A indústria de alimentos e bebidas, juntamente com o setor supermercadista, já se mobiliza em uma corrida estratégica para reverter a queda nas vendas antes da expiração da patente, momento em que o medicamento tende a se tornar mais acessível e intensificar a concorrência no mercado.
Por Delmo Menezes
O avanço dos medicamentos agonistas do receptor de GLP-1 (como Ozempic, Wegovy e Mounjaro) está extrapolando as fronteiras dos consultórios médicos e atingindo diretamente o caixa de supermercados e indústrias de alimentos. Uma mudança drástica nos hábitos de compra dos usuários dessas “canetinhas” tem reduzido gastos individuais e pressionado empresas a reformularem seus portfólios para evitar quedas acentuadas nas vendas.
Menos peso na balança, menos gastos no carrinho
Para os consumidores, o efeito colateral positivo aparece no bolso. Relatos de usuários mostram que a saciedade prolongada e a mudança na seletividade alimentar resultam em economias significativas. O relações-públicas Fábio Pimentel, que perdeu 44 quilos em 11 meses, viu seu gasto médio para compras de dez dias cair de R$ 954,38 para R$ 633,88 — uma redução de 33,58%.
A confeiteira Maria Eduarda Oliveira da Silva seguiu a mesma tendência: após perder 7,3 quilos em um mês, seus gastos no supermercado recuaram 11,35%. Em ambos os casos, a economia financeira superou, proporcionalmente, a perda de peso corporal.

O raio-x do novo consumidor
Dados da consultoria Worldpanel by Numerator Latam confirmam que essa não é uma tendência isolada. Entre o terceiro trimestre de 2024 e o de 2025, usuários desses medicamentos cortaram quase 5% das unidades de alimentos e bebidas compradas. Enquanto isso, o consumo entre não usuários permaneceu estável.
As categorias mais atingidas são os itens de compra por impulso e alto valor agregado:
- Chocolates e guloseimas
- Refrigerantes
- Bebidas alcoólicas
Em contrapartida, houve um aumento na busca por frutas, verduras, legumes e proteínas, essenciais para evitar a perda de massa muscular durante o tratamento.
A reação da indústria: foco em proteínas e saúde
Fabricantes de alimentos já iniciaram uma corrida para se adaptar. A Danone, atenta ao interesse por proteínas de alta qualidade, aposta em linhas de iogurtes zero açúcar e suplementos nutricionais. A MBRF (dona da Sadia e Perdigão) acelerou as vendas de refeições prontas com alto teor de proteína (42g por porção), enquanto a JBS lançou linhas específicas para air fryers e expandiu sua atuação no setor de ovos, uma proteína mais acessível.
Embora João Dornellas, presidente da Abia (Associação Brasileira da Indústria de Alimentos), ressalte que o movimento pela “saudabilidade” já existia antes das canetas, é inegável que os medicamentos aceleraram o processo.

Varejo estratégico: De promoções a farmácias internas
Os supermercados também estão recalculando rotas. O Assaí Atacadista já nota a queda no consumo de álcool e o avanço das proteínas, respondendo com a implementação de açougues, seções de fatiados e espaços dedicados a suplementos como creatina e Whey protein. A rede planeja ainda ter 25 farmácias dentro de suas lojas até julho de 2026.
No Hirota Supermercados, a estratégia inclui:
- Campanhas de desconto: Reduções de até 20% em itens saudáveis.
- Etiquetagem nutricional: Destaque para o teor de proteína nas gôndolas.
- Consultoria especializada: Oferecimento de orientação com nutricionistas e exames de bioimpedância para clientes.
O futuro com a quebra de patente
O cenário de transformação deve se intensificar. Com a recente quebra de patente desses medicamentos, a expectativa é de que os preços caiam, tornando o tratamento acessível a uma parcela maior da população (atualmente concentrada em 45% nas classes de maior renda e 52% acima dos 50 anos).
Seja pela busca genuína por saúde ou pelo auxílio farmacológico, o comportamento do consumidor brasileiro — o que mais ouviu falar das canetas na América Latina (70%) — sinaliza que o setor de alimentos precisará, cada vez mais, entregar valor nutricional em vez de calorias vazias.
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Da Redação do Agenda Capital com Estadão





