Joseph Mengele (1911-1979). Médico que se notabilizou por atrocidades durante o regime nazista morreu em Bertioga (SP). Foto: Java.

Novo livro traz detalhes inéditos sobre o período de 18 anos em que o médico nazista se escondeu no Brasil. A autora teve acesso a documentos secretos do serviço secreto israelense, que foram enviados por Mengele no país.

Por João Pedro Soares

Após a fuga da Europa, o médico e oficial nazista Josef Mengele viveu por 18 anos no Brasil, até a sua morte. Apesar da longa estadia, sua passagem pelo país foi pouco documentada. O livro Baviera Tropical , da jornalista Betina Anton, busca suprir essa lacuna .

A ligação da autora com o tema começou ainda na infância. De família alemã, Betina estudou em uma escola germânica. Quando tinha apenas seis anos, sua professora desapareceu. Mais tarde, Betina soube que a senhora Liselotte Bossert foi afastada pelo fato de ter descoberto Mengele enterrado e seu corpo após a morte do médico nazista em 1979.

“Fui atrás dessas primeiras informações e consegui que um personagem essencial dessa história seria a própria Liselotte. É aí que o livro começa, porque não foi uma coisa tão simples assim”, conta a autora, que teve dificuldades para localizar a antiga professora após as notícias sobre a morte de Mengele, em 1985.

“Eu descobri com o diretor da escola que ela ainda estava viva, e resolvi ir atrás dela. Enfim, nós conversamos. O que eu não esperava era ser ameaçado por ela, que dizia ser um caso perigoso”, revela.

Josef Mengele foi apelidado de “anjo da morte” por sua atuação no campo de concentração de Auschwitz , onde tinha a palavra final sobre o destino dos prisioneiros. No local, o médico realizou experimentos macabros, inspirados pelo ideal de eugenia que guiou a pesquisa médica durante o Terceiro Reich.

O oficial fugiu inicialmente para a Argentina após a queda de Hitler, seguindo os passos de milhares de outros nazistas no período. Depois, mudou-se para o Paraguai e veio para o Brasil em seguida, tendo o mesmo destino de Adolf Eichmann, que foi capturado na Argentina pelo Mossad, o serviço secreto israelense, em 1960.

A jornalista Betina Anton teve acesso aos arquivos do Mossad e entrevistou o comandante da caça a Mengele no Brasil. Seu livro elucida como o médico nazista foi capaz de criar uma nova vida no país, ainda que sob o medo permanente de ser descoberto.

“Ele fez viagens, ia à praia. Nas cartas, ele fala sobre uma viagem em que explorou cavernas com um amigo, outra em que foi com um grupo para a cachoeira, conta ter ido à churrascaria, ao sítio. Dentro do círculo dele, estava muito à vontade”, comenta o jornalista.

Embora a obra tenha como foco o período em que Josef Mengele viveu no Brasil, Anton dedica três capítulos do livro para explicar quem foi o médico e as atrocidades que cometeu em nome da Alemanha nazista. Crianças gêmeas eram sua principal cobaia.

“No laboratório dele, em Auschwitz, havia uma parede cheia de olhos humanos. Ele participou de um estudo sobre a heterocromia, condição em que cada olho é de uma cor diferente. Pelos relatos, fica claro que ele mandava matar as pessoas para arrancar seus olhos”, diz Betina.

“Ele praticou uma série de crueldades. As pesquisas que fizeram em Auschwitz foram completamente sádicas, e muitas delas, sem sentido”, conclui.

O livro, editado pela Todavia ,foi lançado no sábado (11/11), em São Paulo. A obra será editada em outros oito países, incluindo Estados Unidos, Polônia e Hungria.

DW Brasil: Como uma história vivida na infância te motivou a escrever o livro?

Betina Anton : Eu estudei em uma escola alemã de São Paulo. Quando eu tinha seis anos de idade, minha professora desapareceu de repente, no meio do ano letivo. Começou a rolar um “zum zum zum” na escola, e as pessoas citaram o nome Mengele.

Eu sabia que tinha acontecido alguma coisa grave, mas não sabia exatamente o quê. Só sei que a professora saiu da escola, e outra professora passou a dar aula. Mais tarde, vim a saber que essa professora, Liselotte Bossert, foi a quem abrigou o Mengele no Brasil, nos últimos dez anos de vida dele. E foi ela que entrou no Mengele com nome falso, no cemitério do Embu.

Este foi um estelo inicial para eu ter uma curiosidade sobre a história: quem ele era e por que a Liselotte fez isso? Eu tinha minha visão de criança, uma sensação sobre o que tinha acontecido. Mas a compreensão de um adulto é diferente.

Resolvi pesquisar, e comecei a ler alguns livros que existem no exterior. Aqui no Brasil, não tinha nenhum livro que explicasse a vida do Mengele. Só havia material de imprensa.

Em 1985, quando o corpo de Mengele foi descoberto no Brasil, houve uma grande cobertura. Fui atrás dessas primeiras informações e descobri que uma personagem essencial dessa história seria a própria Liselotte. É aí que o livro começa, porque não foi uma coisa tão simples assim. Ela desapareceu da escola e também da imprensa. O nome dela aparece em vários artigos de 1985, mas, depois disso, ela fica completamente fora do radar. Nem os conhecidos sabiam onde ela estava. Eu descobri com o diretor da escola que ela ainda estava viva, e resolvi ir atrás dela. Enfim, nós conversamos. O que eu não esperava era ser ameaçado por ela, que dizia ser um caso perigoso. No livro, conto mais detalhes sobre isso.

