O DF vive um cenário político ainda nebuloso e em transformação. Celina Leão (PP) segue com vantagem, apoiada por estrutura, visibilidade administrativa e articulações crescentes
Por Delmo Menezes*
O cenário político do Distrito Federal para 2026 começa a ganhar contornos, mas ainda está longe de apresentar um quadro definitivo. As articulações se intensificam nos bastidores, enquanto nomes tradicionais e novos atores se movimentam na construção de alianças. Como em toda eleição, o contexto atual difere totalmente do pleito anterior: ninguém está eleito, ninguém está derrotado e, até março do próximo ano, muita coisa ainda pode mudar.
O governador Ibaneis Rocha (MDB), que tem conduzido uma gestão bem avaliada e com forte marca de entregas, é apontado como um dos principais nomes para disputar uma vaga no Senado. A possibilidade é vista como estratégica por líderes políticos que o cercam, pois poderia manter o chefe do Executivo com influência nacional e, mais adiante, torná-lo protagonista novamente no DF.
A ascensão de Ibaneis ao Senado, reforça ainda o projeto político da atual vice-governadora Celina Leão (PP), que aparece como favorita na corrida ao Palácio do Buriti. O governador tem apostado no ritmo acelerado de obras e em políticas públicas consolidadas como lastro para fortalecer Celina — herdeira natural do projeto e pré-candidata ao Palácio do Buriti.
A partir de abril de 2026, Celina assume o comando do Governo do Distrito Federal e ganhará ainda mais projeção. Com a máquina pública nas mãos e boa articulação política, a vice-governadora chega ao tabuleiro com uma vantagem considerável, mantendo-se em posição confortável diante dos adversários, especialmente com o respaldo de Ibaneis. Reconhecida pela habilidade nos bastidores e pelo perfil estratégico, Celina corre para consolidar alianças e expandir seu apoio político.
Arruda, fator de instabilidade ou reorganização?
A possível candidatura do ex-governador José Roberto Arruda (PSD) surge como um elemento capaz de tensionar o cenário eleitoral. Arruda ainda conserva respeitável capital político na capital federal. Sua entrada no processo pode reconfigurar alianças, provocar migrações partidárias e atrair antigos aliados.
No PSD, por exemplo, sua presença pressiona diretamente decisões internas. O presidente nacional da sigla, Gilberto Kassab, tenta manter o empresário Paulo Octávio no partido. Entretanto, a convivência com Arruda na mesma legenda é considerada inviável e, por isso, cresce a probabilidade de saída de “PO” do PSD. Seu filho, André Kubitschek, atual secretário de Juventude do DF, também deve decidir em breve se permanece ou inicia nova trajetória partidária.
Ainda no PSD, outro personagem importante do tabuleiro é o ex-ministro Ronaldo Fonseca, que deve abandonar o projeto de disputa ao governo e se movimentar para concorrer à Câmara Federal ou mesmo migrar para outra legenda que ofereça condições para uma candidatura majoritária. Nos bastidores, as conversas estão avançadas. Fonseca ainda mantém uma forte penetração no segmento evangélico.
O deputado distrital Jorge Vianna também observa atentamente os movimentos: pode deixar o PSD, mas prefere aguardar até que a situação jurídica e política de Arruda esteja totalmente definida. É a mesma situação do distrital Robério Negreiros.
Damares, evangélicos e o campo conservador
Outro ponto de indefinição se concentra em torno da senadora Damares Alves (Republicanos). Embora avaliadores políticos tenham especulado sua ida à disputa pelo Buriti, a hipótese é vista hoje como pouco provável. Damares, segundo fontes próximas, tem afirmado que apoiará Celina Leão para o governo local e deve concentrar esforços no fortalecimento de sua base evangélica — segmento que, historicamente, apresenta grande divisão interna no DF.
Lideranças religiosas começam a sinalizar para uma candidatura única no grupo evangélico, possivelmente compondo como vice em uma das chapas competitivas. No entanto, falta unidade e liderança capaz de comandar o bloco.
A esquerda busca rumo e aguarda o cenário nacional
No campo da esquerda, o clima é de estudo, conversas e espera. O PT trabalha a possibilidade de lançar novamente Leandro Grass, mas reconhece que o cenário só ficará claro após março de 2026, prazo final para filiações e formação de chapas majoritárias.
A recente melhora da avaliação do presidente Lula em pesquisas nacionais reacendeu o ânimo na esquerda local. Se o governo federal conseguir sinalizar recuperação econômica e avanços na saúde e no emprego, o reflexo nas urnas do DF pode ser expressivo — o que pode reorganizar as estratégias do bloco progressista.
Reguffe e Paula Belmonte: parceria encaminhada
Considerado um dos maiores patrimônios eleitorais do DF, o ex-senador Reguffe planeja disputar uma vaga na Câmara dos Deputados em 2026. A expectativa é que ele apoie Paula Belmonte (PSDB) ao governo. Paula, que recentemente migrou de partido, trabalha para consolidar seu nome na disputa majoritária e deve receber transferência de votos significativa vinda de Reguffe — que, na eleição passada, perdeu espaço ao escolher uma legenda que não lhe ofereceu estrutura adequada.
Um tabuleiro aberto e um DF em ebulição política
O Distrito Federal vive um cenário político ainda nebuloso e em transformação. Celina Leão segue com vantagem, apoiada por estrutura, visibilidade administrativa e articulações crescentes.
Já a esquerda aguarda condições externas para decidir seu caminho, enquanto o campo evangélico busca unidade e protagonismo. Entre candidatos tradicionais, novas lideranças surgem diariamente.
O único consenso entre especialistas é que não existe eleição ganha de antemão — apenas trabalho, estratégia e capacidade de articulação. E, para o DF, esse jogo está apenas começando.
Até março de 2026, ainda haverá muitas movimentações, surpresas, alianças improváveis e reviravoltas. O tabuleiro está armado — e as peças ainda estão longe de parar.
Como dizia o saudoso Magalhçaes Pinto: “Política é igual uma nuvem. Você olha está de um jeito. Olha de novo e já mudou”.
*Delmo Menezes – Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais com experiência em diversos órgãos da administração direta e indireta. Analista político e observador atento da política local e nacional. Editor-Chefe do portal de notícias Agenda Capital.





