Na praia de Odessa, há avisos sobre a presença de minas explosivas. Reprodução.

Praias cheias e sirenes constantes. Veja a realidade de Odessa durante a guerra na Ucrânia

Por Redação

Eu não visitava o mar havia vários anos. Por isso, quando tive três dias de folga, decidi viajar para Odessa, um dos balneários mais famosos da Ucrânia.

Queria descansar, mudar de ambiente e esquecer, ainda que por pouco tempo, a rotina da guerra. E consegui. Nem os bombardeios constantes, nem a multidão de turistas impediram que eu aproveitasse a viagem.

O que mais me surpreendeu, porém, foram os preços elevados e a naturalidade com que os visitantes convivem com a ameaça permanente dos ataques russos.

A estrada que liga Kiev a Odessa está em excelentes condições. A rodovia foi recuperada e o asfalto apresenta boa qualidade em praticamente todo o percurso.

Em contrapartida, o combustível está muito caro. Mesmo com um consumo moderado, a viagem de ida e volta saindo de Kiev custou cerca de US$ 130 (aproximadamente R$ 722).

Em três dias, um casal pode gastar cerca de US$ 1.000 (em torno de R$ 5.552), sem extravagâncias, mantendo um padrão típico de classe média.

A alimentação merece destaque. Além dos preços elevados — um jantar simples para duas pessoas custa, em média, US$ 50 (cerca de R$ 278) —, os restaurantes costumam estar lotados, tornando necessário fazer reservas com vários dias de antecedência.

Mas o aspecto mais impressionante é o contraste vivido pela cidade. De um lado, hotéis luxuosos, praias movimentadas, restaurantes sofisticados e a atmosfera típica de um destino turístico de verão. Do outro, a ameaça permanente de bombas, mísseis e minas.

Odessa é um dos principais balneários da Ucrânia, mas tem fortes laços com a Rússia czarista e a União Soviética. Reprodução.

Em apenas dois dias consecutivos, ataques russos provocaram mortes e destruição em Odessa. O centro histórico também foi atingido.

Os bombardeios são mais frequentes do que em Kiev. As sirenes de alerta costumam soar entre quatro e seis vezes por dia, inclusive durante a madrugada.

A cidade sofreu danos significativos, principalmente nas áreas próximas ao porto.

Mesmo assim, as praias permanecem cheias.

Os canais de televisão locais informam, em tempo real, a trajetória dos mísseis. Em determinado momento, o alerta indicava que um projétil seguia em direção à praia de Ibiza, uma das mais conhecidas da cidade.

Na praia vizinha, a reação dos banhistas era de aparente tranquilidade. Comentários como “está indo para Ibiza, não para cá” eram comuns, embora as duas praias estejam separadas por apenas quatro quilômetros.

Existem abrigos antiaéreos nas praias, mas, para alcançá-los, é necessário caminhar cerca de dez minutos. Por isso, muitas pessoas simplesmente permanecem no local observando os mísseis cruzarem o céu.

Durante um dos bombardeios mais intensos, corremos em busca de proteção. Acabamos em um bar coberto apenas por um teto de palha — uma proteção muito mais psicológica do que efetiva.

A importância estratégica de Odessa

O que acontece em Odessa durante a guerra vai muito além da destruição provocada pelos ataques.

A cidade possui enorme importância histórica, cultural e estratégica para a Rússia.

Localizada na costa noroeste do Mar Negro, Odessa abriga mais de um milhão de habitantes e é um dos principais centros culturais, turísticos e logísticos da Ucrânia.

Conhecida como a “Pérola do Mar Negro”, destaca-se pela arquitetura histórica de forte influência francesa e italiana, muito diferente do estilo predominante em outras cidades ucranianas.

Especialistas apontam que Odessa sempre teve características próprias e preservou, ao longo do tempo, fortes vínculos culturais com a Rússia.

Dois acontecimentos marcaram profundamente sua história.

O primeiro ocorreu em 1905, quando um levante de trabalhadores, apoiado pela tripulação do encouraçado Potemkin, terminou em um massacre promovido pelas forças czaristas. Estima-se que cerca de mil pessoas tenham morrido.

O episódio ficou eternizado no clássico filme O Encouraçado Potemkin, dirigido por Sergei Eisenstein em 1925.

O segundo aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1941, tropas romenas e alemãs atacaram Odessa. A resistência da cidade durou 73 dias e resultou na morte de dezenas de milhares de soldados soviéticos. Posteriormente, Odessa recebeu da União Soviética o título de “Cidade Heroica”.

Em Odessa, o maior porto marítimo da Ucrânia, os ataques russos ocorrem dia e noite. Reprodução.

Praias entre minas marítimas

Neste ano, diversas praias de Odessa voltaram a ser abertas ao público.

As minas marítimas continuam representando um risco, mas os quebra-mares instalados ao longo da costa reduzem a possibilidade de que elas cheguem às áreas de banho.

Na praia que visitei com mais frequência havia pessoas de todas as idades, desde crianças até idosos. O cenário continua semelhante ao dos tempos de paz: vendedores ambulantes oferecem espigas de milho, rapanas (um tipo de molusco marinho) e baklava, tradicional doce folhado recheado com nozes ou pistaches.

Outro aspecto marcante é que a maioria dos moradores da região ainda fala russo.

Também estivemos em Sanzhiyka, local que ganhou glampings — modalidade de hospedagem que combina camping com conforto —, bares e escadarias ligando a encosta ao mar.

Como ali não existem quebra-mares e o mar é aberto, o risco de minas marítimas é maior. Por isso, preferi não entrar na água.

Outra parada foi o tradicional mercado Privoz. A variedade de produtos impressiona. Os preços são semelhantes aos de Kiev, mas frutas e verduras apresentam qualidade superior graças ao clima mais ensolarado da região.

Odessa também vive um processo de valorização da gastronomia local, destacando pratos tradicionais, como o forshmak, preparado à base de arenque, além de receitas feitas com tomates Mikado e outras especialidades regionais.

À noite, parte da cidade permanece às escuras devido aos cortes no fornecimento de energia causados pela guerra. O som constante dos geradores toma conta das ruas, enquanto as sirenes e os sistemas de defesa antiaérea lembram que o conflito permanece ativo.

Mesmo assim, músicos continuam se apresentando nas ruas, preservando parte da vida cultural da cidade.

Odessa segue sendo uma cidade fascinante e cheia de personalidade, apesar da guerra.

Alguns trechos da praia de Odessa são protegidos contra minas marítimas. Reprodução.

Distanciamento do passado russo

Desde 2023, Odessa passa por um processo de retirada de símbolos ligados ao período imperial russo.

Monumentos, nomes de ruas e inscrições relacionados à Rússia vêm sendo substituídos. Entre eles, a estátua da imperatriz Catarina II, além de ruas que homenageavam personalidades russas e soviéticas.

Também cresce o incentivo ao uso da língua ucraniana em uma cidade onde o russo ainda é amplamente falado.

Para muitos moradores, a guerra acelerou esse processo de mudança cultural e de afirmação da identidade nacional ucraniana.

Siga o Agenda Capital no Instagram>https://www.instagram.com/agendacapital

Da Redação com informações da BBC News Mundo

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here