Celina Leão fala sobre a saúde pública do DF, em 15 de julho de 2026 — Foto: Reprodução.

Após três mortes em uma semana, Saúde do DF vive crise e pressão por mudanças imediatas, inclusive de gestores da Pasta

Por Delmo Menezes*

A sequência de três mortes registradas em unidades da rede pública de saúde do Distrito Federal, em apenas uma semana, provocou forte repercussão e colocou a gestão da Secretaria de Estado de Saúde (SES-DF) sob intensa pressão. Os casos reacenderam o debate sobre a qualidade da assistência prestada aos pacientes, a carência de profissionais, a estrutura da rede e a necessidade de mudanças urgentes na condução da pasta.

Diante da gravidade da situação, a governadora Celina Leão (PP) afirmou que não aceitará falhas na assistência e anunciou que promoverá mudanças na área da saúde. Segundo ela, o governo está revendo protocolos, ampliando a contratação de médicos e reforçando a apuração dos casos.

“A gente não vai tolerar esse tipo de atendimento nos nossos hospitais. Há também uma previsão de mudar o protocolo do atendimento pré-natal. Tenho certeza de que precisamos, realmente, melhorar. Há, sim, um sucateamento na falta de médicos na rede pública”, declarou a governadora.

Três mortes em poucos dias

Os casos que geraram maior comoção ocorreram em diferentes unidades da rede pública:

  • Maria Graciana Andrade Alves, de 36 anos, morreu durante o parto no Hospital Regional de Samambaia.
  • Maria Aparecida Galdino dos Santos, de 25 anos, também morreu durante o parto na mesma unidade hospitalar poucos dias depois.
  • Rodrigo Resende Prado, de 46 anos, morreu na calçada em frente ao Hospital de Base, após buscar atendimento.

As ocorrências levantaram questionamentos sobre possíveis falhas na assistência e motivaram investigações internas. Segundo a governadora, as imagens dos hospitais estão sendo disponibilizadas para familiares e autoridades responsáveis pela apuração.

“A saúde é monitorada. Está tudo registrado nas câmeras. Estamos abrindo essas imagens para os familiares e para a polícia para que tudo seja devidamente apurado”, afirmou.

O Ministério da Saúde informou que acompanha os casos em conjunto com a Secretaria de Saúde do Distrito Federal e prestará apoio técnico durante as investigações.

Falta de médicos é reconhecida

Durante o pronunciamento, Celina Leão também reconheceu um dos principais problemas enfrentados pela rede pública: a insuficiência de médicos.

Segundo ela, o Governo do Distrito Federal já iniciou o chamamento de 508 profissionais, entre oncologistas, ginecologistas e clínicos gerais. A governadora ressaltou, porém, que o processo de contratação leva tempo.

Ela lembrou que um concurso recente não conseguiu preencher todas as vagas disponíveis. Das 114 oportunidades oferecidas, apenas 34 candidatos tomaram posse.

Crise evidencia necessidade de um choque de gestão

A sucessão de episódios evidencia que o desafio da saúde pública do Distrito Federal vai além da contratação de profissionais. Especialistas em administração pública costumam destacar que crises dessa natureza exigem uma combinação de reforço da assistência, melhoria da gestão, integração dos serviços e acompanhamento permanente das unidades de saúde.

Entre os pontos que merecem atenção estão o fortalecimento da gestão hospitalar, o monitoramento dos fluxos de atendimento, a revisão de protocolos assistenciais, a ampliação do quadro de profissionais e a melhoria da comunicação entre as diversas unidades da rede.

Outro problema frequentemente apontado por profissionais da área é a integração dos sistemas de informação. Atualmente, o sistema utilizado pelo Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (IgesDF) ainda não opera de forma plenamente integrada ao da Secretaria de Saúde. Ou seja, os dois sistemas “não conversam entre si”.

Na prática, quando um paciente é transferido de uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) administrada pelo IgesDF para um hospital da Secretaria de Saúde, como o Hospital Regional da Asa Norte (HRAN), o histórico clínico nem sempre está imediatamente disponível à equipe que dará continuidade ao atendimento. Em determinadas situações, os profissionais precisam buscar essas informações por outros meios, o que pode atrasar decisões clínicas e comprometer a continuidade da assistência.

Expectativa por mudanças

As declarações da governadora indicam que alterações na condução da política de saúde estão em avaliação. A expectativa é de que as medidas envolvam tanto o aperfeiçoamento dos protocolos assistenciais quanto ajustes na estrutura administrativa da Secretaria de Saúde.

Após uma semana marcada por mortes que causaram grande comoção entre familiares e a população, cresce a cobrança para que as investigações apontem eventuais responsabilidades e para que sejam adotadas medidas capazes de fortalecer a rede pública, reduzir falhas assistenciais e evitar que episódios semelhantes voltem a ocorrer. O desafio agora será transformar o reconhecimento dos problemas em ações concretas que restabeleçam a confiança da população no sistema público de saúde do Distrito Federal.

*Delmo Menezes – Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais com experiência em diversos órgãos da administração direta e indireta, com passagens pela Anvisa, Ministério da Saúde, Secretaria de Saúde do DF, IgesDF e ICTDF. Analista político e observador atento da política local e nacional. Editor-Chefe do portal de notícias Agenda Capital.

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