Por Dr. Cid Carvalhaes*
Agosto chegou! Nem floresce, nem padece. Prossegue, indiferente, ao gosto de quem o atravessa. Às vezes, sem gosto, sem brilho, sem cor. Para alguns, um mês de espera silenciosa; para outros, de angústias e incertezas. As ameaças externas rondam, e os primeiros a sentir seus efeitos são os mais desprotegidos — aqueles que podem perder o pouco que têm: um abrigo, um emprego, um sustento.
Mas agosto também é um limiar. Precede a primavera, a estação das flores, das cores, dos perfumes que afastam os odores dos estrumes e renovam a esperança. A transição é lenta, quase imperceptível, mas anuncia a vida que insiste em renascer. Nos campos, nos jardins, nos ciprestes, agosto carrega consigo o prenúncio do florescer.
Por outro lado, agosto também carrega lembranças duras. É um mês marcado por perdas que deixaram lacunas largas na história. Como esquecer a saída de cena do presidente Getúlio Vargas, em um gesto que ainda ecoa na memória nacional, pregando peças em nossa trajetória política e social?
Agosto é, assim, um mês paradoxal. Pode ter gosto — ou nenhum. Pode ser perfeito em sua imperfeição, ou defeituoso em sua rotina. É um tempo de resistir, de seguir, de aguardar. E quando, enfim, se despede, deixa-nos entre o peso das lembranças e a leveza das flores que começam a desabrochar.
No final das contas, com ou sem gosto, vivenciamos o Agosto. E, como sempre, sobrevivemos a ele.
*Dr. Cid Célio Jayme Carvalhaes – Médico neurocirurgião, advogado e escritor. Foi Presidente da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, Presidente do Conselho Deliberativo da SBN, Presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo e Presidente da Federação Nacional dos Médicos. Especialista no Direito Médico e da Saúde e Coordenador do Curso de Pós-Graduação em Direito da Escola Paulista de Direito. É Colunista do Agenda Capital.




