Big techs foram citadas em carta de Trump sobre tarifas para o Brasil.

Gigantes americanas como Google, Meta, Amazon e Apple estão no centro de embate comercial; especialistas alertam que romper com essas plataformas é inviável no curto prazo

Por Redação

Diante do novo tarifaço anunciado por Donald Trump — que impôs taxas de até 50% sobre a importação de produtos brasileiros — o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva estuda reagir com medidas econômicas voltadas a um dos setores mais simbólicos da presença americana no Brasil: as big techs. A possibilidade de taxar gigantes como Google, Meta, Amazon, Apple e Microsoft reacendeu o debate sobre a alta dependência digital do País em relação aos serviços dessas empresas.

Na carta enviada por Trump para justificar o aumento das tarifas, as empresas de tecnologia foram citadas como parte de um pacote de interesses estratégicos dos Estados Unidos. A resposta brasileira, embora ainda em fase de estudo, inclui a hipótese de impor tributos às big techs, que atuam fortemente no Brasil por meio de redes sociais, plataformas de comunicação, serviços de nuvem e infraestrutura digital.

Brasil hiperconectado

O Brasil possui um dos públicos digitais mais ativos do mundo. Segundo estudo da Comscore, são 116 milhões de usuários digitais ativos e 86% da população conectada às redes sociais. Plataformas como Instagram, Facebook, Gmail e WhatsApp são parte intrínseca do cotidiano — tanto na vida pessoal quanto profissional.

Porém, como alerta o professor Guilherme Klafke, da Fundação Getulio Vargas (FGV), os serviços visíveis aos usuários são apenas a ponta do iceberg. “A gente imagina as big techs numa ideia de redes sociais, mas a internet é um ecossistema muito grande. Pensar um cenário alternativo envolveria deslocar isso para um outro tipo de empresa grande capaz de prestar esses serviços”, explica.

A Amazon, por meio da AWS, é uma das maiores provedoras de nuvem no Brasil. O Google, além de dominar o mercado de e-mail, com o Gmail, controla o Android, sistema operacional de quase todos os smartphones brasileiros. Microsoft e Apple também têm papel estratégico em produtividade, sistemas operacionais e distribuição de conteúdo.

Por que não é simples romper?

A dependência tecnológica do Brasil com as big techs se construiu ao longo de décadas. Diferentemente de países como a China, que desde o início da era digital investiram em soluções nacionais, o Brasil adotou majoritariamente plataformas americanas em áreas como comunicação, varejo digital, nuvem e redes sociais.

Essa adesão em massa tornou os serviços praticamente insubstituíveis no curto prazo. Um exemplo emblemático foi o apagão de cerca de sete horas do WhatsApp em outubro de 2021, que paralisou pequenas e médias empresas e prejudicou a comunicação em diversos setores.

A estrutura da internet brasileira também depende de serviços operados por essas empresas. Cerca de 60% do processamento de dados no País ocorre em servidores estrangeiros. O Ministério da Fazenda tenta mitigar essa vulnerabilidade por meio do Redata, um plano que prevê atrair até R$ 2 trilhões para a construção de data centers nacionais.

Outro desafio seria a coordenação entre os mais de 20 mil provedores de internet existentes no País, com 23 milhões de pontos de acesso. Qualquer ruptura exigiria uma ampla reestruturação legal, técnica e econômica, além de eventual enfrentamento com o setor de telecomunicações.

O risco do isolamento digital

Um cenário de bloqueio ou descontinuidade dos serviços das big techs também pode provocar um isolamento internacional, a exemplo da Rússia, que optou por fortalecer suas plataformas nacionais após sanções do Ocidente. Hoje, o país vive uma internet fechada e restritiva, com pouco acesso a conteúdos e serviços globais.

“Imaginar um cenário como o da Rússia é imaginar um cenário de pária internacional, em que você tem uma restrição enorme no uso e na variedade de serviços. Não é desejável pensar na internet desse jeito, porque aí você paralisa a inovação, paralisa a comunicação”, alerta Klafke.

O Brasil como mercado estratégico

Apesar das ameaças mútuas, especialistas destacam que o Brasil é um mercado valioso para as big techs. De acordo com pesquisa da Bain & Company, os brasileiros passam, em média, mais de 9 horas por dia conectados — uma das maiores taxas do mundo. Isso representa uma enorme oportunidade de geração de receita publicitária, comércio digital e coleta de dados para as empresas.

“O País só ganha protagonismo na luta com essas empresas porque tem uma internet vibrante, um mercado relevante. Então, para elas também não é interessante perder o Brasil”, pondera Klafke.

Regulação no lugar da ruptura

Para Camila Vidal, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a saída não está na exclusão das big techs, mas na criação de mecanismos de regulação adequados.

“A questão a ser posta é de que forma que a gente pode e deve regular essas big techs. Isso é uma questão que está sendo debatida já há bastante tempo”, diz. Ela defende que o Brasil avance na legislação para controlar a influência dessas plataformas, sobretudo no que diz respeito à disseminação de conteúdo ilegal, manipulação de dados e monopólio de mercado.

Essa regulação começou a ganhar mais força após decisões do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional, como a recente alteração no artigo 19 do Marco Civil da Internet, que permite responsabilizar plataformas por conteúdos ilegais.

Dilema do Brasil

Em meio à tensão comercial com os Estados Unidos, o Brasil se vê em um dilema: manter a dependência das big techs ou buscar alternativas que fortaleçam a soberania digital nacional. Apesar da retórica de confronto, especialistas apontam que o caminho mais viável é o da regulação firme, sem abrir mão do papel estratégico que essas empresas desempenham para a economia e a sociedade brasileira.

A disputa com Trump, portanto, pode ser uma oportunidade para o Brasil redefinir sua relação com as gigantes da tecnologia — mas sem abandonar o realismo necessário diante de um cenário global altamente interconectado.

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Da Redação do Agenda Capital

Delmo Menezes
Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais com experiência em diversos órgãos da administração direta e indireta. Analista político e observador atento da política local e nacional. Editor-Chefe do portal de notícias Agenda Capital.

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