda não consolidaram seu voto

Por Delmo Menezes

Na reta final para a votação do segundo turno, a disputa presencial entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) desponta como uma das mais acirradas e complexas do período democrático. Após uma diferença de 2,2 milhões de votos (1,8 ponto percentual) a favor do candidato do PL no primeiro turno, analistas e cientistas políticos apontam que o resultado das urnas dependerá da dinâmica em três frentes centrais: a retenção e virada de votos diretos, a margem real de movimentação na abstenção/brancos/nulos e o desempenho regional, sobretudo no Nordeste e no Sudeste.

O desafio do “vira voto”: A dependência da conversão direta

Análises estatísticas indicam que a viabilidade de uma virada petista passa primariamente por atrair eleitores que votaram no adversário na primeira etapa do pleito.

  • Transferência da Terceira Via: Projeções baseadas nas primeiras pesquisas pós-primeiro turno (como o levantamento Quaest) mostram Flávio capturando cerca de 37% dos votos dos candidatos derrotados na primeira fase, enquanto Lula absorve 25%. Nesse cenário de manutenção das bases e partilha tradicional da terceira via, a vantagem inicial do senador se ampliaria de 2,2 milhões para aproximadamente 3,3 milhões de votos válidos.
  • O fator conversão: Segundo simulações do cientista político Jairo Nicolau (FGV), mesmo em um cenário amplamente favorável a Lula entre brancos, nulos e abstêmios (obtendo 60% desse contingente), a margem de Flávio ainda se manteria em torno de 2,4 milhões de votos. Para anular essa diferença nos votos válidos, Lula precisaria convencer cerca de 1,2 milhão de pessoas que votaram em Flávio no primeiro turno a mudar de lado (o equivalente a pouco mais de 2% da base do adversário). Como cada conversão subtrai um voto do rival e soma um ao candidato, o peso do voto convertido é dobrado.
  • Margem de oscilação: Apesar de a fidelidade de voto ser elevada em ambos os lados — com retenção na casa de 95% segundo dados de institutos de pesquisa —, levantamentos apontam que até 8% dos eleitores de Flávio admitem a possibilidade de rever a escolha, o que representa um universo potencial de quase 5 milhões de pessoas.

Abstenção e votos brancos/nulos: Espaço reduzido para grandes viradas

Diferente de disputas anteriores, analistas avaliam que o comportamento dos ausentes e nulos tende a oferecer uma margem mais estreita de transformação.

  • Histórico da abstenção: No primeiro turno, a taxa de abstenção registrou 21,08%. O padrão histórico do país indica alta do não comparecimento na segunda etapa — com exceção do pleito de 2022. Para Rodrigo Mahlmeister, pesquisador na Universidade Duke, uma nova queda na abstenção acima de 0,4 ponto percentual representaria um efeito atípico de mobilização, mas com impacto incerto, já que o retorno de abstêmios às urnas não beneficia necessariamente um único candidato.
  • Efeito das disputas estaduais: O fato de a maior parte dos governadores ter sido definida já no primeiro turno (com apenas cinco Estados e o Distrito Federal disputando segundo turno estadual) reduz o engajamento com campanhas locais competitivas, fator que tradicionalmente impulsiona a participação do eleitorado.
  • Precedente de brancos e nulos: Por outro lado, analistas como Felipe Nunes, diretor da Quaest, lembram o precedente de 2014, quando a queda de quase 4 milhões de votos brancos e nulos garantiu o volume de votos válidos decisivo para a vitória de Dilma Rousseff. Contudo, pesquisadores ponderam que os votos nulos e brancos já atingiram patamares muito baixos no primeiro turno atual.

Termômetros de apuração e geografia eleitoral

Durante o acompanhamento da apuração oficial, a dinâmica regional e a ordem de chegada dos dados das urnas serão vitais para a leitura do resultado final.

  • Desempenho no Nordeste: O Nordeste permanece como o principal centro de atração para a margem do PT. O crescimento de Flávio em municípios do interior nordestino no primeiro turno acendeu o alerta na campanha petista, que busca manter vantagem suficiente na região para compensar o desempenho do rival no Sul e Centro-Oeste.
  • Presença nas Capitais do Sudeste: Nas grandes capitais do país, onde a abstenção no primeiro turno superou a média nacional, o índice de comparecimento no domingo serve como indicador de recuperação de votos.
  • Ordem de apuração das urnas: Analistas recomendam cautela com os boletins iniciais divulgados pela Justiça Eleitoral após o encerramento da votação. A ordem de totalização varia a cada pleito em razão do envio das mídias das urnas. Em disputas apertadas, variações expressivas nas primeiras porcentagens não definem o resultado final até que a totalização alcance as etapas conclusivas em todas as regiões do país.

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  • Da Redação do Agenda Capital

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