Mengele (segundo da esq. para dir.) e oficiais outros nazistas em Auschwitz em forografia registrada em 1944.

É correto afirmar que Mengele viveu à vontade no Brasil?

Podemos olhar para a vida no Mengele no Brasil de duas maneiras. Ele não foi totalmente à vontade, porque tinha muito medo de ser pego pelo Mossad. E era extremamente cauteloso, gostava de sair pela rua com um chapéu de feltro e nunca dava seu nome verdadeiro.

Mengele sempre esteve com esse medo de ser pego “pelos judeus”, como ele disse. Nesse sentido, ele não estava à vontade. Quando ele morreu em Serra Negra, no começo dos anos 1960, construiu uma torre de observação de dez metros, pra ver quem vinha pela única estrada de terra que dava no sítio. Ele viveu em Serra Negra logo após o sequestro de Eichmann, que foi muito impactante para o Mengele. Aliás, foi por esse motivo que ele veio para o Brasil.

Até então, Mengele vivia no Paraguai. Ele era cidadão paraguaio, então sabia que não poderia ser extraditado para a Alemanha, por exemplo. Desde 1959, havia uma ordem de prisão contra ele na Alemanha. A partir do momento em que o Mossad sequestra Eichmann, em 1960, ele percebe que não está mais protegido no Paraguai e vem para o Brasil. Ao mesmo tempo, ele construiu uma rede de amigos aqui, que era pequena, mas muito leal a ele. Aí a gente entra no conceito do título do livro, Baviera Tropical. Ele tinha camadas com essa rede de amigos. Eles gostavam muito de discutir literatura, por exemplo. Além disso, trocamos muitas cartas.

O Mengele gostava de escrever e se correspondia muito com um amigo que retornou para a Áustria, o Wolfgang Gerhard. Graças a isso, conseguimos saber detalhes íntimos da vida do Mengele no Brasil. Eu tive acesso a essas cartas, que estavam na Polícia Federal, e pude ver como era a rotina dele, em detalhes. Nesse sentido, ele estava à vontade. Quando ele morava em Eldorado, na periferia de São Paulo, saiu para passear com os cachorros. Ele faz viagens, e na praia. Nas cartas, ele fala sobre uma viagem em que explorou cavernas com um amigo, outra em que foi com um grupo para a cachoeira, conta ter ido à churrascaria, ao sítio. Dentro do círculo dele, ele estava muito à vontade.

O campo de Auschwitz-Birkenau, onde Mengele realizou experimentos em prisioneiros, incluindo crianças
Foto: Museu Staatliches Auschwitz-Birkenau

Como você obteve documentos sobre a morte do Mengele no Brasil?

Eu não encontrei esses registros no Brasil, apenas nos arquivos do Mossad. As autoridades brasileiras não sabiam dessa operação. Quem me contou isso foi Rafi Eitan, comandante de operações do Mossad no sequestro de Adolf Eichmann em Buenos Aires.

Quando entrevistei em Tel-Aviv, ele tinha 90 anos. Durante a produção do livro, veio a falecer. A ideia do Mossad era capturar Mengele junto com Eichmann, mas o Eitan foi contrário à ideia. Ele descobriu que o processo com o Eichmann ia muito bem, e incluir o Mengele na operação poderia fazer tudo a perder. Quando eles vieram para o Brasil, eles recrutaram um agente brasileiro do Mossad, o Yigal Haychuk, outra novidade que apresento no livro. Ele também já era um senhor quando nos encontramos. Foi ele que ajudou o Mossad nessa busca aqui no Brasil, que aconteceu totalmente às escondidas.

Após esse mergulho na vida do Mengele, como você avalia as motivações de suas práticas?

Eu acho que ele estava extremamente específico para ser um grande cientista e um grande acadêmico. Como ele se formou nessa medicina do Terceiro Reich, da eugenia, extremamente racista, para ele tudo estava dentro dessa lógica macabra. Ele queria seguir isso até as últimas consequências, seu objetivo era ser um grande cientista. Ele não tinha escrúpulos, faria qualquer coisa que fosse necessária para alcançar esse objetivo. Ele queria se destacar. Eu noto que ele tinha um desespero, de conseguir um resultado para brilhar na carreira.

Mengele tinha uma formação muito boa, dois doutorados, um em Medicina, e outro em Antropologia. A medicina do Terceiro Reich tinha uma visão racista. Quando ele era estudante, criaram departamentos na universidade justamente para tentar provar a superioridade da raça ariana. Chegando em Auschwitz, ele quis se divertir do que ele considerava como material humano, de todas aquelas pessoas que estavam lá, de diferentes “raças”, um conceito biológico para os nazistas. Ele resolveu fazer diversas pesquisas, e muitas delas não tinham nada a ver com o que se estudou na universidade.

Quando o Mengele fazia estudos com mulheres, por exemplo, injetava uma doença propositalmente em duas mulheres e via como essa doença se desenvolvia. Quando uma fêmea morria, ele mandava matar o segundo e dissecar os corpos das fêmeas. A ideia era comparar o que aconteceu com os dois, algo que não seria possível em qualquer outro contexto.

Ele foi de uma crueldade imensa, fazia isso com crianças. No laboratório dele em Auschwitz, havia uma parede cheia de olhos humanos. Ele participou de um estudo sobre a heterocromia, condição em que cada olho é de uma cor diferente. Pelos relatos, fica claro que ele mandava matar as pessoas para arrancar seus olhos. Ele praticou uma série de crueldades. As pesquisas que realizaram em Auschwitz foram completamente sádicas, e muitas delas, sem sentido.

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Com informações do DW

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